IA lê pergaminho de Herculano que parecia perdido para sempre

Renê Fraga
8 min de leitura

Principais destaques

  • Quase 1,5 metro de texto: o PHerc. 1667 revelou cerca de 20 colunas contínuas sem precisar ser aberto fisicamente.
  • Uma voz estoica: o conteúdo trata de ética, comportamento e conceitos como impulso e sabedoria prática, possivelmente em um texto do século II a.C.
  • Mais de 600 ainda esperam: a mesma pesquisa também identificou uma obra desconhecida de Filodemo no PHerc. 139, enquanto centenas de pergaminhos continuam lacrados.

O pergaminho que não precisava ser aberto 📜

Durante quase dois milênios, o PHerc. 1667 ficou em uma situação curiosa: fisicamente preservado, mas praticamente impossível de ler.

Carbonizado pela erupção do Monte Vesúvio em 79 d.C., o pergaminho sobreviveu ao desastre que destruiu Herculano. O problema veio depois. Abrir o rolo poderia destruir justamente aquilo que os pesquisadores queriam recuperar.

Agora, pesquisadores do Desafio Vesúvio encontraram outro caminho: ler o que está escondido sem desembrulhar o objeto.

O anúncio foi feito em 25 de junho, durante uma conferência em Nápoles.

🔎 O tamanho da descoberta: a equipe recuperou quase 1,5 metro de texto contínuo, distribuído em aproximadamente 20 colunas.

É a leitura mais completa já realizada de um pergaminho lacrado de Herculano.

💡 O salto é simples de explicar: em vez de escolher entre preservar o artefato e conhecer seu conteúdo, os pesquisadores conseguiram fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

De “completamente ilegível” a texto filosófico 🧠

O PHerc. 1667 já havia passado por uma tentativa de abertura na década de 1980. Segundo Federica Nicolardi, professora assistente de papirologia da Università degli Studi di Napoli Federico II, o material foi considerado completamente ilegível.

A caligrafia e as referências encontradas dentro do próprio texto apontam para uma origem bastante antiga, provavelmente no século II a.C., embora o final do século III a.C. também seja uma possibilidade.

Isso coloca o pergaminho entre os exemplares mais antigos da coleção de Herculano.

📚 E o assunto não é qualquer um: a análise indica um tratado filosófico sobre ética, artes e comportamento humano, com características associadas ao pensamento estoico.

Impulso, virtude e sabedoria prática

Entre os conceitos recuperados está ὁρμή (hormē), ou impulso, entendido como a força que conduz seres humanos e animais à ação.

Outro termo importante é φρόνησις (phronēsis), associado à sabedoria prática. No texto, a ideia envolve a capacidade intelectual de escolher as virtudes em vez dos vícios.

São conceitos que podem parecer abstratos hoje, mas ajudam os especialistas a reconstruir não apenas o conteúdo do pergaminho, como também o ambiente intelectual em que ele foi produzido.

O autor e o título, porém, continuam desconhecidos.

🧩 O detalhe que chama atenção: a datação e o conteúdo tornam pouco provável que o texto seja mais uma obra de Filodemo de Gadara, o filósofo epicurista cujos escritos aparecem com frequência entre as descobertas anteriores de Herculano.

Isso abre uma possibilidade maior para a coleção: ela pode conter uma diversidade filosófica muito maior do que a já conhecida.

A máquina que enxergou através das cinzas ⚙️

Para chegar ao texto, os pesquisadores combinaram técnicas que parecem pertencer a mundos diferentes.

De um lado, estão as grandes instalações de síncrotron, capazes de produzir imagens extremamente detalhadas do interior dos materiais. De outro, entram algoritmos de inteligência artificial capazes de ajudar no processo de desdobramento virtual do pergaminho.

As varreduras foram realizadas em instalações como o ESRF, na França, e o Diamond Light Source, no Reino Unido.

O volume de informação é enorme.

💾 Estamos falando de até 300 terabytes de dados por pergaminho, segundo a equipe. No caso do ESRF, trata-se dos maiores conjuntos de dados desse tipo já produzidos pela instalação.

A lógica é quase como fazer uma tomografia de um objeto impossível de abrir e, depois, reconstruir digitalmente suas camadas.

O desafio de 2024 ficou pequeno

A nova leitura também mostra o quanto a tecnologia avançou em pouco tempo.

Em 2024, o Vesuvius Challenge ganhou atenção ao demonstrar que era possível recuperar cerca de 2.000 caracteres de um pergaminho carbonizado sem desenrolá-lo.

Na época, isso já parecia uma mudança de paradigma.

Agora, a equipe passou de milhares de caracteres para quase 1,5 metro de texto contínuo.

🚀 A escala mudou: não se trata mais apenas de provar que algumas letras podem ser recuperadas. O objetivo começa a se parecer com a reconstrução sistemática de obras inteiras.

Brent Seales, cofundador do Vesuvius Challenge e titular da Cátedra Stanley e Karen Pigman de Ciência do Patrimônio da Universidade de Kentucky, descreveu o avanço como resultado de anos de trabalho envolvendo imageamento, inteligência artificial, pesquisa acadêmica e competição por inovação.

E apareceu outro livro no caminho 👀

O PHerc. 1667 não foi a única surpresa anunciada.

A equipe também identificou no PHerc. 139 uma obra até então desconhecida: Sobre os Deuses, Livro 8, de Filodemo.

A descoberta resolve uma peça importante do quebra-cabeça. Pela primeira vez, os pesquisadores conseguiram estabelecer que o tratado se estendia muito além do único volume que era conhecido anteriormente.

Ou seja, a tecnologia não está apenas recuperando palavras.

Ela também está mudando o que os especialistas sabem sobre quais obras existiam, quantos volumes tinham e como esses textos circulavam.

Agora a bola está com os classicistas 📖

Talvez a consequência mais interessante esteja justamente na mudança de protagonista.

Até aqui, grande parte da atenção estava nos engenheiros, especialistas em computação, pesquisadores de imagem e cientistas responsáveis por tornar possível a leitura.

Agora vem a parte que nenhuma tomografia resolve sozinha.

🗣 O próximo desafio: ler, editar e interpretar o que foi recuperado.

É aí que entram papirologistas, historiadores, filólogos e especialistas em filosofia antiga. Identificar caracteres é apenas o começo. É preciso reconstruir palavras, entender frases, estabelecer variantes, identificar referências e descobrir quem escreveu o texto.

E existe uma biblioteca inteira esperando por esse trabalho.

Mais de 600 pergaminhos de Herculano permanecem fechados.

Isso significa que o PHerc. 1667 pode ser menos um ponto final do que uma demonstração de escala: se a combinação entre síncrotron, IA e desdobramento virtual continuar funcionando, cada novo pergaminho poderá trazer uma obra, um autor ou uma ideia que a história perdeu há quase dois mil anos.

No fim, a imagem do pergaminho permanece a mesma: um rolo negro, aparentemente silencioso, que sobreviveu ao Vesúvio.

A diferença é que agora o silêncio tem uma brecha. E há centenas de outros rolos esperando pela vez de falar.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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