Principais destaques
- A conta energética disparou: o consumo de eletricidade dos data centers pode quase dobrar até 2030, chegando a 950 TWh por ano.
- A ONU elevou o tom: Simon Stiell cobrou das empresas de IA medidas concretas para reduzir emissões e alertou sobre a perda de apoio público.
- A COP31 quer colocar o tema na mesa: a presidência turca pretende levar o impacto energético e ambiental da IA para o centro das negociações climáticas.
A inteligência artificial chegou à Semana do Clima de Nova York com uma questão pouco confortável: quanto mais poderosa fica, mais eletricidade precisa.
E não é pouca coisa.
Enquanto líderes mundiais se reúnem para a Semana do Clima de NYC e a Assembleia Geral das Nações Unidas, a presidência turca da próxima COP31 tenta transformar o consumo energético da IA em um dos assuntos centrais das negociações climáticas.
A próxima cúpula está prevista para ocorrer de 9 a 20 de novembro, em Antalya, na Turquia.
⚡ O tamanho da conta: a Agência Internacional de Energia projeta que o consumo global de eletricidade dos data centers passe de 485 TWh em 2025 para 950 TWh em 2030. Isso equivale a praticamente dobrar em cinco anos e chegar a cerca de 3% do consumo elétrico mundial.
O recado da ONU foi direto 🗣️
O chefe de clima da ONU, Simon Stiell, decidiu mirar justamente na indústria de inteligência artificial.
Segundo ele, a tecnologia, cada vez mais voraz em energia, está ampliando a poluição associada ao carvão, petróleo e gás e também pressionando os custos de energia para famílias e empresas.
Stiell afirmou ainda que os líderes da IA estão “pisando em gelo fino” quando o assunto é sua licença para operar e que estão “afundando fundo” quando se trata de apoio público.
A cobrança veio acompanhada de um pedido para que as empresas de IA reduzam suas emissões.
💡 O ponto de tensão: a IA promete eficiência e novas soluções para problemas climáticos, mas sua própria expansão está criando uma demanda crescente por eletricidade.
E esse conflito deve ficar cada vez mais difícil de ignorar.
Uma tecnologia que também precisa de energia 🔎
A Associação Nacional de Inteligência Artificial afirma que a tecnologia atualmente responde por cerca de 1,5% da eletricidade global e pode chegar a 3% até o fim da década.
O argumento do setor é que olhar apenas para o consumo bruto não conta toda a história.
A tecnologia está ficando mais eficiente. O Google, por exemplo, reportou uma redução de 33 vezes no consumo de energia por prompt de texto de IA ao longo do último ano.
Ou seja, cada interação pode exigir menos energia. O problema é que o número de interações, modelos e data centers continua crescendo.
📈 A matemática é incômoda: eficiência por tarefa não significa necessariamente queda no consumo total quando a quantidade de tarefas aumenta em ritmo acelerado.
A eletrificação virou uma das apostas da COP31 ⚙️
A presidência turca da COP31 propôs elevar a participação da eletricidade na demanda energética final global de pouco mais de 20% para 35% até 2035.
A ideia coloca a eletrificação no centro da transição energética.
Mas existe uma peça importante nesse quebra-cabeça: a fonte dessa eletricidade.
Se a demanda cresce apoiada em carvão, petróleo e gás, a eletrificação por si só não resolve o problema climático. É justamente aí que a expansão dos data centers encontra a discussão sobre a matriz energética.
Analistas do Fórum Econômico Mundial alertaram que a IA ainda está “praticamente ausente do planejamento climático e energético”.
Então surge uma pergunta difícil: como planejar uma transição energética sem incorporar uma das tecnologias que mais rapidamente estão aumentando a demanda por eletricidade?
A pressão não vem só dos data centers 🌍
A Semana do Clima também acontece sob o peso de outras crises.
As guerras no Irã e na Ucrânia elevaram os preços dos combustíveis fósseis. Stiell afirmou que a escassez de energia decorrente do conflito com o Irã custou mais de US$ 100 bilhões aos consumidores americanos.
Enquanto isso, eventos extremos continuam dando uma dimensão concreta ao debate climático.
No mês passado, o colapso catastrófico de uma geleira na fronteira entre Nepal e China matou mais de 1.400 pessoas e deixou milhares de desaparecidos, segundo o material divulgado para a discussão desta semana.
🌡️ A mudança de escala: Bill Hare, CEO da Climate Analytics, resumiu a transformação dizendo que o mundo passou de identificar as impressões digitais das mudanças climáticas em eventos isolados para enxergar sua marca no mundo inteiro.
É um contexto que torna a discussão sobre energia muito menos abstrata.
As renováveis estão crescendo. Mas basta? ☀️
Há uma boa notícia no meio dessa equação.
Um novo relatório apresentado durante a Semana do Clima apontou que 693 GW de capacidade renovável foram adicionados globalmente em 2025, um recorde.
Só que o número vem acompanhado de uma exigência ainda maior.
Para cumprir a meta de triplicar a capacidade renovável estabelecida em 2023, o mundo precisará instalar entre 2026 e 2030 mais capacidade do que instalou em todos os anos anteriores somados.
É uma corrida contra duas velocidades: a expansão das fontes renováveis e o crescimento da demanda.
🔋 O gargalo aparece aqui: Johan Rockström, do Instituto Potsdam de Pesquisa sobre Impactos Climáticos, afirmou que as renováveis estão atendendo à crescente demanda, mas ainda não estão “mudando a trajetória” do uso de combustíveis fósseis.
E a IA virou assunto de protesto 🚨
A tensão já saiu das salas de negociação.
Ativistas planejam colocar a inteligência artificial no centro dos protestos climáticos desta semana, aproximando o debate sobre data centers de uma preocupação bem mais cotidiana: a conta de luz.
Mar Zepeda, da Aliança por Justiça Climática, resumiu essa mudança de linguagem ao afirmar que o tema está se tornando concreto para as pessoas porque envolve justamente o que acontece com suas contas de energia.
Isso ajuda a explicar por que a discussão sobre IA está deixando de ser apenas uma conversa sobre chips, modelos e capacidade computacional.
É também uma conversa sobre infraestrutura, eletricidade, combustíveis e quem paga por essa expansão.
Antalya terá de lidar com essa conta ⚡
Quando a COP31 chegar à Turquia, em novembro, a questão será maior do que simplesmente calcular quanta energia a inteligência artificial consome.
Será preciso colocar na mesma equação a expansão dos data centers, a velocidade da eletrificação, a construção de novas fontes renováveis e a permanência dos combustíveis fósseis na matriz energética.
A indústria de IA, por sua vez, terá de responder a uma cobrança que começa a ganhar forma política e pública: se a tecnologia pretende ajudar a enfrentar desafios climáticos, como pretende administrar o impacto ambiental da própria expansão?
Por enquanto, a corrida continua.
De um lado, mais modelos, mais usuários e mais centros de processamento. Do outro, uma infraestrutura energética que precisa crescer e, ao mesmo tempo, mudar.
A questão que chega a Antalya é quase uma continuação daquela conta de luz citada pelos ativistas: até onde a eletrificação conseguirá acompanhar a IA sem aumentar justamente a pressão climática que ela promete ajudar a resolver?
