Anthropic construiu um laboratório úmido para impulsionar a IA na ciência farmacêutica

Renê Fraga
10 min de leitura

Principais destaques

  • IA ganha laboratório físico A Anthropic criou discretamente um laboratório úmido na região da Baía de São Francisco para levar seus modelos de IA a experimentos biológicos reais.
  • Pesquisadores terão acesso ampliado O novo programa permite que instituições credenciadas usem modelos avançados, incluindo a linha Mythos, com salvaguardas adaptadas a pesquisas de biologia.
  • A aposta vai além de medicamentos A empresa quer provar que seus modelos podem acelerar ciência experimental, enquanto tenta equilibrar biossegurança, clientes farmacêuticos e suas próprias ambições no setor.

A Anthropic já tinha Claude, GPUs e pesquisadores. Agora tem também tubos de ensaio.

Segundo reportagem da Reuters publicada nesta sexta-feira, a empresa construiu discretamente um laboratório úmido, estrutura física destinada a experimentos de biologia, na região da Baía de São Francisco.

É uma mudança importante de cenário. A IA deixa de ser apenas a ferramenta que analisa dados, escreve código ou sugere hipóteses e começa a participar do processo que precisa terminar diante de uma bancada de laboratório.

A porta foi aberta para pesquisadores 🧬

Na quarta-feira, 17 de setembro, a Anthropic anunciou o Programa de Verificação em Ciências da Vida (LSVP), inicialmente em beta.

A iniciativa permite que laboratórios acadêmicos verificados, startups e empresas farmacêuticas se candidatem a acesso aos modelos Mythos 5.1, Opus 5 e Sonnet 5.

O programa foi dividido em duas modalidades.

ModalidadeComo funciona
Uso PadrãoPara a maior parte dos fluxos de pesquisa e desenvolvimento, com renovação anual
Uso de Alto RiscoPara pesquisas de uso dual, como caracterização de vetores virais; exige renovação a cada seis meses

A segunda modalidade é particularmente relevante porque envolve trabalhos nos quais o mesmo conhecimento pode ter aplicações legítimas e usos potencialmente perigosos.

🔐 A mudança está nas salvaguardas: pesquisas classificadas como de alto risco podem ter restrições adicionais removidas, mas passam a ser acompanhadas dentro de um modelo específico de controle.

A Anthropic afirma que desenhou o programa a partir de três cenários de ameaça: comprometimento de contas, ameaças internas e utilização indevida por agentes autônomos.

Em vez de depender apenas de bloqueios durante a interação, a empresa pretende deslocar parte da fiscalização para o monitoramento comportamental offline, com retenção de dados por 30 dias.

E por que flexibilizar justamente agora? ⚠️

Existe uma razão óbvia para a cautela.

A própria Anthropic afirmou que seu relatório de inteligência de ameaças de setembro de 2026 identificou tentativas cada vez mais sofisticadas de utilizar sua plataforma em aplicações biológicas. Segundo a avaliação da empresa, alguns casos poderiam contribuir para o desenvolvimento de armas biológicas.

O novo programa, portanto, tenta resolver um problema complicado: como permitir que pesquisadores usem uma IA poderosa para fazer ciência sem transformar a mesma capacidade em um atalho para usos perigosos?

Não existe uma resposta puramente técnica para isso.

É também uma questão de quem recebe acesso, quais projetos são autorizados e como o comportamento dos usuários é acompanhado depois.

Dezenas já entraram na fila 🚪

A Anthropic diz que já integrou dezenas de organizações durante o acesso antecipado.

A expectativa é chegar a centenas de participantes na primeira semana.

Entre os primeiros parceiros a anunciar planos para participar estão Xaira, Edison e Manifold Bio.

Por enquanto, o acesso é direcionado a organizações. Mais adiante, a empresa pretende ampliar o programa para assinantes individuais dos planos Pro e Max.

Isso muda o tamanho potencial da iniciativa.

Uma coisa é colocar um modelo poderoso nas mãos de pesquisadores de algumas organizações selecionadas. Outra é transformar essa capacidade em uma ferramenta disponível para um número muito maior de profissionais trabalhando diretamente com biologia.

O Claude também está aprendendo a acelerar modelos 🔬

O laboratório físico não aparece sozinho.

A Anthropic publicou uma pesquisa mostrando que o Claude conseguiu otimizar mais de 30 modelos de biologia molecular de código aberto em menos de quatro semanas.

O resultado informado pela empresa foi uma aceleração média de aproximadamente quatro vezes.

O exemplo mais chamativo veio de um benchmark de design de proteínas.

Segundo a Anthropic, o Claude conseguiu igualar o desempenho de campanhas tradicionais que custariam aproximadamente US$ 10 mil por alvo, usando uma única GPU Nvidia H200 durante 24 horas.

Custo computacional estimado: cerca de US$ 150.

💡 A diferença é quase de uma oficina inteira para uma peça de computador: a mesma tarefa experimental pode passar a depender muito mais de otimização computacional antes de chegar ao laboratório.

E há outro detalhe importante: o código otimizado foi disponibilizado no GitHub sob a licença Apache 2.0.

Ou seja, a pesquisa não ficou restrita aos sistemas internos da Anthropic.

Mas a bancada ainda manda 🧪

É aqui que entra o laboratório úmido.

Eric Kauderer-Abrams, chefe de ciências da vida da Anthropic, confirmou à Reuters a existência da instalação e explicou por que a empresa decidiu investir no mundo físico.

Segundo ele, a Anthropic acredita que, na biologia, o teste definitivo ainda acontece, e continuará acontecendo por algum tempo, no trabalho de laboratório real.

A lógica é relativamente simples.

Um modelo pode propor uma proteína, otimizar um algoritmo ou sugerir um experimento. Mas a hipótese precisa sobreviver ao contato com moléculas, células, equipamentos e resultados que nem sempre obedecem ao que parecia plausível no computador.

🧫 É o velho choque entre simulação e realidade: por melhor que seja o modelo, a biologia ainda exige que alguém faça o experimento.

E se os robôs fizerem a parte chata? 🤖

A Anthropic também está explorando outra possibilidade: usar o Claude para direcionar unidades robóticas capazes de executar experimentos com intervenção humana limitada.

Isso adiciona uma nova camada à história.

A IA poderia participar de um ciclo muito mais próximo de:

1️⃣ Projetar: formular hipóteses e definir experimentos.

2️⃣ Executar: orientar sistemas robóticos no laboratório.

3️⃣ Observar: analisar os resultados produzidos.

4️⃣ Otimizar: usar os dados para definir a próxima rodada.

É uma ideia bem diferente de simplesmente perguntar algo a um chatbot.

Nesse modelo, a IA passa a ocupar uma posição dentro do próprio processo científico.

O problema é que farmacêutica também é negócio 💰

A expansão acontece enquanto a Anthropic tenta aprofundar sua presença no setor farmacêutico.

A empresa já atende grandes nomes da indústria, incluindo Genentech, da Roche, Bristol Myers Squibb e Novo Nordisk.

Ao mesmo tempo, está desenvolvendo suas próprias capacidades de descoberta de medicamentos.

É aí que aparece uma tensão comercial.

Se uma empresa de IA ajuda farmacêuticas a descobrir medicamentos, mas também desenvolve internamente capacidade para fazer descoberta de medicamentos, até onde vai o papel de fornecedor e onde começa o de concorrente?

Kauderer-Abrams disse à Reuters que a Anthropic estabeleceu um limite.

“Não estamos competindo com empresas farmacêuticas e de biotecnologia cujo negócio é levar medicamentos ao mercado”, afirmou.

Segundo ele, o foco está em doenças que a indústria não abordaria de outra maneira.

Uma aposta científica, mas também estratégica 📈

O movimento acontece enquanto a Anthropic se prepara para um possível IPO de grande porte.

Nesse contexto, demonstrar que seus modelos podem fazer mais do que gerar texto e código tem peso estratégico.

Biologia é um dos campos em que uma melhoria computacional pode eventualmente se transformar em algo muito concreto: experimentos mais rápidos, modelos moleculares mais eficientes e ciclos de pesquisa potencialmente mais curtos.

Mas o caminho não é automático.

A distância entre otimizar um modelo de biologia e desenvolver um medicamento continua enorme. Há validação experimental, segurança, eficácia, fabricação e uma longa sequência de etapas entre uma hipótese computacional e um produto que possa chegar a pacientes.

E existe ainda a questão que acompanha praticamente cada avanço recente de IA aplicada à biologia: quanto mais capaz fica a ferramenta para fazer ciência, mais importante se torna controlar quem pode usá-la e para quê.

A Anthropic agora está tentando resolver as duas coisas ao mesmo tempo.

Até aqui, o computador era o ponto de partida e o laboratório, o destino. Com uma bancada própria e modelos capazes de participar do ciclo experimental, a empresa começa a aproximar os dois. A próxima pergunta é quanto dessa ponte será percorrida por humanos e quanto poderá ser atravessado por máquinas.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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