Principais destaques
- A maioria das empresas ainda não registrou ganhos reais de produtividade ou lucro com inteligência artificial
- Bilhões de dólares seguem sendo investidos, mesmo sem retorno claro no curto prazo
- Especialistas divergem entre cautela e otimismo sobre quando os resultados aparecerão
A promessa da inteligência artificial nunca pareceu tão próxima da revolução total. Modelos cada vez mais sofisticados resolvem problemas científicos complexos, automatizam tarefas e impressionam com sua capacidade de raciocínio.
No entanto, quando se olha para os números da economia real, o cenário é outro. A produtividade das empresas simplesmente não está refletindo esse avanço.
Um artigo recente da revista The Economist chamou atenção para esse descompasso ao afirmar que o tão esperado boom de produtividade da IA ainda não chegou. A constatação ecoa uma inquietação crescente no setor corporativo global.
A distância entre investimento e retorno
Um levantamento do National Bureau of Economic Research entrevistou quase 6 mil executivos nos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e Austrália. O resultado surpreende: cerca de 90% das empresas não observaram qualquer impacto significativo da IA no emprego ou na produtividade nos últimos três anos.
Embora dois terços dos líderes afirmem utilizar ferramentas de IA, o uso médio não passa de 1,5 hora por semana. Um quarto dos entrevistados sequer utiliza a tecnologia no ambiente de trabalho.
A PwC também identificou um cenário semelhante em sua pesquisa global com mais de 4 mil CEOs. Mais da metade das empresas não registrou aumento de receita nem redução de custos após implementar soluções de IA. Apenas uma pequena parcela relatou benefícios financeiros consistentes.
Os dados da Forrester Research reforçam o padrão: somente 15% dos decisores em IA perceberam crescimento nos lucros.
Isso acontece mesmo com cifras impressionantes. Segundo o AI Index Report da Universidade de Stanford, o investimento corporativo global em IA ultrapassou 250 bilhões de dólares em 2024. E o apetite não diminuiu. Empresas planejam dobrar seus aportes nos próximos anos, mesmo que os retornos ainda não estejam claros.
A tecnologia evolui em ritmo acelerado
Enquanto os balanços financeiros mostram cautela, os laboratórios registram feitos históricos. Em fevereiro, a OpenAI anunciou que seu modelo GPT 5.2 teria derivado e comprovado de forma independente uma nova fórmula em física de partículas, resultado validado por pesquisadores de universidades como Harvard e Cambridge.
O sistema teria dedicado cerca de 12 horas de raciocínio autônomo para produzir uma prova formal envolvendo amplitudes de espalhamento de glúons, um desafio que intrigava físicos há mais de uma década.
Mesmo assim, conquistas científicas de fronteira ainda não se traduziram em ganhos amplos para empresas tradicionais. O economista Torsten Slok, da Apollo Global Management, resumiu a situação dizendo que a IA parece estar em todos os lugares, exceto nos dados macroeconômicos.
A frase remete à observação feita nos anos 1980 pelo Nobel Robert Solow, quando afirmou que os computadores estavam por toda parte, menos nas estatísticas de produtividade.
Entre ceticismo e esperança
Nem todos veem o cenário como estagnação. Erik Brynjolfsson, economista de Stanford, argumenta que os Estados Unidos registraram crescimento de produtividade próximo de 2,7% em 2025, quase o dobro da média da década anterior. Para ele, pode ser o início da fase de colheita dos investimentos em IA.
Os próprios executivos ouvidos pelo NBER projetam que a inteligência artificial poderá elevar a produtividade em 1,4% e aumentar a produção em 0,8% nos próximos três anos.
Por outro lado, pesquisadores da Haas School of Business da Universidade da Califórnia em Berkeley identificaram um efeito inesperado: em vez de aliviar o trabalho, as ferramentas de IA frequentemente intensificam a carga de tarefas, eliminando pausas naturais e ampliando o ritmo das demandas.
O debate permanece aberto. A inteligência artificial continua avançando em capacidade e sofisticação. O capital continua fluindo. Mas a grande pergunta ainda ecoa no mercado global: quando o brilho tecnológico finalmente aparecerá de forma clara nos números que realmente importam?
