IA acelera o trabalho, mas também cria novas tarefas, aponta pesquisa

Renê Fraga
4 min de leitura

Principais destaques:

  • A maioria dos profissionais diz economizar horas com IA, mas boa parte desse tempo é gasto corrigindo erros.
  • Apenas uma pequena parcela afirma ter resultados consistentemente positivos com ferramentas de IA.
  • Empresas apostam na IA para ganhar produtividade, mas os ganhos reais ainda são difíceis de comprovar.

A promessa da inteligência artificial sempre foi clara: fazer mais em menos tempo. Na prática, porém, a realidade tem se mostrado bem mais complexa.

Uma nova pesquisa da Workday revela que, embora a IA esteja acelerando tarefas do dia a dia, ela também está criando uma carga extra de trabalho para muitos profissionais.

O levantamento, divulgado nesta semana e repercutido pelo site Axios, ouviu mais de 3.200 funcionários em cargos técnicos e de liderança, espalhados pela América do Norte, Europa e Ásia.

Todos trabalham em empresas de médio e grande porte e já utilizam ferramentas de inteligência artificial em suas rotinas.

Ganho de tempo que vira retrabalho

Segundo o estudo, 85% dos entrevistados afirmam que a IA economiza entre uma e sete horas de trabalho por semana.

O problema é que cerca de 37% desse tempo acaba sendo consumido em retrabalho, como revisar respostas, corrigir erros, reescrever textos ou validar informações geradas pelas máquinas.

O dado mais revelador é que apenas 14% dos usuários dizem ter resultados positivos de forma consistente.

Isso ajuda a explicar o que executivos da própria Workday chamam de paradoxo da produtividade: quanto mais a pessoa usa IA, mais tempo precisa investir para revisar o que ela entrega.

Quanto mais experiência, mais cuidado

Para Gerrit Kazmaier, presidente de produtos da Workday, a lógica tradicional da tecnologia não se aplica totalmente à IA.

Em vez de se tornar automaticamente mais eficiente com o tempo, o usuário experiente passa a enxergar melhor as falhas do sistema e, por isso, redobra a checagem.

É comum, por exemplo, que profissionais rodem o mesmo prompt em diferentes modelos de IA e comparem os resultados entre si.

Estudos acadêmicos do MIT e análises da Harvard Business Review reforçam essa visão mais cautelosa sobre os ganhos reais de produtividade no momento atual.

Expectativa das empresas ainda supera a realidade

Do lado corporativo, o entusiasmo continua alto. CEOs enxergam a IA como uma possível alavanca para reduzir custos e equipes. Rob Hornby, co-CEO da consultoria AlixPartners, afirma que muitas demissões atribuídas à IA têm, na verdade, outras causas estruturais.

Em uma pesquisa paralela da consultoria, 95% dos CEOs disseram esperar cortes de pessoal nos próximos cinco anos por causa da IA. Para Hornby, isso é mais desejo do que realidade, já que os ganhos concretos de produtividade ainda não apareceram de forma ampla.

Ainda assim, há avanços pontuais. Tarefas mais simples e repetitivas, como certos tipos de redação básica ou automação de processos, já mostram benefícios claros.

Além disso, ferramentas estão evoluindo rapidamente. Um exemplo recente é um sistema da Anthropic para automatizar tarefas administrativas, desenvolvido em menos de duas semanas com código escrito integralmente por IA.

No fim das contas, a história se repete: como aconteceu com a chegada da internet, integrar uma nova tecnologia leva tempo. Enquanto empresas e profissionais aprendem a usar melhor a inteligência artificial, o saldo ainda é ambíguo. A IA acelera o trabalho, mas, por enquanto, também cria mais trabalho no caminho.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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