Anúncios no ChatGPT podem usar e-mails, telefones e prompts para segmentar usuários

Renê Fraga
8 min de leitura

Principais destaques

  • Listas de contatos entram na mira: anunciantes podem enviar e-mails, telefones e IDs de publicidade do Google para formar públicos personalizados.
  • Os prompts ajudam a definir o contexto: campanhas podem ser direcionadas a conversas sobre assuntos específicos, como privacidade e inteligência artificial.
  • Desativar a personalização não elimina anúncios: segundo a investigação, a conversa atual ainda pode influenciar quais anúncios são exibidos.

A publicidade chegou ao ChatGPT com uma combinação que promete acender o debate sobre privacidade: anunciantes podem direcionar campanhas usando listas de contatos e sinais contextuais relacionados às conversas.

Uma investigação do site 404 Media, identificou esses recursos após o veículo comprar e veicular duas campanhas publicitárias na plataforma.

🔎 Como os anunciantes encontram seu público?

A investigação do 404 Media revelou que a plataforma publicitária da OpenAI oferece ferramentas de segmentação semelhantes às encontradas em outras grandes redes de publicidade.

Os anunciantes podem enviar listas de endereços de e-mail e números de telefone, tanto em texto puro quanto em formato hash, uma representação criptográfica dos dados. Também é possível utilizar identificadores de publicidade do Android, fornecidos pelo ecossistema do Google.

A partir dessas informações, a OpenAI cruza os dados com as contas do ChatGPT para identificar correspondências.

Existe, porém, uma restrição importante: segundo a documentação citada na reportagem, os públicos precisam ter pelo menos 25 mil usuários correspondentes para serem usados na segmentação ou no ajuste de lances. Listas menores podem ser utilizadas para excluir pessoas de campanhas.

💡 O detalhe que merece atenção: isso não significa que um anunciante possa escolher uma pessoa específica e ordenar que um anúncio apareça exclusivamente para ela. A ferramenta trabalha com públicos, e a OpenAI afirma que os anunciantes não conseguem identificar quem correspondeu às listas.

Ainda assim, o uso de informações de contato para encontrar usuários dentro de um chatbot amplia o debate sobre como os dados pessoais circulam entre plataformas de publicidade e serviços de inteligência artificial.

🧠 E as perguntas que você faz ao ChatGPT?

É aqui que a história fica mais delicada.

Além dos dados de contato, anunciantes podem adicionar instruções contextuais, chamadas de dicas de contexto, para indicar os assuntos ou as situações de conversa em que desejam exibir seus anúncios.

O 404 Media testou o recurso com campanhas que alertavam que o ChatGPT não é privado. Segundo o veículo, os anúncios foram direcionados a pessoas que faziam perguntas relacionadas à privacidade e à inteligência artificial.

O jornalista Joseph Cox relatou no X que conseguiu configurar a segmentação em aproximadamente cinco minutos.

O ponto central não é apenas quem você é, mas também o assunto sobre o qual está conversando com a IA.

Isso não comprova, por si só, que cada pergunta seja entregue individualmente aos anunciantes ou que eles tenham acesso ao histórico de conversas dos usuários. É importante separar a segmentação contextual da divulgação direta do conteúdo de um chat.

Mas a possibilidade de relacionar anúncios a determinados assuntos levanta uma questão legítima: até que ponto as pessoas compreendem como suas conversas podem influenciar a publicidade que recebem?

⚙️ Desativar a personalização resolve?

Não completamente.

Segundo a reportagem, o ChatGPT permite desativar a personalização de anúncios. A configuração, entretanto, informa que os anúncios ainda podem se basear na conversa atual.

Na prática, é necessário distinguir duas coisas:

RecursoO que significa
Personalização de anúnciosPermite ajustar a publicidade com base nos sinais e nas opções de personalização disponíveis.
Segmentação contextualRelaciona a publicidade ao assunto ou ao contexto da interação atual.
Desativar a personalizaçãoNão significa necessariamente deixar de ver anúncios.

Portanto, desabilitar a personalização não deve ser interpretado como garantia de que o conteúdo da conversa deixará de influenciar a publicidade exibida.

🛡️ O que a OpenAI diz sobre os dados?

Um porta-voz da OpenAI afirmou ao 404 Media que os arquivos enviados pelos anunciantes são excluídos após o processamento, geralmente em até 24 horas.

A empresa também declarou que estar na lista de um anunciante não garante a exibição de um anúncio e que os anunciantes não conseguem ver quais pessoas foram correspondidas nem selecionar indivíduos específicos dentro de um público.

Há outras duas distinções relevantes:

  • A OpenAI afirma que as conversas não são compartilhadas com anunciantes ou parceiros de marketing.
  • A empresa afirma que os anúncios não influenciam as respostas produzidas pelo ChatGPT.

A reportagem também observou que a OpenAI não esclareceu se aplica hash aos dados de contato brutos no momento do envio, como faz a Meta em seu processo de correspondência de públicos.

Essas declarações não são equivalentes a uma auditoria independente do funcionamento da plataforma. Elas descrevem as garantias apresentadas pela própria empresa.

💰 A publicidade ganha espaço no negócio da IA

A investigação também ocorre em meio à expansão do negócio publicitário da OpenAI. Segundo o material fornecido, os anúncios foram lançados nos Estados Unidos em fevereiro de 2026 e posteriormente chegaram a outros mercados. Em outubro, a empresa começou a exibir publicidade ao lado de resultados de geração de imagens, de acordo com o 404 Media.

Os anúncios são destinados aos planos gratuitos Free e Go. Os planos pagos Plus, Pro, Business, Enterprise e Edu não exibem publicidade, segundo o texto do Gadget Review.

Com uma base de usuários em grande escala, a publicidade representa uma oportunidade comercial importante. Mas também cria um desafio de confiança: as pessoas usam chatbots para pesquisar produtos, resolver dúvidas e discutir questões que nem sempre gostariam de associar a anúncios direcionados.

📊 Um mercado que pede mais transparência: Zach Edwards, cofundador da empresa de pesquisa em publicidade DecryptAds, defendeu regras mais rigorosas para empresas que comercializam ou utilizam informações pessoais na publicidade digital. Sua proposta envolve fortalecer as obrigações dos intermediários de dados e oferecer mecanismos claros para que as pessoas removam suas informações desses sistemas.

A pergunta que fica para os usuários

O debate não se resume a saber se um anúncio aparece depois de determinada pergunta. É preciso entender quais dados são utilizados, quais controles estão disponíveis e o que efetivamente muda quando uma opção de personalização é desativada.

Quanto mais a IA se torna um espaço para conversas pessoais, maior é a expectativa de que as regras de publicidade sejam claras e compreensíveis.

E, se uma pergunta sobre privacidade pode ajudar a definir qual anúncio aparece na tela, a transparência deixa de ser apenas uma questão técnica. Ela passa a ser parte essencial da confiança que sustenta o próprio serviço.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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