LinkedIn lança botão “parece lixo de IA” para sinalizar posts inautênticos

Renê Fraga
9 min de leitura
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Principais destaques

  • O LinkedIn passou a permitir que usuários denunciem publicações que pareçam ter sido produzidas por inteligência artificial de forma excessiva ou sem autenticidade.
  • A empresa também removeu sua ferramenta de reescrita com IA e promete reduzir a distribuição de conteúdos considerados artificiais ou de baixa qualidade.
  • A decisão acontece após estudos indicarem que cerca de 41% das publicações longas da plataforma já são totalmente geradas por inteligência artificial.

Durante os últimos dois anos, a inteligência artificial transformou completamente a forma como profissionais produzem conteúdo para redes sociais.

No LinkedIn, essa mudança foi ainda mais evidente. Publicações motivacionais, relatos de carreira, histórias de liderança e até comentários passaram a ser produzidos em larga escala por ferramentas como ChatGPT, Claude, Gemini e outros modelos generativos.

O resultado foi um fenômeno que ganhou um apelido na internet: “AI slop”, expressão utilizada para definir conteúdos produzidos por inteligência artificial de maneira massiva, repetitiva e sem personalidade. São textos que, apesar de estarem bem escritos do ponto de vista gramatical, costumam soar genéricos, previsíveis e incapazes de transmitir uma experiência realmente humana.

Agora, o próprio LinkedIn admite que esse excesso de conteúdo se tornou um problema para a plataforma e apresentou uma das medidas mais diretas já adotadas para recuperar a autenticidade do feed: um botão que permite aos próprios usuários informar quando uma publicação “parece lixo de IA”.

A novidade representa uma mudança importante na estratégia da empresa. Em vez de depender exclusivamente de algoritmos para identificar textos gerados por inteligência artificial, a plataforma quer utilizar o julgamento da própria comunidade para entender quais conteúdos realmente parecem artificiais e quais conseguem transmitir uma voz humana autêntica.

Como funciona o novo botão contra “AI slop”

O recurso está disponível no menu de três pontos presente em qualquer publicação do LinkedIn. Ao selecionar a opção indicando que aquele conteúdo “parece AI slop”, o usuário envia um sinal diretamente para os sistemas de recomendação da plataforma.

Na prática, a publicação desaparece imediatamente do feed de quem fez a denúncia, oferecendo uma experiência semelhante ao botão “Não tenho interesse”. Porém, o impacto vai além da experiência individual.

Segundo o LinkedIn, esses sinais ajudam seus modelos internos a compreender quais tipos de conteúdo são percebidos como artificiais pela comunidade. Com isso, publicações semelhantes poderão perder alcance nas recomendações futuras, principalmente entre usuários que não seguem o autor da postagem.

Outra novidade é que o autor da publicação poderá receber um aviso privado no painel de análises informando que seu conteúdo foi percebido por algumas pessoas como inautêntico ou excessivamente dependente de inteligência artificial.

A empresa afirma que não pretende punir automaticamente quem utiliza IA para escrever. O objetivo é diferente: compreender quando o uso da tecnologia faz com que um texto deixe de parecer genuíno.

Hari Srinivasan, diretor de produto do LinkedIn, afirmou que o conceito de “AI slop” é subjetivo e muda constantemente. Por isso, a empresa acredita que o julgamento humano oferece um indicador muito mais útil do que detectores automáticos, que frequentemente cometem erros ao tentar identificar textos produzidos por IA.

O LinkedIn reconhece que ajudou a criar esse cenário

A decisão chama atenção porque o próprio LinkedIn vinha incentivando o uso de inteligência artificial dentro da plataforma.

Até agora, usuários tinham acesso ao recurso “Aprimorar com IA”, que reescrevia publicações automaticamente, tornando textos mais longos, mais formais ou mais persuasivos. Embora a ferramenta facilitasse a produção de conteúdo, ela também acabou contribuindo para que milhares de publicações passassem a apresentar praticamente o mesmo estilo de escrita.

Esse efeito ficou conhecido entre usuários como a “voz do ChatGPT”: textos excessivamente otimistas, organizados em listas, cheios de emojis, frases motivacionais e reflexões genéricas sobre liderança e produtividade.

Reconhecendo esse problema, o LinkedIn anunciou que está encerrando essa funcionalidade. Em seu lugar, será oferecida apenas uma ferramenta de revisão textual capaz de corrigir erros gramaticais e ortográficos sem alterar o tom de voz ou a personalidade do autor. A intenção é preservar a autenticidade das publicações em vez de incentivar reescritas completas com inteligência artificial.

Além disso, a empresa informou que seus sistemas bloquearam bilhões de tentativas de postagens automatizadas e identificaram centenas de milhares de comentários gerados automaticamente apenas nos últimos meses, reforçando que o combate ao spam produzido por IA se tornou uma prioridade interna.

Os números mostram que o problema é maior do que muitos imaginavam

A mudança não aconteceu por acaso.

Um levantamento realizado pela Pangram Labs analisou aproximadamente um milhão de publicações visualizadas por usuários de sua extensão para Chrome durante dois meses. Diferentemente de pesquisas baseadas apenas em páginas disponíveis na internet, o estudo avaliou exatamente o conteúdo que as pessoas realmente encontraram enquanto navegavam pelas redes sociais.

Os resultados colocaram o LinkedIn no topo do ranking de plataformas mais saturadas por textos produzidos com inteligência artificial.

Segundo a pesquisa, 41% das publicações com mais de 250 palavras eram totalmente geradas por IA, enquanto aproximadamente 30% das publicações entre 50 e 250 palavras também apresentavam origem completamente automatizada. O LinkedIn representava cerca de um terço de todo o conteúdo analisado, mas concentrava quase 62% de todos os textos classificados como gerados por IA, tornando-se a rede social mais afetada pelo fenômeno.

Os pesquisadores também observaram que o uso da inteligência artificial é especialmente comum em publicações de liderança, empreendedorismo, desenvolvimento profissional e relatos pessoais, justamente os formatos mais populares dentro da plataforma.

A batalha contra conteúdos artificiais está apenas começando

A iniciativa do LinkedIn acompanha um movimento que começa a ganhar força em diferentes plataformas digitais.

Recentemente, o Substack anunciou uma parceria com a Pangram para permitir que autores e leitores identifiquem conteúdos potencialmente produzidos por inteligência artificial. Outras empresas também estudam maneiras de reduzir a presença de publicações repetitivas, automatizadas ou criadas apenas para alimentar algoritmos de recomendação.

Especialistas destacam que o problema não está necessariamente no uso da IA como ferramenta de apoio. Muitos profissionais utilizam modelos generativos para revisar textos, organizar ideias ou corrigir erros de escrita sem abrir mão de suas próprias experiências.

O desafio surge quando a inteligência artificial passa a substituir completamente o pensamento humano. Nesse cenário, milhares de pessoas acabam publicando conteúdos praticamente idênticos, escritos com a mesma estrutura, o mesmo vocabulário e as mesmas conclusões, tornando a experiência dentro das redes sociais cada vez mais homogênea.

O próprio Hari Srinivasan resumiu esse desafio ao afirmar que “IA e AI slop não são a mesma coisa”. Segundo ele, a plataforma quer incentivar o uso responsável da tecnologia, preservando aquilo que sempre diferenciou o LinkedIn: experiências reais, conhecimento genuíno e opiniões construídas por pessoas de verdade.

Se a estratégia baseada no julgamento da comunidade será suficiente para reduzir a avalanche de conteúdos artificiais ainda é uma incógnita. No entanto, o lançamento desse novo botão mostra que até mesmo uma das empresas que mais apostou na inteligência artificial para produção de conteúdo reconhece que a autenticidade voltou a ser um ativo valioso nas redes sociais.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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