Principais destaques
- Livros raros viram dados: uma investigação aponta que a Amazon compra grandes lotes de obras esgotadas, corta as encadernações e digitaliza as páginas para uso em IA.
- A operação passa por Las Vegas: funcionários descrevem a VGT3, uma área dentro de um centro da Amazon, dedicada ao recebimento, corte e escaneamento de livros.
- O valor do papel fica pelo caminho: além de preservar conteúdo fora da internet, livros antigos podem oferecer dados produzidos antes da explosão de textos gerados por IA.
A cena parece saída de uma linha de produção industrial. Caixas chegam, livros são retirados, as lombadas são cortadas e as páginas seguem para scanners.
No fim, o que era um objeto físico, às vezes raro e difícil de encontrar, deixa de existir como livro.
Segundo uma investigação publicada pelo 404 Media, esse seria o destino de grandes quantidades de obras compradas pela Amazon para alimentar dados usados no desenvolvimento de seus produtos e modelos de inteligência artificial.
📦 E o volume chama atenção: a investigação começou depois que o veículo colocou um Apple AirTag dentro de uma remessa com cerca de 1.000 livros e acompanhou o trajeto até um armazém da Amazon em Las Vegas.
A empresa confirmou que compra livros por canais comerciais, mas não respondeu quantos exemplares são destruídos nem quantas instalações semelhantes existem.
O livro que foi parar em Las Vegas 🏭
O carregamento rastreado saiu da Califórnia e passou por Wisconsin e Colorado antes de chegar ao centro da Amazon identificado como LAS8, em Las Vegas.
Ali, segundo trabalhadores ouvidos pela investigação, existe uma operação separada chamada VGT3.
O logotipo da unidade já é uma pequena pista da atividade: um Tiranossauro rex segurando um livro.
Mas o que acontece dentro seria bem menos simbólico.
🔎 A função da VGT3: trabalhadores afirmam que a unidade recebe grandes remessas de livros impressos, corta as encadernações e digitaliza as páginas.
Um funcionário descreveu a operação em um fórum interno da Amazon dizendo que alguns trabalhadores são responsáveis por cortar os livros, enquanto outros recebem os exemplares e escaneiam seus códigos de barras.
O processo transforma rapidamente uma coleção física em informação digital.
E existe uma razão para a escala aparentemente incomum dessas compras.
Por que comprar livros que quase ninguém procura?
Livreiros disseram ao 404 Media que recebem pedidos em grandes quantidades e pouco sensíveis ao preço, incluindo títulos aparentemente aleatórios.
Isso seria diferente do comportamento típico de bibliotecas, colecionadores ou compradores interessados no valor comercial de uma obra específica.
A suspeita relatada pela investigação é que empresas de IA estejam percorrendo catálogos globais de ISBNs para localizar sistematicamente livros que possam ser digitalizados.
📚 O detalhe mais curioso: muitos desses títulos são raros ou estão esgotados. Ou seja, justamente o tipo de material que pode ser difícil de encontrar em formato digital.
Para um colecionador, isso pode significar uma peça histórica.
Para um sistema de IA, significa uma sequência de texto que ainda não estava disponível em sua base de dados.
💡 É aí que os dois mundos entram em choque: para quem vende ou preserva livros, o objeto pode ter valor histórico e sentimental. Para quem treina modelos, o conteúdo pode ser tratado essencialmente como dados.
E por que livros físicos antigos interessam tanto? 🤖
Existe outro componente nessa história: a origem do texto.
Livros publicados antes de 2022, por exemplo, foram produzidos antes da atual explosão de conteúdo gerado por inteligência artificial. Isso os torna uma fonte potencialmente valiosa de material humano original para treinamento.
O problema é que modelos de IA também podem ser treinados com grandes volumes de textos sintéticos produzidos por outras IAs.
Quando isso acontece repetidamente, pesquisadores discutem um fenômeno conhecido como colapso do modelo, no qual a exposição excessiva a conteúdo gerado artificialmente pode degradar determinadas características dos dados usados posteriormente.
Não significa que qualquer texto produzido por IA inevitavelmente provoque esse efeito. A questão é a qualidade e a composição dos dados utilizados nos ciclos de treinamento.
🧠 O outro tesouro está fora da internet: livros físicos também podem conter informações que nunca foram digitalizadas ou disponibilizadas publicamente online.
Isso transforma acervos impressos em uma espécie de arquivo de dados ainda pouco explorado.
A estratégia já apareceu antes ⚖️
A prática também lembra o chamado “Projeto Panamá”, associado à Anthropic e revelado durante disputas judiciais envolvendo autores e livros usados para treinamento de IA.
Em junho de 2025, um juiz federal decidiu que a digitalização de livros adquiridos legalmente para treinamento de inteligência artificial poderia ser considerada uso justo. Um dos elementos envolvidos na análise foi justamente a destruição do exemplar físico depois da digitalização.
Esse precedente ajuda a explicar por que destruir o original pode fazer parte de determinadas estratégias de digitalização.
Mas ele não encerra todas as discussões sobre direitos autorais, aquisição de livros ou utilização posterior dos dados.
Amazon está mudando sua própria estratégia de IA 🚀
A descoberta também aparece em um momento de transformação na estratégia de inteligência artificial da Amazon.
A empresa vem reorganizando seus esforços em torno da pesquisa de modelos de fronteira. Segundo o material-base da investigação, vários modelos Nova internos foram encerrados e os esforços foram consolidados em um grupo de Pesquisa de Modelos de Fronteira liderado por Pieter Abbeel.
A mudança aconteceu depois da saída de Rohit Prasad, então chefe de IA da Amazon, em dezembro de 2025.
Ou seja, a história dos livros não está isolada.
Ela se encaixa em uma corrida maior por dados, capacidade computacional e modelos cada vez mais sofisticados.
O que acontece com o valor do livro? 📖
É aqui que a matemática da inteligência artificial bate de frente com a lógica dos colecionadores.
Um livro raro pode valer dinheiro por sua edição, conservação, autoria ou importância histórica. Pode carregar anotações, marcas de uso e uma história própria.
Depois de cortado e escaneado, boa parte desse valor desaparece.
Para a IA, porém, o conteúdo continua existindo.
💰 São duas formas completamente diferentes de medir a mesma coisa: um lado enxerga um objeto; o outro, informação.
O livreiro anônimo ouvido pelo 404 Media resumiu justamente esse conflito ao dizer que existem diferentes tipos de valor, como o histórico, intelectual e sentimental, enquanto empresas de IA estariam interessadas no conteúdo como um conjunto de palavras.
E se o livro for insubstituível? 🔥
Essa talvez seja a parte mais difícil de ignorar.
Uma biblioteca pode catalogar milhares de livros. Um colecionador pode preservar uma edição durante décadas. Mas, quando um exemplar raro é destruído, não existe garantia de que outro esteja disponível para ocupar seu lugar.
Ao mesmo tempo, a digitalização pode preservar o texto de uma obra que, de outra forma, correria risco de desaparecer.
É uma troca estranha: o conteúdo sobrevive enquanto o objeto morre.
A investigação sobre a VGT3 coloca essa contradição em escala industrial. O que antes era uma tarefa de preservação, feita página por página, pode agora também ser uma etapa da corrida para construir modelos de IA.
E, enquanto scanners transformam livros em dados, permanece uma pergunta que não cabe em nenhum código de barras: quanto vale preservar o livro, quando o que interessa para a máquina é apenas o que está dentro dele?
