Qualcomm aposta tudo na IA para salvar o smartphone premium

Renê Fraga
9 min de leitura
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Principais destaques

  • Dois chips de nova geração: Snapdragon 8 Elite Gen 6 e 8 Elite Extreme Gen 6 chegam com arquitetura de 2 nm e foco em inteligência artificial executada diretamente no aparelho.
  • Agentes ganham espaço: os novos componentes combinam CPU, GPU, NPU e sensores capazes de interpretar contexto e executar tarefas de IA localmente.
  • O mercado está encolhendo: custos maiores de memória pressionam os preços dos celulares e devem contribuir para uma queda de 14% nas vendas globais de smartphones em 2026.

A Qualcomm está apostando que o próximo motivo para trocar de smartphone não será uma câmera com mais megapixels ou uma tela um pouco melhor. Será a inteligência artificial.

A empresa apresentou dois novos chips para celulares premium, o Snapdragon 8 Elite Gen 6 e o Snapdragon 8 Elite Extreme Gen 6, desenvolvidos para colocar cada vez mais processamento de IA dentro do próprio aparelho.

E há uma razão estratégica para isso.

Enquanto a indústria enfrenta aumento nos custos de memória e uma queda projetada nas vendas de smartphones, fabricantes e fornecedores estão tentando transformar os aparelhos mais caros em máquinas capazes de justificar o investimento.

O smartphone quer deixar de ser apenas um telefone 🤖

Os dois novos processadores são fabricados no processo de 2 nanômetros da TSMC e combinam CPU, GPU e NPU, unidade especializada no processamento de inteligência artificial.

A diferença está menos na quantidade de componentes e mais no que eles podem fazer juntos.

A Qualcomm está mirando uma mudança de paradigma: em vez de o usuário abrir um aplicativo para realizar uma tarefa, agentes de IA poderiam interpretar o contexto e executar determinadas ações por conta própria.

🧠 A mudança de lógica: a empresa descreve essa transição como uma passagem de um modelo centrado no smartphone para outro centrado em agentes de IA.

Durante o lançamento, o CEO da Qualcomm, Cristiano Amon, afirmou que os dispositivos estão caminhando para experiências nas quais a tecnologia deixa de simplesmente oferecer acesso a aplicativos e passa a ajudar o usuário a atingir objetivos.

“Estamos indo de um modelo muito centrado no telefone para um modelo centrado em agentes.”

É uma mudança importante porque coloca o próprio aparelho no centro da computação de IA.

E a IA vai funcionar sem mandar tudo para a nuvem 📱

Um dos elementos mais interessantes dos novos chips é o sensing hub, presente nas duas versões.

Ele consegue executar modelos de IA relativamente pequenos diretamente no dispositivo, com até 200 milhões de parâmetros.

Isso pode permitir recursos como identificação individual de vozes, compreensão de determinados padrões de comportamento e sugestões de ações automáticas.

🔎 O detalhe importante: essas funções dependem de sensores e processamento local, aproximando o smartphone de uma espécie de assistente contextual permanente.

Em vez de simplesmente responder quando recebe um comando, a ideia é que o aparelho consiga compreender melhor o que está acontecendo ao redor e usar essa informação para oferecer ações.

O Extreme leva a brincadeira bem mais longe 🚀

A versão mais poderosa é o Snapdragon 8 Elite Extreme Gen 6.

Segundo a Qualcomm, o chip consegue executar localmente um modelo de 30 bilhões de parâmetros baseado em mixture-of-experts.

Para colocar esse número em perspectiva, estamos falando de uma escala de modelo que, até pouco tempo atrás, parecia muito mais associada a servidores e computadores de alto desempenho do que a smartphones.

A versão Extreme também suporta captura de vídeo em 8K a 60 quadros por segundo.

A Motorola já revelou um aparelho equipado com o processador: o Motorola Signature 27, que deve chegar aos consumidores antes do fim do ano.

Google também quer usar esse poder 👀

A aposta não é apenas da Qualcomm.

Rick Osterloh, executivo do Google responsável pela área de plataformas e dispositivos, participou do evento de lançamento.

A promessa é que o Gemini aproveite o processamento e os sensores dos novos chips para compreender melhor o contexto do usuário.

Isso cria uma combinação interessante: Qualcomm fornece a infraestrutura de processamento, enquanto o Google pode usar essa capacidade para transformar o Gemini em algo mais integrado ao próprio funcionamento do aparelho.

💡 A consequência: quanto mais inteligência puder ser processada localmente, menos cada interação precisa depender exclusivamente de servidores remotos.

Isso pode significar menor latência e novas possibilidades para recursos que precisam funcionar diretamente no telefone.

Motorola, Xiaomi e ZTE entram na fila

A Qualcomm já confirmou que fabricantes como Motorola, Xiaomi e ZTE utilizarão os novos chips em smartphones premium.

A estratégia faz sentido dentro de um mercado que está ficando cada vez mais concentrado no topo.

ChipPrincipal focoCapacidade destacada
Snapdragon 8 Elite Gen 6IA no dispositivoSensing hub e processamento local
Snapdragon 8 Elite Extreme Gen 6IA avançada e desempenho máximoModelos MoE de até 30 bilhões de parâmetros e vídeo 8K/60 fps

Mas existe uma ironia nessa história.

Justamente quando os fabricantes querem vender smartphones mais inteligentes, produzir esses aparelhos está ficando mais caro.

A memória virou um problema 💸

O mercado global de smartphones enfrenta uma pressão adicional provocada pelo aumento dos preços de memória.

A Counterpoint Research projeta uma queda de 14% no volume global de smartphones em 2026, com possibilidade de uma nova redução de 1% em 2027.

Isso muda a estratégia das fabricantes.

Com consumidores mais sensíveis aos preços, algumas empresas estão concentrando esforços nos modelos premium, segmento no qual os aumentos de custo podem ser absorvidos com mais facilidade.

📉 O paradoxo do mercado: vender menos aparelhos pode significar apostar ainda mais nos celulares caros e tecnologicamente sofisticados.

A Qualcomm já sente esse movimento.

No terceiro trimestre fiscal, a receita da empresa com chips para aparelhos celulares caiu 20% em relação ao mesmo período anterior, para US$ 5,1 bilhões.

Cristiano Amon apontou os custos maiores de memória como um dos fatores que prejudicam a acessibilidade dos smartphones.

Segundo a empresa, alguns consumidores estão migrando para modelos mais baratos dentro da própria categoria premium, enquanto outros simplesmente estão mantendo seus aparelhos antigos por mais tempo.

E a própria Qualcomm aumentou os preços

A pressão não fica restrita às fabricantes de celulares.

A Qualcomm informou que elevaria os preços de seus chips a partir de 1º de setembro, buscando compensar custos maiores de insumos em sua cadeia de produção.

Isso cria um cenário curioso para a próxima geração de aparelhos.

De um lado, temos chips muito mais capazes de executar IA localmente.

Do outro, temos componentes e produção mais caros, consumidores segurando seus aparelhos por mais tempo e um mercado global que deve encolher.

O smartphone precisa convencer o consumidor

Durante anos, fabricantes puderam vender novas gerações de celulares com melhorias incrementais: câmera melhor, processador mais rápido, tela mais brilhante.

A IA pode ser a próxima grande tentativa de criar uma diferença perceptível.

A aposta da Qualcomm é que um aparelho capaz de entender contexto, processar modelos localmente e executar tarefas por meio de agentes seja suficientemente diferente do smartphone tradicional para justificar uma nova compra.

Só que existe uma pergunta inevitável: quanto mais inteligente o aparelho ficar, quanto o consumidor estará disposto a pagar por ele?

A indústria está colocando a resposta dentro do próprio chip. E os próximos lançamentos devem mostrar se essa nova inteligência será apenas mais uma especificação técnica ou o argumento que finalmente fará alguém abandonar um smartphone que ainda funciona perfeitamente.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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