Desenvolvedor recria sete apps da Adobe com IA, mas os primeiros testes revelam bugs

Renê Fraga
9 min de leitura

Principais destaques

  • Sete alternativas gratuitas: o ArtCraft reúne ferramentas inspiradas no Photoshop, Premiere Pro, Lightroom e outros programas da Adobe, desenvolvidas com auxílio de IA.
  • Bugs comprometem a experiência: testes identificaram problemas com imagens HEIC, edição de vídeo, áudio e desempenho, além de limitações no salvamento de projetos.
  • Projeto ainda está no início: apesar de centenas de colaboradores e código aberto, o pacote está longe de substituir as ferramentas profissionais da Adobe.

Imagine baixar um editor de imagens de apenas 80 MB para substituir o Photoshop, que ocupa vários gigabytes. Agora imagine abrir uma foto do iPhone e descobrir que o programa não consegue lidar com o arquivo original nem preservar suas camadas.

Essa é a distância entre a ambição e a realidade do ArtCraft, um projeto que usa inteligência artificial para recriar sete aplicativos populares da Adobe. A iniciativa aposta em ferramentas gratuitas, código aberto e desenvolvimento acelerado por IA, mas os primeiros testes mostram que escrever software é apenas uma parte do desafio.

🎨 Uma suíte inteira criada com ajuda de IA

Brandon Thomas, desenvolvedor de Atlanta, anunciou o projeto em 3 de outubro. Com auxílio do modelo Claude Opus 5.5, da Anthropic, ele afirma ter desenvolvido os aplicativos em Rust, uma linguagem de programação conhecida pelo foco em desempenho e segurança de memória.

O pacote inclui alternativas a sete programas da Adobe:

• PhotoCraft: edição de imagens, inspirado no Photoshop.

• FilmCraft: edição de vídeo, inspirado no Premiere Pro.

• LightCraft: tratamento e organização de fotografias, inspirado no Lightroom.

• VectorCraft: ilustração vetorial, inspirado no Illustrator.

• EffectCraft: efeitos visuais e animações, inspirado no After Effects.

• DesignCraft: diagramação e publicação, inspirado no InDesign.

• Ferramenta de PDF: alternativa ao Acrobat Pro.

Os nomes são diferentes, mas a proposta é familiar: reunir recursos semelhantes aos das ferramentas tradicionais em uma suíte acessível, sem exigir uma assinatura paga.

💻 E o tamanho chama atenção: o PhotoCraft ocupa cerca de 80 MB, segundo os testes do TechRadar. Para comparação, o Photoshop citado na reportagem ocupa aproximadamente 6,4 GB.

Só que um instalador pequeno não significa que o aplicativo tenha a mesma capacidade do concorrente. O desafio está em reproduzir anos de desenvolvimento, compatibilidade com formatos, ferramentas especializadas e fluxos de trabalho profissionais.

🔎 O Photoshop alternativo tropeça nas tarefas básicas

O TechRadar testou o pacote em um MacBook Pro mais antigo, equipado com processador Intel. Os resultados foram bastante irregulares.

O PhotoCraft não conseguiu abrir fotografias HEIC feitas com iPhones. Além disso, salvava os projetos como arquivos JPG achatados, sem preservar as camadas de edição.

Isso limita justamente um dos recursos mais importantes de um editor de imagens: a possibilidade de voltar a um elemento específico e modificá-lo sem reconstruir o trabalho inteiro.

🎬 O editor de vídeo também apresentou problemas: no FilmCraft, o revisor não conseguiu cortar clipes arrastando suas bordas, uma interação bastante comum em programas de edição. O áudio importado, por sua vez, era reproduzido como um chiado alto.

O desempenho também foi criticado. Segundo o avaliador, os dois aplicativos eram extremamente lentos durante os testes.

O problema não é apenas faltar um recurso avançado. Quando operações básicas falham, o programa ainda não está pronto para entrar no fluxo de trabalho de quem depende dele.

É uma distinção importante. Um aplicativo pode demonstrar que determinada funcionalidade é tecnicamente possível e, ainda assim, não ser confiável o suficiente para uso cotidiano.

⚠️ O próprio desenvolvedor admite as limitações

Thomas não apresenta o ArtCraft como uma suíte profissional pronta para competir de igual para igual com a Adobe.

A documentação do projeto reconhece que o PhotoCraft ainda não substitui o Photoshop no trabalho profissional diário. Já o FilmCraft estima estar entre 50% e 60% do caminho para atender projetos reais.

As versões disponíveis em 10 de outubro variavam entre v0.5.0 e v0.8.0, números que ajudam a dimensionar o estágio inicial do desenvolvimento.

🚧 A promessa também mudou de tamanho. Inicialmente, Thomas afirmou no Reddit que pretendia alcançar 100% de paridade com os programas da Adobe em um mês. Depois das críticas e dos relatos de problemas, passou a falar em meses, não anos.

A mudança é reveladora: produzir rapidamente uma interface que lembra um aplicativo conhecido é muito diferente de reproduzir seu comportamento em situações reais, com diferentes arquivos, dispositivos e projetos complexos.

🧩 Mas isso é realmente uma cópia dos programas da Adobe?

Thomas descreve o desenvolvimento como clean-room, abordagem na qual um produto é recriado sem copiar o código-fonte original do concorrente.

A alegação, porém, não foi verificada de maneira independente. Segundo a reportagem, o Kingy AI não encontrou notificações da Adobe nem ações judiciais contra o projeto no momento da publicação.

A distinção importa porque reproduzir funcionalidades comuns de um software não é necessariamente o mesmo que copiar sua implementação. Ainda assim, a situação jurídica depende dos detalhes concretos, incluindo código, interfaces, marcas e outros elementos eventualmente utilizados.

O código do ArtCraft está licenciado sob MIT e Apache 2.0, licenças de código aberto que permitem ampla utilização e modificação, respeitadas suas condições.

Isso também abre espaço para que outros desenvolvedores corrijam falhas, adicionem funcionalidades e ampliem a compatibilidade com formatos.

🚀 Quem vai pagar a conta desse projeto?

Desenvolver sete aplicativos simultaneamente exige recursos, mesmo com a ajuda de modelos de IA.

Thomas afirma que a iniciativa será financiada pela venda de créditos para geração de imagens e vídeos com inteligência artificial por meio da ArtCraft. Ele também fundou a Storyteller.ai e o FakeYou.

A estratégia tenta resolver um dos problemas mais comuns dos projetos gratuitos: como sustentar o desenvolvimento sem cobrar diretamente pelo acesso às ferramentas.

📈 A comunidade já começou a crescer: dados do GitHub citados na reportagem indicavam cerca de 230 colaboradores além de Thomas, somando os sete repositórios, até 9 de outubro.

No Hacker News, o desenvolvedor explicou que precisava formar uma comunidade inicial capaz de contribuir com relatórios de bugs e solicitações de mudanças no código.

Essa participação pode ser decisiva. Mais desenvolvedores significam mais oportunidades para identificar erros, testar combinações de hardware e implementar recursos que uma equipe pequena dificilmente conseguiria entregar com a mesma velocidade.

🤔 A IA vai acabar com a vantagem da Adobe?

O ArtCraft ilustra uma mudança importante no desenvolvimento de software. Com modelos de programação capazes de gerar grandes volumes de código, uma pessoa pode tentar construir, em pouco tempo, produtos que antes exigiriam equipes numerosas.

Mas o custo de escrever código não é o único obstáculo. Há também testes, manutenção, desempenho, compatibilidade, acessibilidade e consistência entre diferentes recursos.

No caso dos aplicativos criativos, esses detalhes são especialmente importantes. Um profissional pode passar horas trabalhando em um projeto e não aceitar um programa que perde camadas, distorce o áudio ou falha ao abrir um formato comum.

A vantagem competitiva de empresas como a Adobe não está apenas na quantidade de linhas de código, mas também na maturidade dos produtos, na integração entre ferramentas e na confiança construída ao longo dos anos.

O ArtCraft não precisa eliminar todas essas diferenças para ter utilidade. Pode conquistar usuários que procuram ferramentas gratuitas, estimular concorrentes e oferecer uma base aberta para experimentação.

A questão agora é se a velocidade inicial proporcionada pela IA conseguirá se transformar em qualidade sustentável. Afinal, gerar um editor em poucos dias pode ser impressionante. Fazer com que alguém confie nele para entregar um trabalho profissional é outra história.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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