FigCraft quer substituir o Figma com design offline e agentes de IA

Renê Fraga
11 min de leitura

Principais destaques

  • Design sem depender da nuvem: o FigCraft é um editor de código aberto que mantém os projetos no dispositivo do usuário e funciona sem exigir conta ou assinatura.
  • Mais de 400 comandos para agentes de IA: a ferramenta oferece CLI, canal de controle JSON e servidor MCP para permitir que agentes compatíveis executem ações diretamente no aplicativo.
  • Ainda está longe de substituir o Figma: o projeto está em fase alfa, com colaboração limitada e importação de arquivos do Figma sem garantia de compatibilidade perfeita.

E se você pudesse criar interfaces, montar protótipos e preparar projetos para desenvolvedores sem depender da infraestrutura de uma plataforma como o Figma?

Essa é a proposta do FigCraft, um editor de design de interfaces desenvolvido em Rust e distribuído como software de código aberto. A ferramenta reúne recursos conhecidos de design de produtos digitais, mas aposta em duas diferenças: manter os arquivos localmente e permitir que agentes de inteligência artificial controlem o aplicativo.

브런치

Interface do editor FigCraft. Imagem ilustrativa do projeto ArtCraft.

A ideia vai além de oferecer uma alternativa gratuita. O FigCraft tenta aproximar duas tendências que estão ganhando força no desenvolvimento de software: aplicativos que dão ao usuário mais controle sobre seus dados e ferramentas que permitem à IA executar tarefas dentro de programas reais.

🎨 Um editor completo, sem exigir uma conta

O FigCraft reúne vários dos elementos que profissionais de UX e UI esperam encontrar em um editor moderno.

Entre os recursos descritos pelo projeto estão:

  • Auto layout: organização automática de elementos e componentes.
  • Componentes e variantes: reutilização de elementos visuais em diferentes telas.
  • Ferramentas vetoriais: criação e edição de formas e gráficos.
  • Protótipos interativos: conexões entre telas para simular a navegação de um produto.
  • Inspeção para desenvolvedores: medidas, anotações e geração de código em formatos como CSS, HTML, React, SwiftUI e Compose.

Isso permite trabalhar em etapas que vão da concepção visual à preparação de uma interface para implementação.

🔒 O diferencial está nos arquivos: os projetos são armazenados no próprio computador, em arquivos com extensão .figcraft. Segundo o projeto, o aplicativo não exige uma conta, não envia telemetria e pode funcionar sem conexão com a internet.

A ferramenta também oferece importação e exportação em formatos como SVG, PNG, JPG, WebP e PDF.

Mas existe uma ressalva importante para quem já trabalha com o Figma: abrir arquivos .fig é um recurso de compatibilidade experimental, sem garantia de que todos os elementos serão preservados corretamente.

🤖 Mais de 400 comandos para colocar a IA no controle

A característica mais interessante do FigCraft talvez não esteja na interface visual, mas na maneira como outros programas podem interagir com ela.

O projeto disponibiliza mais de 400 comandos para controlar ferramentas e menus. Eles podem ser acessados por três mecanismos:

  • CLI: execução de comandos por uma interface de linha de comando.
  • Canal JSON: comunicação estruturada com o aplicativo.
  • MCP: integração com agentes e ferramentas de IA compatíveis com o Model Context Protocol.

Na prática, isso abre espaço para um agente criar componentes, alterar propriedades, organizar elementos e executar outras operações diretamente no editor, conforme os comandos disponíveis e as capacidades de integração.

💡 A mudança de perspectiva: em vez de a IA apenas sugerir como uma interface deveria ser construída, ela pode passar a executar ações no próprio ambiente de design.

Isso não significa que o FigCraft já seja capaz de criar produtos inteiros de forma autônoma. O acesso por comandos é uma infraestrutura para automação, não uma garantia de que o resultado será visualmente bom ou tecnicamente correto.

A qualidade continua dependendo do agente utilizado, das instruções fornecidas e da complexidade da tarefa.

🧩 O design está virando um ambiente para agentes

O movimento acompanha uma transformação mais ampla no software criativo.

Durante anos, ferramentas de IA funcionaram principalmente como assistentes externos: o usuário descrevia uma tarefa, recebia uma resposta e precisava transferir o resultado manualmente para outro programa.

Agora, projetos como o FigCraft exploram outra possibilidade: conectar agentes diretamente às ferramentas nas quais o trabalho acontece.

O Figma também caminha para aproximar design e desenvolvimento, embora por outro caminho. O recurso Code Layers, apresentado na Config 2026, busca integrar código executável à experiência de design.

A diferença está na abordagem. Enquanto uma plataforma pode incorporar recursos de desenvolvimento ao seu próprio ambiente, o FigCraft expõe operações do editor para que sistemas externos possam controlá-lo.

🔎 O que isso muda? A capacidade de integração com agentes pode se tornar um critério importante na escolha de ferramentas criativas, ao lado da qualidade da interface, do desempenho e da colaboração.

🖥️ Rust, arquivos locais e liberdade de plataforma

O FigCraft também aposta em uma arquitetura diferente da encontrada em muitos aplicativos de design.

O projeto afirma utilizar um mecanismo nativo desenvolvido em Rust, em vez de depender de Electron ou de uma interface baseada em visualização web.

Rust é uma linguagem de programação voltada ao desenvolvimento de software de sistemas, com recursos que ajudam a prevenir determinadas classes de erros de memória.

A proposta é oferecer uma aplicação nativa, com controle sobre desempenho e gerenciamento de recursos. Isso, por si só, não garante que o editor seja mais rápido ou estável do que seus concorrentes, mas estabelece uma escolha arquitetural distinta.

O ArtCraft lista versões para:

  • macOS;
  • Windows;
  • Linux;
  • navegadores, por meio de uma versão baseada em WebAssembly.

A disponibilidade em diferentes plataformas é promissora, mas não deve ser confundida com paridade de funcionalidades ou maturidade equivalente em todas elas.

👥 Trabalhar offline é fácil. Colaborar é outra história.

Manter os arquivos no próprio computador oferece vantagens para quem deseja reduzir a dependência de serviços externos e ter mais controle sobre os projetos.

Porém, equipes profissionais não precisam apenas de um editor. Também precisam compartilhar bibliotecas, controlar permissões, revisar alterações e organizar o acesso aos arquivos.

O FigCraft prevê sessões ao vivo que podem ser hospedadas pelo próprio aplicativo ou em um servidor controlado pelo usuário. Entretanto, a documentação informa que o projeto ainda não oferece um sistema de contas, equipes e serviço de nuvem equivalente ao do Figma.

Isso cria uma diferença importante entre os públicos que podem se beneficiar da ferramenta.

PerfilPotencial do FigCraft
Designer independenteAlto interesse em arquivos locais e ausência de assinatura
DesenvolvedorIntegração entre protótipos, código e automação
Entusiasta de IAExperimentação com agentes e comandos MCP
Equipe corporativaDepende da evolução da colaboração, das permissões e da estabilidade

Para projetos individuais, a ausência de uma estrutura corporativa pode ser aceitável. Para equipes que trabalham diariamente em um mesmo arquivo, a colaboração ainda é um ponto decisivo.

⚠️ O próprio projeto admite que ainda está no começo

O FigCraft se identifica como software em fase alfa e estima ter alcançado cerca de 49% do caminho necessário para substituir o Figma em trabalhos reais.

É uma estimativa do próprio projeto, não uma avaliação independente de maturidade ou compatibilidade.

A ressalva mais relevante envolve a importação de arquivos .fig. A equipe reconhece que o recurso funciona sob a modalidade best effort e que a compatibilidade ainda não foi verificada com documentos reais do Figma.

Isso importa porque um arquivo de design não é apenas uma coleção de imagens. Ele pode conter componentes aninhados, estilos tipográficos, variáveis, ativos visuais e regras de layout que precisam continuar funcionando depois da importação.

📌 O teste decisivo: não basta conseguir abrir um projeto. É necessário verificar se ele continua editável, se os componentes mantêm seus comportamentos e se as telas podem ser utilizadas no fluxo de trabalho habitual.

O mesmo vale para a automação por IA. Uma demonstração de comandos funcionando é um começo; executar tarefas complexas com previsibilidade e sem comprometer o projeto é um desafio maior.

🚀 Uma alternativa para acompanhar, não uma migração imediata

O FigCraft reúne três propostas atraentes: software de código aberto, armazenamento local e integração com agentes de IA.

Para designers independentes, desenvolvedores e pessoas interessadas em experimentar novos fluxos de trabalho, já existe uma razão para acompanhar sua evolução.

Para quem depende do Figma em projetos comerciais, entretanto, o cenário exige cautela. A compatibilidade de arquivos, a estabilidade e os recursos colaborativos ainda precisam demonstrar maturidade suficiente.

O projeto pode ser explorado na página oficial do FigCraft, com downloads e documentação.

A pergunta que fica é se o futuro do design será dominado por plataformas centralizadas ou por ferramentas abertas, instaladas localmente e preparadas para receber comandos de agentes de IA. O FigCraft ainda precisa provar que consegue substituir o fluxo de trabalho de hoje, mas já aponta para uma possibilidade diferente.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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