Principais destaques
- O teste perdeu valor: Felix Rieseberg retirou os desafios tradicionais de programação do processo seletivo de sua equipe na Anthropic.
- Portfólios ganham espaço: protótipos funcionais, capacidade de execução e qualidade das ideias passaram a ser sinais importantes na avaliação de candidatos.
- O mercado está mudando: Google e outras gigantes também repensam como avaliar profissionais em uma era na qual a IA escreve código cada vez melhor.
Durante anos, resolver um problema de programação diante de um recrutador foi quase um ritual para quem queria trabalhar em uma grande empresa de tecnologia. Agora, um gerente de engenharia da Anthropic decidiu abandonar esse modelo. O motivo é desconfortavelmente simples: o Claude já consegue resolver desafios que antes ajudavam a distinguir bons candidatos.
Felix Rieseberg, gerente de engenharia da empresa responsável pelo Claude, anunciou na terça-feira, 27 de outubro, que retirou as entrevistas de programação do processo seletivo de sua equipe.
A decisão não representa uma mudança oficial em toda a Anthropic. É uma experiência conduzida pelo próprio gerente, que admite ainda não ter encontrado um método definitivo para substituir o formato tradicional.
💡 Se uma IA consegue resolver o teste melhor do que muitos candidatos, talvez o problema esteja no teste, não nos candidatos.
🧑💻 O teste de programação perdeu o sentido?
Em um artigo intitulado Hunger beats tenure: Advice for junior engineers, que pode ser traduzido como “Fome vence tempo de casa: conselhos para engenheiros juniores”, Rieseberg explica por que mudou de estratégia.
Segundo ele, pequenos desafios de programação já foram um indicador imperfeito, mas útil, do potencial de um profissional. Com o avanço da IA, essa utilidade diminuiu.
🧠 O argumento central: pedir que alguém resolva um pequeno exercício de React deixou de fazer sentido como diferencial quando o Claude também consegue executar a tarefa com competência.
O mesmo raciocínio vale para perguntas técnicas mais específicas, como as relacionadas à linguagem Assembly. Para Rieseberg, a capacidade de resolver um desafio isolado já não é suficiente para distinguir os profissionais mais promissores.
Isso não significa que saber programar deixou de ser importante. A questão é outra: quando ferramentas de IA conseguem executar parte significativa do trabalho técnico, o processo seletivo precisa identificar habilidades que vão além da produção de código.
🚀 Os profissionais mais novos podem surpreender
Rieseberg afirma observar engenheiros relativamente novos superando profissionais mais experientes, inclusive pessoas que, em sua avaliação, podem ser programadores tecnicamente melhores.
A aparente contradição ajuda a entender sua mudança de perspectiva.
Um profissional pode conhecer mais linguagens, dominar algoritmos e acumular anos de experiência sem necessariamente transformar uma ideia em um produto útil com a mesma velocidade de alguém que sabe aproveitar as ferramentas disponíveis.
⚡ O diferencial está na execução: os engenheiros mais eficientes da equipe de Rieseberg apresentam bons resultados independentemente do desempenho que teriam nos testes tradicionais de programação.
A experiência continua tendo valor, mas deixa de funcionar como um indicador isolado de capacidade. O que importa é como o profissional combina conhecimento técnico, julgamento, criatividade e ferramentas para resolver problemas reais.
🛠️ A recomendação para quem está começando
O conselho de Rieseberg é direcionado especialmente a engenheiros juniores que ainda não têm reputação, influência ou uma rede profissional consolidada.
Em vez de tentar impressionar recrutadores apenas com um currículo, ele recomenda um caminho mais prático:
- Entenda a empresa: descubra quais problemas ela precisa resolver e quais objetivos pretende alcançar.
- Escolha uma ideia ambiciosa: identifique algo que possa contribuir diretamente para esses objetivos.
- Construa um protótipo funcional: transforme a ideia em algo concreto, mesmo que seja um projeto de fim de semana.
- Evite exagerar no escopo: concentre-se em uma proposta bem executada, em vez de tentar reunir muitas ideias em um único produto.
A lógica é inverter a dinâmica tradicional da contratação. Em vez de pedir que o candidato demonstre potencial por meio de um exercício artificial, a empresa pode avaliar o que ele é capaz de construir.
💡 Um fim de semana que virou produto
Rieseberg citou dois engenheiros relativamente novos da Anthropic, Anthony Morris e Alice Zhao, como exemplos dessa abordagem.
Os dois criaram, em um fim de semana, um protótipo de interface gráfica para o Claude Code. Segundo o relato do gerente, a primeira versão pública foi lançada cerca de oito dias depois.
O caso ilustra a diferença entre responder corretamente a uma pergunta técnica e identificar uma oportunidade, desenvolver uma solução e levá-la rapidamente a um estágio utilizável.
Uma entrevista tradicional poderia avaliar apenas uma pequena parcela dessas competências. Um protótipo, por outro lado, permite observar decisões de produto, qualidade da execução e capacidade de transformar uma necessidade em uma solução concreta.
Isso não garante que todo projeto de fim de semana seja um bom indicador de desempenho profissional. Mas ajuda a explicar por que Rieseberg procura trabalhos que revelem características difíceis de medir em testes convencionais.
🔎 O que ele procura nos candidatos agora?
Sem uma alternativa definitiva às entrevistas de programação, o gerente diz que analisa currículos e portfólios em busca de pequenos protótipos que demonstrem três características:
- Bom gosto: capacidade de fazer escolhas adequadas de design, produto e implementação.
- Empatia: compreensão das necessidades e dificuldades das pessoas que utilizarão a solução.
- Raciocínio baseado em princípios: habilidade para compreender o problema fundamental e tomar decisões coerentes, em vez de apenas seguir padrões conhecidos.
A abordagem desloca o foco da contratação da resposta produzida em um ambiente controlado para as decisões tomadas durante a construção de algo real.
Rieseberg também pediu sugestões de quem tenha encontrado um método melhor para avaliar candidatos.
🏢 A Anthropic não está sozinha nessa mudança
O debate já aparece em outras grandes empresas de tecnologia, embora com abordagens diferentes.
| Empresa | Movimento relatado |
|---|---|
| Anthropic | Um gerente eliminou os testes de programação da seleção de sua equipe. |
| A empresa está ampliando entrevistas-piloto nas quais candidatos podem usar o Gemini. | |
| Amazon | A orientação para engenheiros enfatiza resultados para clientes e para o negócio, e não apenas o uso de IA. |
Jaana Dogan, engenheira principal do Google, também manifestou interesse em entrevistar candidatos sobre como utilizam agentes de programação.
A mudança sugere que as empresas precisam distinguir entre profissionais que simplesmente utilizam ferramentas de IA e aqueles que sabem empregá-las para produzir resultados relevantes.
A diferença é importante. Saber gerar código com um assistente não demonstra, por si só, que alguém consegue definir o problema correto, identificar erros, avaliar riscos e entregar um produto confiável.
📊 Mas os testes técnicos ainda estão longe de desaparecer
Apesar das mudanças em algumas empresas, os dados citados na reportagem indicam que avaliações formais continuam presentes em muitos processos seletivos.
Segundo Nicole Bachaud, economista do trabalho da ZipRecruiter, uma pesquisa da empresa com empregadores, realizada em outubro de 2026, apontou que:
62,5%
dos empregadores do setor de informação exigem testes formais de habilidades já na candidatura inicial.
70%
passaram a adotar avaliações presenciais ou supervisionadas para desencorajar o uso de IA para colar.
Dados atribuídos à pesquisa da ZipRecruiter citada no texto-base.
Os números apontam para uma transformação, não necessariamente para o fim das avaliações técnicas.
⚖️ O dilema dos recrutadores: permitir o uso de IA aproxima o teste das condições reais de trabalho, mas também dificulta separar as competências do candidato das capacidades da ferramenta. Restringir a IA pode facilitar a padronização, mas corre o risco de avaliar habilidades que já não refletem a rotina profissional.
A resposta pode variar conforme o cargo. Uma posição que exige conhecimentos profundos de sistemas, segurança ou algoritmos pode demandar avaliações diferentes das aplicadas a alguém responsável por prototipagem rápida e desenvolvimento de produtos com agentes de IA.
⚠️ Existe uma contradição na ideia de construir tudo em um fim de semana
A recomendação de Rieseberg também tem um lado controverso.
A ideia de que a ambição e a velocidade superam o tempo de experiência pode favorecer profissionais capazes de trabalhar intensamente fora do expediente, mas não representa necessariamente todos os bons engenheiros juniores.
Como observou o The Decoder, a mensagem de que “fome vence tempo de casa” pressupõe uma cultura de alta intensidade que nem todo desenvolvedor iniciante consegue ou deseja reproduzir.
Além disso, um protótipo impressionante não comprova automaticamente que alguém sabe manter sistemas complexos, trabalhar em equipe, documentar decisões ou lidar com problemas de produção.
O desafio para as empresas será encontrar avaliações que reconheçam a capacidade de construir com IA sem transformar disponibilidade de tempo, recursos pessoais ou projetos paralelos em vantagens desproporcionais.
🔮 O que vem depois da entrevista de programação?
Rieseberg não acredita que o formato tradicional volte a ocupar o mesmo espaço em sua equipe.
“Acho que a entrevista de programação não vai voltar”, escreveu o gerente.
A declaração é uma previsão pessoal, não uma confirmação de que as entrevistas técnicas desaparecerão de todo o setor.
O ponto central é que, à medida que a IA assume tarefas antes usadas para medir a habilidade de programadores, recrutadores precisam encontrar outras formas de avaliar julgamento, resolução de problemas e capacidade de entrega.
A próxima geração de entrevistas pode combinar análise de projetos reais, discussão de decisões técnicas, exercícios com agentes de IA e avaliação de resultados concretos.
A questão já não é apenas descobrir quem consegue escrever código sem ajuda. É identificar quem sabe decidir o que construir, escolher as ferramentas certas e verificar se a solução realmente funciona.
E, nesse cenário, o currículo pode continuar abrindo portas. Mas um protótipo bem pensado talvez tenha cada vez mais peso na hora de atravessá-las.
