IA pode gerar o maior ciclo de investimentos da história dos EUA, com US$ 10,3 trilhões

Renê Fraga
10 min de leitura

Principais destaques

  • Investimento sem precedente: infraestrutura de IA pode consumir US$ 10,3 trilhões entre 2025 e 2032, cerca de 3,6% do PIB americano por ano.
  • Dívida e estruturas complexas: empresas de tecnologia já recorrem cada vez mais a financiamento externo e veículos fora do balanço para sustentar a expansão.
  • Uma conta difícil de fechar: para justificar o investimento, o setor precisaria chegar a aproximadamente US$ 3,7 trilhões em receita anual até 2032.

A corrida para construir a infraestrutura necessária para a inteligência artificial nos Estados Unidos atingiu uma escala que começa a escapar das comparações tradicionais do setor de tecnologia.

Um novo estudo do Brookings Institution estima que data centers e outras estruturas relacionadas à IA poderão consumir US$ 10,3 trilhões entre 2025 e 2032.

O valor representa aproximadamente 3,6% do PIB americano todos os anos durante o período.

Para colocar isso em perspectiva, o boom das ferrovias no fim do século XIX, considerado anteriormente o maior ciclo de investimento desse tipo, absorveu cerca de 2,2% do PIB anual.

🚂 A comparação histórica é enorme:

InfraestruturaParticipação anual aproximada do PIB
IA e data centers3,6%
Ferrovias no fim do século XIX2,2%
Rodovias interestaduaisMenos de 1,2%
Expansão das telecomunicaçõesMenos de 1,2%

A estimativa consta de um estudo de Stijn van Nieuwerburgh, professor de finanças e mercado imobiliário da Columbia Business School, apresentado em uma conferência do Brookings.

O problema não é só gastar. É financiar 💰

Construir data centers em escala gigantesca exige uma quantidade de capital que já ultrapassa a capacidade de financiamento das próprias empresas de tecnologia.

Segundo dados da FactSet citados pelo The Wall Street Journal, Alphabet, Amazon, Meta, Microsoft e Oracle caminham para somar US$ 4,2 trilhões em investimentos de capital entre 2026 e 2029.

E uma parcela crescente desse dinheiro está vindo de dívida.

O problema fica mais difícil de enxergar quando o financiamento passa por estruturas fora do balanço das companhias, incluindo veículos específicos criados para determinados projetos.

🔎 É aí que a comparação com 2008 aparece:

Van Nieuwerburgh chamou atenção para a opacidade dessas estruturas e comparou o cenário, em alguns aspectos, ao que ocorreu durante a crise das hipotecas de alto risco.

💡 “Essa opacidade de todos esses veículos de propósito específico lembra um pouco o que aconteceu na crise das hipotecas subprime.”

A comparação não significa que uma nova crise financeira esteja inevitavelmente a caminho. O próprio pesquisador ressalta que existem cenários nos quais a expansão da IA pode gerar receitas suficientes para sustentar os investimentos.

Mas a estrutura financeira aumenta a exposição caso as expectativas não se confirmem.

A conta da IA precisa fechar 📊

O ponto central do estudo é relativamente simples: quem vai pagar por toda essa infraestrutura?

Para atingir os retornos necessários sobre o capital investido, a indústria de IA precisaria alcançar aproximadamente US$ 3,7 trilhões em receita anual até 2032.

O número chama ainda mais atenção quando comparado à receita atual das principais empresas independentes de IA.

OpenAI e Anthropic, por exemplo, têm uma base combinada estimada em aproximadamente US$ 100 bilhões.

Isso significa que, partindo desse patamar, seria necessário sustentar um crescimento anual próximo de 80% para chegar ao nível projetado.

🚀 O desafio, portanto, não é apenas desenvolver modelos melhores.

É transformar esses modelos em aplicações capazes de gerar receitas em uma escala compatível com os investimentos realizados em chips, servidores, energia, terrenos, redes e data centers.

Data centers não empregam tanta gente depois de prontos 🏗️

Existe ainda uma característica peculiar nesse ciclo de investimento.

A construção de grandes data centers pode gerar picos significativos de emprego durante as obras. Depois que as instalações começam a operar, porém, elas precisam de relativamente poucos trabalhadores em comparação com o tamanho do investimento físico.

É uma diferença importante em relação a setores tradicionais de infraestrutura.

Uma estrada emprega durante a construção, mas também sustenta uma enorme cadeia econômica ao longo de sua utilização. Um data center pode representar bilhões de dólares em equipamentos e instalações e, ainda assim, operar com uma equipe permanente relativamente pequena.

Mesmo assim, a expansão da IA já aparece nas estatísticas de emprego.

Dados do LinkedIn citados pelo Wall Street Journal indicam que a inteligência artificial esteve associada à geração de mais de 750 mil empregos nos EUA entre 2023 e 2026.

A interpretação desse número, porém, continua sendo objeto de debate entre economistas, especialmente sobre quanto desses empregos é diretamente criado pela IA e quanto resulta de efeitos indiretos da expansão do setor.

E a infraestrutura começa a aparecer no bolso ⚡

A corrida por capacidade computacional também está produzindo efeitos fora do mercado de tecnologia.

Dados de importação mostram que computadores, periféricos e semicondutores ficaram 20% mais caros em agosto, na comparação anual, segundo dados citados pelo Wall Street Journal.

A infraestrutura necessária para alimentar modelos de IA também compete por trabalhadores, equipamentos, energia e financiamento.

A consequência pode aparecer em diferentes partes da economia.

🏦 Juros: o presidente do Federal Reserve de Chicago, Austan Goolsbee, alertou que os investimentos em data centers estão pressionando salários em setores relacionados.

🏠 Hipotecas: o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, apontou o endividamento das grandes empresas de tecnologia como um dos fatores que podem contribuir para elevar as taxas de longo prazo, com reflexos sobre os custos de financiamento imobiliário.

⚙️ Componentes: chips, computadores e equipamentos necessários para os data centers entram em uma disputa global por capacidade produtiva.

A IA, portanto, deixou de ser apenas uma questão de software.

Uma nova bolha tecnológica?

A palavra “bolha” aparece naturalmente quando investimentos crescem muito mais rapidamente do que as receitas atuais.

Mas o estudo não afirma que o colapso seja inevitável.

Há uma condição bastante objetiva para que a matemática funcione: a demanda por aplicações de IA precisa crescer de forma suficientemente rápida e os data centers precisam manter níveis elevados de utilização.

Se isso acontecer, a infraestrutura construída hoje poderá gerar fluxos de caixa capazes de justificar os investimentos.

Se a demanda decepcionar, a situação muda.

⚠️ E existe outro problema: a tecnologia também muda rapidamente.

Um data center projetado para determinada geração de chips pode continuar sendo um ativo valioso, mas a velocidade de evolução dos modelos e dos aceleradores de IA cria riscos de obsolescência e de decisões erradas de investimento.

É uma diferença importante em relação a algumas grandes obras de infraestrutura do passado, que podiam permanecer úteis por décadas com mudanças tecnológicas relativamente pequenas.

O tamanho da aposta explica a preocupação

O estudo de Van Nieuwerburgh coloca lado a lado quatro elementos que normalmente seriam analisados separadamente:

• Investimento gigantesco: US$ 10,3 trilhões projetados até 2032.

• Alavancagem crescente: parte do investimento está sendo financiada por dívida.

• Receita futura incerta: o retorno depende de uma expansão ainda não comprovada das aplicações de IA.

• Mudança tecnológica acelerada: modelos, chips e arquiteturas podem evoluir antes que determinados investimentos tenham sido totalmente amortizados.

Essa combinação não significa que o setor esteja prestes a entrar em crise.

Significa que o tamanho da aposta tornou os erros potencialmente muito mais caros.

E se a demanda realmente vier?

Existe, naturalmente, o outro lado da equação.

Modelos mais capazes podem estimular novas aplicações, aumentar a utilização dos data centers e criar mercados que hoje ainda são pequenos ou nem sequer existem.

Nesse cenário, os enormes investimentos em infraestrutura poderiam deixar de parecer exagerados.

O próprio Van Nieuwerburgh aponta que forte crescimento das aplicações de IA, alta utilização da infraestrutura e avanços contínuos na capacidade dos modelos poderiam sustentar os investimentos e gerar fluxos de caixa estáveis.

O problema é que ninguém sabe exatamente qual desses cenários prevalecerá.

US$ 10,3 trilhões é uma aposta grande demais para depender apenas de expectativas.

A infraestrutura já está sendo construída. O que ainda precisa acompanhar esse movimento é a economia capaz de sustentá-la.

E, nos próximos anos, uma das perguntas mais importantes da indústria de tecnologia talvez não seja qual será o próximo modelo de IA, mas quanto dinheiro essas máquinas serão capazes de transformar em receita antes que a próxima geração de infraestrutura torne a atual obsoleta.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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