Homem viaja 2 mil km para encontrar namorada virtual e descobre que ela foi criada por IA

Renê Fraga
8 min de leitura

Principais destaques

  • Uma viagem em busca do amor: Edimar Rocha Martins, de 49 anos, saiu do Maranhão para encontrar uma mulher que conheceu pelas redes sociais em Belo Horizonte.
  • Uma personagem com mais de 300 mil seguidores: Apresentada como Jéssica Oliveira ou Jessica Fazendeira, a mulher virtual publica vídeos realistas e promete ajudar homens a encontrar uma vida no campo.
  • A prefeitura ajudou no retorno: Sem encontrar a suposta namorada, Edimar recebeu assistência social em Belo Horizonte e uma passagem para voltar a Augustinópolis, no Tocantins.

Edimar Rocha Martins percorreu mais de 2 mil quilômetros acreditando que finalmente encontraria uma nova companheira. Divorciado, aos 49 anos, o pedreiro saiu de Imperatriz, no Maranhão, rumo a Belo Horizonte. O encontro, porém, nunca aconteceu.

A mulher com quem ele acreditava conversar não existia na vida real. Jéssica Oliveira, também conhecida como Jessica Fazendeira, é uma personagem criada por inteligência artificial (IA), com aparência, voz e vídeos realistas que simulam a presença de uma pessoa de verdade.

O caso, relatado pelo g1 em 13 de outubro de 2026, expõe um problema cada vez mais relevante nas redes sociais: a dificuldade de distinguir pessoas reais de personagens digitais capazes de estabelecer relações aparentemente íntimas com seus seguidores.

💔 A promessa de um novo amor

Edimar contou ao g1 que começou a conversar com a suposta mulher depois que vídeos dela apareceram em suas redes sociais. O perfil apresentava uma personagem divorciada, interessada em encontrar um homem para morar com ela em uma fazenda no interior.

Com mais de 300 mil seguidores, a conta também publica anúncios de plataformas de vendas pela internet.

🗣 A relação parecia ter futuro: segundo Edimar, o perfil mantinha conversas privadas com ele e alimentava a expectativa de um encontro presencial.

“Eu vim em busca de uma felicidade, né? Eu tenho 49 anos, sou divorciado, saí sexta-feira de Imperatriz (MA) e cheguei aqui [a Belo Horizonte] domingo (11).”

A viagem terminou em frustração. Edimar chegou à capital mineira sem sequer ter o endereço da mulher que pretendia encontrar.

Sem conseguir localizá-la, começou a mostrar fotografias da personagem para pessoas nas ruas, perguntando se alguém a conhecia. Também recorreu a uma rádio em busca de ajuda.

“Eu já andei com várias fotos, mostrando e perguntando se alguém conhecia essa pessoa e todos falaram que não. Então, eu me senti enganado”, relatou.

🤖 Uma pessoa que parece real, mas não existe

A personagem Jéssica ilustra como ferramentas de inteligência artificial podem produzir conteúdo audiovisual convincente, combinando rostos, vozes e narrativas que parecem pertencer a uma pessoa real.

O problema não está apenas na criação de imagens falsas. Quando esse conteúdo é acompanhado por histórias pessoais, promessas de relacionamento e conversas privadas, a interação pode adquirir um significado emocional para quem está do outro lado da tela.

🔎 O detalhe que chama a atenção: Edimar afirmou que não desconfiou de um possível golpe porque a suposta namorada nunca pediu dinheiro durante as conversas.

Pelo contrário. Segundo ele, ela oferecia ajuda para financiar a viagem, prometia buscá-lo e dizia que forneceria o endereço para o encontro.

Em um dos vídeos públicos, a personagem chega a afirmar que gosta de ajudar homens, mas que deseja encontrar alguém para si.

Essa combinação de aparência realista, interesse romântico e promessas de ajuda pode tornar a situação particularmente convincente para quem procura companhia ou atravessa um período de solidão.

💸 Se não pediu dinheiro, qual era o objetivo?

O relato não esclarece quem administra o perfil nem qual seria a finalidade específica das conversas privadas com Edimar.

A conta também faz anúncios comerciais, mas isso, por si só, não comprova que o episódio tenha sido planejado para obter dinheiro da vítima.

É importante distinguir os fatos confirmados das hipóteses. O homem relata ter sido enganado e viajado para encontrar uma pessoa inexistente, mas o material disponível não estabelece a motivação do administrador da conta nem confirma um esquema financeiro.

⚠️ O risco vai além de uma transferência bancária: relações construídas com perfis falsos podem envolver manipulação emocional, exposição de informações pessoais e outros prejuízos, mesmo quando não há um pedido explícito de dinheiro.

O g1 procurou o responsável pelo perfil por mensagem privada, mas não recebeu resposta até a publicação da reportagem.

🚌 Sem encontrar Jéssica, ele precisou de ajuda para voltar

Depois das tentativas frustradas de localizar a mulher, Edimar foi orientado a procurar a Unidade de Acolhimento e Atendimento ao Migrante da Prefeitura de Belo Horizonte.

Em nota, a Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos informou que ele recebeu orientações sobre os riscos de golpes praticados nas redes sociais, além de acesso a banho e alimentação.

Após avaliação da equipe técnica, a prefeitura emitiu uma passagem para que ele viajasse a Augustinópolis, no Tocantins, cidade onde nasceu e para onde desejava retornar.

A viagem ocorreu na tarde de terça-feira, 13 de outubro.

O episódio transformou uma busca por um relacionamento em uma situação que exigiu assistência pública para garantir o retorno do homem à cidade escolhida.

⚖️ O que diz a polícia?

A Polícia Civil de Minas Gerais informou que não havia registro de ocorrência relacionado ao caso até a atualização da reportagem.

A orientação é que pessoas que passem por situações semelhantes procurem uma unidade policial para registrar os fatos ou utilizem a Delegacia Virtual.

O registro é importante para que as autoridades possam avaliar as circunstâncias e verificar se houve alguma infração.

Como reconhecer os sinais de um perfil suspeito

Histórias como essa reforçam a necessidade de verificar a identidade de pessoas conhecidas pela internet, especialmente quando existe a expectativa de um encontro presencial.

Alguns cuidados podem reduzir os riscos:

  • Verifique a identidade: procure outras fontes independentes que confirmem que a pessoa realmente existe.
  • Peça uma chamada de vídeo ao vivo: vídeos previamente publicados não comprovam a identidade de quem administra o perfil.
  • Desconfie de histórias excessivamente convenientes: promessas de amor imediato, ajuda financeira ou uma vida ideal merecem atenção.
  • Não viaje sem informações verificáveis: confirme o endereço, a identidade da pessoa e as condições do encontro antes de sair de casa.
  • Preserve as conversas: mensagens, links, imagens e dados do perfil podem ajudar em uma eventual investigação.

Nenhum desses sinais, isoladamente, prova a existência de fraude. O objetivo é reunir informações suficientes antes de confiar em alguém que só se conhece virtualmente.

A inteligência artificial pode tornar uma personagem cada vez mais convincente, mas não transforma uma identidade inventada em uma pessoa real.

Para Edimar, a distância percorrida não terminou no encontro que imaginava. A questão que fica é quantas outras pessoas podem estar construindo expectativas semelhantes sem perceber quem realmente está por trás da tela.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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