Principais destaques
- A Nestlé está usando inteligência artificial para analisar pesquisas científicas e desenvolver alimentos direcionados a pessoas que utilizam medicamentos para emagrecer como Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Zepbound.
- A empresa quer responder a desafios associados à perda de peso, incluindo menor ingestão de alimentos, necessidade de proteína, manutenção da massa muscular, hidratação e mudanças na percepção de sabores.
- A estratégia vai além de novos produtos: a Nestlé está usando IA para testar receitas, prever a reação dos consumidores e identificar tendências antes que elas cheguem às prateleiras.
A popularização dos medicamentos GLP-1 está criando uma transformação que vai muito além da indústria farmacêutica. Enquanto milhões de pessoas recorrem a medicamentos como Ozempic e Wegovy para controlar o peso, empresas de alimentos começam a adaptar seus produtos para uma nova realidade de consumo.
Entre elas está a Nestlé, que decidiu combinar inteligência artificial, ciência nutricional e análise de comportamento para tentar conquistar esse público.
A companhia informou que está desenvolvendo uma linha de alimentos pensada para as necessidades de consumidores que utilizam medicamentos dessa categoria.
A estratégia considera que a redução do apetite provocada pelos tratamentos pode fazer com que algumas pessoas consumam menos alimentos e, consequentemente, tenham mais dificuldade para atingir suas necessidades nutricionais.
Segundo informações divulgadas pela Reuters, cerca de 16 milhões de americanos utilizam atualmente medicamentos GLP-1, e a expectativa é que esse mercado continue crescendo até o final da década. Para a Nestlé, isso representa uma mudança potencialmente gigantesca nos hábitos alimentares e uma oportunidade de criar uma nova categoria de produtos.
A inteligência artificial aparece justamente como uma ferramenta para acelerar essa corrida. Em vez de depender apenas de testes tradicionais de receitas, os pesquisadores da empresa estão utilizando sistemas capazes de analisar grandes volumes de informações científicas e encontrar padrões que poderiam levar a novas formulações.
A inteligência artificial está ajudando a Nestlé a entender o que acontece com o corpo
Um dos principais focos da pesquisa é a composição corporal durante a perda de peso. Embora os medicamentos GLP-1 provoquem principalmente redução da gordura corporal, estudos recentes mostram que também pode ocorrer diminuição da massa magra. O tamanho e o significado clínico dessa perda ainda são assuntos estudados pela ciência, já que massa magra não é exatamente sinônimo de músculo esquelético e uma redução de tecido magro não necessariamente significa perda de força ou desempenho físico.
Esse detalhe é importante para entender por que a Nestlé está olhando para proteínas, micronutrientes e outros componentes da alimentação. Uma revisão publicada em 2026 aponta que estratégias de suporte durante o tratamento com GLP-1 devem considerar alimentação adequada, ingestão suficiente de proteínas, exercícios de resistência e acompanhamento individualizado da composição corporal e da nutrição.
A IA entra nessa equação como uma espécie de acelerador de pesquisa. De acordo com a Nestlé, seus cientistas estão utilizando ferramentas para examinar grandes quantidades de pesquisas clínicas e identificar combinações de nutrientes que possam ser relevantes para a manutenção muscular, hidratação e adequação nutricional.
A empresa afirma ainda ter identificado uma combinação de dois micronutrientes que foi industrializada com o objetivo de estimular o crescimento do tecido muscular. Também existem combinações proprietárias de ingredientes que foram patenteadas com foco no controle do apetite, incluindo um cenário que preocupa consumidores e pesquisadores: o período depois da interrupção do tratamento.
Isso mostra que a Nestlé não está olhando apenas para o momento em que uma pessoa toma o medicamento. A empresa tenta pensar em toda a jornada, desde a adaptação inicial ao tratamento até as mudanças na alimentação e no apetite que podem acontecer posteriormente.
É uma mudança interessante de perspectiva. Durante décadas, boa parte da indústria de alimentos tentou convencer consumidores a comer mais, experimentar novos sabores ou aumentar o tamanho das porções. Agora, com medicamentos que reduzem significativamente a fome, algumas empresas precisam descobrir como fazer com que uma pessoa com menor apetite escolha um alimento que entregue mais nutrientes em uma quantidade menor.
Essa mudança pode alterar até mesmo a lógica de desenvolvimento de produtos.
Uma recomendação conjunta publicada por organizações de nutrição e medicina do estilo de vida também chama atenção para a possibilidade de redução da ingestão de proteínas quando o apetite diminui durante a terapia. O documento destaca que a perda de massa magra pode ser influenciada pela quantidade de peso perdido, pela velocidade do emagrecimento, pela ingestão de proteínas e pela realização de exercícios de força.
Isso não significa que todo usuário de GLP-1 necessariamente sofrerá uma perda importante de músculo. Pesquisas recentes mostram resultados mais complexos, com redução absoluta de massa magra em alguns estudos, mas também preservação relativa da massa magra e ausência de evidências consistentes de deterioração da força em determinados grupos.
É justamente essa complexidade que torna o uso de IA interessante para empresas como a Nestlé. Quanto mais dados científicos são produzidos, maior é o volume de informações que pesquisadores precisam comparar para transformar descobertas em produtos.
Dos shakes proteicos a um laboratório virtual de 120 mil receitas
A estratégia da Nestlé já deixou o campo da pesquisa e começou a chegar aos supermercados. Nos Estados Unidos, a companhia lançou o BOOST Advanced Nutritional Shake, desenvolvido especificamente para apoiar necessidades nutricionais durante a perda de peso, inclusive entre pessoas que utilizam medicamentos GLP-1.
A bebida oferece 35 gramas de proteína por porção, além de 4 gramas de fibra prebiótica e oito vitaminas do complexo B. A formulação também contém vitaminas e minerais como vitamina D3, cálcio e magnésio. A própria Nestlé ressalta que o produto deve ser incorporado a uma alimentação equilibrada e a uma rotina de exercícios.
O produto é um exemplo de como a indústria está tentando transformar uma preocupação científica em uma solução prática. Como os medicamentos podem reduzir o apetite, uma bebida rica em proteína pode funcionar como uma maneira conveniente de aumentar a ingestão de nutrientes quando uma pessoa está com dificuldade para comer grandes quantidades de comida.
Mas o movimento não se limita a bebidas.
A Nestlé também desenvolveu a linha Vital Pursuit, voltada a consumidores que utilizam GLP-1, e vem testando opções com maior concentração de proteína e fibra. Entre as inovações mencionadas pela companhia está o Full Factor, uma bebida com 15 gramas de proteína e 10 gramas de fibra.
Em outros mercados, a empresa vem explorando a tendência de alimentos com mais proteína por meio de marcas já conhecidas. O Milo Pro, por exemplo, foi lançado originalmente como uma opção com maior quantidade de proteína para adolescentes e jovens adultos ativos, mostrando como a tendência de enriquecimento proteico pode atingir diferentes públicos.
O aspecto mais impressionante, porém, está por trás dos produtos.
A Nestlé criou uma ferramenta interna chamada Food Genie, que permite aos cientistas e desenvolvedores trabalhar com uma biblioteca de aproximadamente 120 mil receitas. A plataforma pode ajudar a prever o desempenho de uma formulação e encontrar alternativas quando determinado ingrediente precisa ser substituído ou quando uma receita precisa ser reformulada.
Na prática, isso significa que a inteligência artificial pode ajudar a empresa a explorar milhares de possibilidades sem precisar começar cada teste do zero.
Imagine um pesquisador tentando criar um alimento com mais proteína, menos açúcar, determinada textura e um perfil específico de vitaminas. Tradicionalmente, ele precisaria formular diferentes versões, produzir amostras e realizar uma sequência de testes. Com sistemas de IA, parte desse processo pode começar em um ambiente digital, com o algoritmo sugerindo caminhos possíveis antes que a equipe produza fisicamente cada versão.
A Nestlé também está testando simulações capazes de prever como consumidores poderiam reagir a um produto antes de seu lançamento. Paralelamente, outro sistema acompanha redes sociais para identificar mudanças nas preferências do público.
É aí que a inteligência artificial deixa de ser apenas uma ferramenta de laboratório e passa a participar de praticamente toda a cadeia de criação de alimentos.
A empresa pode usar dados científicos para entender uma necessidade nutricional, IA para encontrar possíveis formulações, simulações para estimar a reação do público e análise de redes sociais para identificar tendências. Depois, os produtos ainda passam por testes com consumidores reais.
O objetivo é reduzir o tempo entre uma descoberta e um produto comercial.
O sabor, o tamanho das porções e até a embalagem podem mudar
Existe ainda outro detalhe que torna essa transformação especialmente interessante: os medicamentos GLP-1 podem mudar a relação do consumidor com a comida.
A Nestlé está estudando como usuários desses medicamentos percebem sabores e texturas. A empresa vem realizando testes para entender se alterações na percepção do sabor podem fazer determinados alimentos parecerem menos atraentes.
Esse tipo de mudança pode obrigar fabricantes a repensar receitas que funcionaram durante décadas.
Uma comida que antes parecia saborosa pode não provocar a mesma resposta em alguém que está utilizando um medicamento que alterou seu apetite ou sua experiência alimentar. Por isso, a Nestlé considera ajustes como o uso mais intenso de temperos.
A empresa também está reavaliando o tamanho das porções e a forma como as informações nutricionais são apresentadas nas embalagens. Em vez de simplesmente oferecer mais comida, a indústria pode começar a trabalhar com porções menores e maior densidade nutricional.
Usuários de GLP-1 devem participar desse processo como colaboradores no desenvolvimento das receitas. Isso é importante porque a empresa não está tentando apenas imaginar como esse consumidor se comporta. Ela pretende obter diretamente desse público informações sobre sabor, saciedade, praticidade e preferências.
A transformação também acontece no campo do marketing.
Uma das questões levantadas por especialistas é que muitos dos nutrientes que a indústria está tentando colocar em produtos especializados já podem ser encontrados em alimentos comuns. Carnes, peixes, ovos, leite e derivados, feijões, castanhas e outras leguminosas são fontes tradicionais de proteína e nutrientes.
A crítica é que um produto desenvolvido especificamente para usuários de GLP-1 pode parecer mais necessário do que realmente é para algumas pessoas. Uma alimentação equilibrada pode fornecer muitos dos mesmos nutrientes sem a necessidade de produtos especialmente formulados.
Esse ponto ganha relevância porque a corrida pelo chamado mercado “GLP-1-friendly” acontece em um momento de forte crescimento da cultura da proteína. Produtos que destacam grandes quantidades de proteína estão cada vez mais presentes nas prateleiras, e especialistas alertam que o consumidor precisa observar o conjunto da composição nutricional, e não apenas um número destacado na embalagem.
O próprio mercado já enfrenta questionamentos sobre como determinadas bebidas e alimentos calculam suas vantagens nutricionais. Um exemplo recente envolvendo o Milo Pro gerou críticas nas redes sociais sobre a forma como a quantidade de proteína era apresentada em comparação com a versão tradicional.
Isso coloca a Nestlé diante de um desafio duplo. A empresa precisa criar produtos que realmente atendam necessidades nutricionais específicas, mas também precisa convencer consumidores de que essas soluções oferecem uma vantagem concreta em relação aos alimentos convencionais.
E existe uma questão ainda maior: os medicamentos GLP-1 podem estar mudando o próprio conceito de alimentação conveniente.
Se uma pessoa sente menos fome, talvez ela não queira uma refeição enorme. Pode preferir uma pequena porção que tenha proteína, fibras, vitaminas e minerais suficientes. Para a indústria de alimentos, isso abre espaço para produtos mais concentrados nutricionalmente e formatos completamente diferentes dos tradicionais.
A inteligência artificial pode acelerar essa transformação porque permite analisar uma quantidade enorme de combinações e comportamentos. Mas ela não elimina a necessidade de ciência, testes clínicos ou avaliação nutricional.
A pesquisa mais recente reforça justamente essa cautela. Especialistas defendem uma abordagem que combine alimentação adequada, proteína suficiente, exercícios de resistência e acompanhamento da composição corporal. Suplementos e substitutos nutricionais podem ser úteis quando a ingestão de alimentos não é suficiente, mas não são automaticamente superiores a uma alimentação baseada em alimentos convencionais.
No fim, o movimento da Nestlé revela algo maior do que o lançamento de mais um shake proteico.
Os medicamentos para emagrecer estão criando uma nova geração de consumidores com necessidades, hábitos e expectativas diferentes. A indústria de alimentos percebeu essa mudança e está tentando chegar primeiro a esse mercado.
A Nestlé aposta que a combinação de inteligência artificial, ciência nutricional e dados de consumidores pode ajudá-la a descobrir quais alimentos farão sentido nesse novo cenário. Se a estratégia funcionar, a IA poderá estar por trás de muito mais do que recomendações em aplicativos ou chatbots: ela poderá participar diretamente da decisão sobre quais ingredientes entram nos alimentos que milhões de pessoas colocam no prato.
