Dell admite que recursos de IA não motivam a compra de PCs

Renê Fraga
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Principais destaques:

  • A Dell reconhece que consumidores não escolhem PCs por funcionalidades de inteligência artificial.
  • A empresa muda o discurso após um ano promovendo fortemente os chamados PCs com IA.
  • Autonomia de bateria e desempenho seguem sendo os fatores decisivos para o público final.

A aposta agressiva da indústria de tecnologia em computadores pessoais com inteligência artificial acaba de sofrer um abalo importante.

Durante a Consumer Electronics Show deste ano, executivos da Dell admitiram publicamente que os consumidores não estão comprando PCs motivados por recursos de IA, contrariando a narrativa dominante adotada pelo setor nos últimos anos.

Em entrevista concedida antes do evento, Kevin Terwilliger, chefe de produtos da empresa, foi direto ao ponto ao afirmar que a inteligência artificial mais confunde do que ajuda o consumidor comum a entender os benefícios reais de um novo computador.

A declaração marca uma mudança clara de tom em relação ao discurso adotado pela Dell em 2025, quando a IA era apresentada como principal diferencial de venda.

Mudança de discurso após um ano de entusiasmo

No palco da CES, a diferença foi evidente. Jeff Clarke, vice-presidente da Dell, citou inteligência artificial apenas uma vez durante sua apresentação, descrevendo-a como uma promessa que ainda não se concretizou para o mercado consumidor.

Segundo Terwilliger, a comunicação atual da empresa deliberadamente evita colocar a IA no centro da mensagem, algo impensável apenas um ano atrás.

Apesar disso, a Dell não está abandonando a tecnologia. Todos os novos modelos continuam saindo de fábrica com unidades de processamento neural integradas.

A empresa inclusive foi uma das primeiras parceiras no lançamento do Copilot Plus PC, iniciativa liderada pela Microsoft em 2024, com chips Snapdragon X Elite da Qualcomm presentes em linhas como XPS 13 e Inspiron.

O que realmente importa para o consumidor

Na prática, porém, os benefícios percebidos pelos usuários desses novos PCs não têm relação direta com inteligência artificial.

O que chama atenção é a melhoria expressiva em autonomia de bateria e desempenho geral. A Dell, por exemplo, já anuncia até 27 horas de uso contínuo em alguns modelos da linha XPS, um argumento muito mais tangível para quem compra um notebook.

Esse movimento é especialmente relevante por envolver uma das principais parceiras da Microsoft no ecossistema Windows.

A própria Microsoft enfrentou resistência ao tentar emplacar recursos como o Recall, ferramenta de IA que sofreu atrasos e críticas por questões de segurança e acabou se tornando opcional.

Enquanto fabricantes de chips como AMD e Intel seguem anunciando processadores cada vez mais voltados para IA, a fala da Dell soa como um alerta: para o consumidor comum, inteligência artificial ainda não é um argumento convincente.

Pelo menos não do jeito que vem sendo apresentada.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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