Flávio Bolsonaro usou inteligência artificial para redigir carta golpista, admite aliado

Renê Fraga
6 min de leitura

Principais destaques

  • Uso de IA confirmado: Paulo Figueiredo admitiu que a inteligência artificial foi utilizada na elaboração da carta atribuída a Flávio Bolsonaro.
  • Texto alterado após pressão dos EUA: segundo o UOL, emissários ligados ao Departamento de Estado americano atuaram para retirar a expressão “presidente eleito” do documento.
  • Bastidores sob disputa: três fontes ligadas à diplomacia americana confirmaram a intervenção, enquanto Figueiredo negou ter recebido ordens de Washington.

A carta de Flávio Bolsonaro que o apresentava como “presidente eleito do Brasil” teve participação de inteligência artificial em sua elaboração. A informação foi admitida por Paulo Figueiredo, comentarista político e um dos articuladores da ida do senador aos Estados Unidos, em declaração publicada pelo UOL nesta quinta-feira (29).

A revelação aparece em meio a outro episódio politicamente delicado: segundo a reportagem de Mariana Sanches, integrantes do governo de Donald Trump intervieram para que o documento deixasse de apresentar Flávio como presidente eleito.

🇺🇸 Washington entrou em campo

De acordo com o UOL, emissários ligados ao Departamento de Estado americano alertaram que a expressão poderia prejudicar as relações diplomáticas com o Brasil.

A primeira versão da carta circulou com Flávio se autodeclarando “presidente eleito do Brasil”. Cerca de 40 minutos depois, o senador publicou uma versão revisada, na qual passou a ser apresentado como “líder do Brasil”.

A informação sobre a intervenção americana foi confirmada por três fontes ligadas à diplomacia dos Estados Unidos, ouvidas sob reserva, e corroborada por um interlocutor estrangeiro.

🗣 Trump também se manifestou: questionado sobre a declaração de Flávio, o presidente americano afirmou que os EUA haviam autorizado sua entrada no país, mas evitou comentar diretamente a controvérsia. Também classificou a eleição brasileira como “muito estranha”.

🤖 “Coisas de AI”: a admissão de Figueiredo

O trecho mais revelador surgiu quando Paulo Figueiredo foi questionado sobre as alterações feitas na carta.

Inicialmente, ele negou que autoridades americanas tivessem determinado mudanças no texto e ironizou a hipótese de influência da Casa Branca. Depois, ao explicar por que a redação havia mudado, reconheceu o uso de inteligência artificial.

“Fizemos várias versões e no final acabou-se usando um trecho de versão antiga… Coisas de AI”, afirmou ao UOL.

A declaração confirma que ferramentas de IA foram utilizadas no processo de elaboração do documento. Segundo a explicação apresentada por Figueiredo, diferentes versões foram produzidas, e a redação final acabou incorporando um trecho anterior.

Isso não significa, por si só, que toda a carta tenha sido gerada automaticamente. O relato confirma o uso da tecnologia, mas não detalha qual ferramenta foi empregada, quais partes foram produzidas por IA ou quanto do texto foi escrito e revisado por pessoas.

📝 A disputa sobre quem mudou o texto

Figueiredo negou que autoridades americanas tivessem ligado para exigir alterações. Um aliado americano dos bolsonaristas, próximo ao trumpismo, afirmou, por outro lado, que o secretário de Estado Marco Rubio chegou a ver pelo menos uma das versões da carta.

A reportagem também cita diplomatas americanos que apontaram uma preocupação pragmática: Washington não pretendia comprometer suas relações com o governo brasileiro ao reconhecer Flávio como presidente eleito.

O Departamento de Estado não havia comentado oficialmente a carta até a publicação da matéria.

🇧🇷 O cálculo diplomático vai além da carta

A controvérsia ocorre enquanto os Estados Unidos mantêm interesses concretos na relação bilateral com o Brasil. Entre eles está a expectativa de aprovação brasileira para a indicação de Danny Perez ao posto de embaixador americano no país, segundo a reportagem.

O governo Trump também teria interesse em evitar a repetição do caso venezuelano de Juan Guaidó, reconhecido por diversos países como presidente legítimo em oposição a Nicolás Maduro, mas cujo governo paralelo não exercia controle efetivo sobre o território.

Aliados de Flávio nos Estados Unidos teriam mencionado esse precedente ao discutir suas intenções políticas.

🔎 O que o episódio revela sobre a IA na política

O caso reúne duas questões diferentes: o emprego de inteligência artificial na redação de uma mensagem política e a disputa diplomática sobre o conteúdo dessa mensagem.

A IA pode facilitar a criação e a revisão de textos, inclusive a produção de múltiplas versões. Mas o episódio mostra que a responsabilidade política pelo conteúdo continua sendo uma questão central, especialmente quando o documento envolve uma declaração sobre a legitimidade de uma eleição.

A admissão de Figueiredo esclarece um ponto que antes estava em aberto: houve uso de IA na elaboração da carta. Já a extensão desse uso e os detalhes da intervenção americana permanecem dependentes de informações adicionais.

Quando uma carta política passa por várias versões, a pergunta deixa de ser apenas quem escreveu as palavras. Também importa saber quem definiu a mensagem que chegou ao público.

Apoie o Eurisko
Este conteúdo é independente, sem anúncios e feito por pessoas.
A inteligência artificial e as mudanças recentes do Google reduziram significativamente o alcance dos sites independentes. Se este conteúdo foi útil para você, considere apoiar o Eurisko e todo o ecossistema de projetos com qualquer valor.
Quero apoiar
Seguir:
Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
Nenhum comentário