Apple intensifica batalha contra a OpenAI e pede bloqueio imediato por suposto uso de segredos industriais

Renê Fraga
10 min de leitura

Principais destaques

  • Apple pediu uma liminar de emergência para impedir que a OpenAI utilize qualquer informação considerada segredo industrial.
  • A disputa envolve ex-executivos da Apple, documentos confidenciais, desenvolvimento de hardware de IA e uma corrida bilionária pelo próximo grande produto tecnológico.
  • Especialistas acreditam que o processo pode criar um importante precedente sobre contratação de talentos e proteção de propriedade intelectual na era da inteligência artificial.

A batalha entre Apple e OpenAI entrou em uma nova fase e promete ser uma das disputas judiciais mais importantes da indústria de tecnologia nos últimos anos.

Nesta semana, a Apple solicitou à Justiça dos Estados Unidos uma liminar para impedir imediatamente que a OpenAI, dois ex-funcionários da empresa e sua divisão de hardware utilizem qualquer informação considerada confidencial pela fabricante do iPhone.

Além da medida emergencial, a empresa também pediu que o tribunal acelere a produção de provas, autorizando a coleta antecipada de documentos, registros eletrônicos e depoimentos de funcionários e executivos da OpenAI. Para a Apple, existe o risco de que informações estratégicas continuem sendo utilizadas durante o desenvolvimento de novos produtos caso a Justiça não intervenha rapidamente.

O novo pedido amplia uma ação apresentada em julho, quando a Apple acusou a OpenAI de ter se beneficiado de informações confidenciais obtidas por ex-funcionários durante a construção de sua nova divisão de hardware. O caso representa uma mudança radical na relação entre duas empresas que, há poucos anos, eram parceiras no desenvolvimento de recursos de inteligência artificial para o iPhone.

O que motivou a ação da Apple

Segundo a documentação apresentada ao tribunal, a Apple afirma que poderá sofrer “danos irreparáveis” caso a OpenAI continue desenvolvendo produtos enquanto pairam dúvidas sobre a origem das informações utilizadas pela empresa.

O pedido de liminar não busca apenas impedir o uso de documentos específicos. A fabricante do iPhone quer proibir que a OpenAI, seus funcionários, parceiros comerciais e a empresa io Products tenham acesso, utilizem, armazenem ou divulguem qualquer material que possa ter origem em seus segredos industriais.

Paralelamente, a Apple quer que sejam produzidos rapidamente documentos internos da OpenAI relacionados ao desenvolvimento de hardware, comunicações entre funcionários, registros eletrônicos e informações técnicas que possam esclarecer se dados confidenciais foram utilizados na criação de novos produtos.

Também foram solicitados depoimentos de Chang Liu e Tang Yew Tan, dois ex-funcionários da Apple atualmente empregados pela OpenAI, além de representantes corporativos da própria OpenAI e da io Products.

Segundo a Apple, quanto mais tempo a empresa de IA continuar desenvolvendo dispositivos, maior poderá ser o prejuízo caso fique comprovado posteriormente que tecnologias proprietárias foram utilizadas indevidamente.

As acusações envolvem muito mais do que arquivos confidenciais

Na ação apresentada no mês passado, a Apple descreve um suposto esforço coordenado para acelerar o desenvolvimento da divisão de hardware da OpenAI.

Entre as acusações está a alegação de que Chang Liu teria explorado falhas internas de autenticação para acessar repetidamente arquivos confidenciais relacionados ao desenvolvimento de produtos da Apple, mesmo já trabalhando na OpenAI. A empresa afirma que dezenas de documentos técnicos foram copiados durante esse período.

Outro foco da ação é Tang Yew Tan, ex-vice-presidente responsável pelo design de produtos como iPhone e Apple Watch. A Apple afirma que ele encaminhou informações sobre fornecedores para contas pessoais e teria orientado futuros contratados sobre formas de evitar procedimentos internos durante o desligamento da empresa.

A fabricante também afirma que informações obtidas de maneira irregular teriam sido utilizadas para estabelecer contato com fabricantes parceiros da Apple, acelerando projetos ligados ao desenvolvimento de novos dispositivos baseados em inteligência artificial.

Embora o processo cite apenas alguns nomes, a Apple destaca que mais de 400 ex-funcionários atualmente trabalham na OpenAI, um número que ilustra o intenso movimento de profissionais entre as duas empresas durante a corrida pela inteligência artificial.

OpenAI responde e acusa Apple de exagerar

Poucas horas após o novo pedido judicial, a OpenAI publicou uma resposta pública incomum para um caso dessa natureza.

A empresa afirmou que as alegações da Apple são incorretas, classificando o processo como “descuidado, agressivo e estranhamente pessoal”. Segundo a OpenAI, a companhia jamais teve interesse em utilizar segredos industriais de concorrentes e possui políticas internas que proíbem explicitamente esse tipo de prática.

Como forma de sustentar sua defesa, a OpenAI divulgou conversas por mensagens e trocas de e-mails entre funcionários que, segundo ela, demonstrariam que seus executivos sempre orientaram equipes a não utilizar qualquer informação confidencial obtida em empregos anteriores.

No caso de Tang Yew Tan, a empresa afirma que ele deixou claro desde o início de seu trabalho que nenhum material confidencial deveria ser aproveitado durante o desenvolvimento dos projetos da OpenAI.

Sobre Chang Liu, a companhia argumenta que a própria Apple reconheceu posteriormente que funcionários da empresa entraram em contato com ele para pedir ajuda na localização de determinados arquivos, o que, segundo a OpenAI, enfraquece parte das acusações apresentadas no processo.

A disputa vai muito além dos documentos

Embora o processo trate oficialmente de supostos segredos industriais, analistas enxergam um cenário muito maior por trás da ação judicial.

Nos últimos dois anos, a OpenAI deixou de ser apenas uma desenvolvedora de modelos de linguagem para investir fortemente em hardware. O movimento ganhou força após a aquisição da io Products, empresa criada por Jony Ive, histórico designer responsável por alguns dos produtos mais icônicos da Apple. A negociação, avaliada em aproximadamente US$ 6,5 bilhões, colocou a OpenAI diretamente na disputa pelo futuro dos dispositivos pessoais baseados em IA.

Esse novo posicionamento transforma Apple e OpenAI em concorrentes diretas. Se antes as empresas colaboravam para integrar o ChatGPT aos dispositivos da Apple, agora ambas disputam o desenvolvimento da próxima geração de equipamentos inteligentes.

Especialistas acreditam que os futuros dispositivos poderão substituir parte das funções desempenhadas atualmente pelos smartphones, utilizando inteligência artificial como principal interface entre usuários e tecnologia.

O fim da parceria acelerou a rivalidade

O processo também simboliza o rompimento definitivo de uma relação que parecia estratégica poucos anos atrás.

Em 2024, Apple e OpenAI anunciaram uma parceria para integrar o ChatGPT ao ecossistema da Apple como parte do projeto Apple Intelligence.

Na época, muitos analistas acreditavam que a colaboração seria duradoura.

Entretanto, diversos atrasos no desenvolvimento da nova Siri, mudanças internas na Apple e a crescente expansão da OpenAI para o mercado de hardware alteraram completamente o cenário.

Em junho de 2026, a Apple confirmou que a nova arquitetura da Siri passaria a utilizar o Gemini, modelo desenvolvido pelo Google, encerrando na prática a colaboração iniciada com a OpenAI.

O que pode acontecer agora

O pedido de liminar ainda será analisado pela Justiça americana.

Caso o tribunal concorde com os argumentos apresentados pela Apple, a OpenAI poderá enfrentar restrições temporárias para continuar parte de seus projetos ligados ao desenvolvimento de hardware até que o mérito da ação seja julgado.

Se, por outro lado, o pedido for negado, o processo continuará normalmente, mas sem impedir que a empresa avance em seus produtos enquanto as provas são analisadas.

Independentemente do resultado, especialistas apontam que esta pode se tornar uma das disputas jurídicas mais relevantes da história recente da inteligência artificial. O caso coloca em debate questões que deverão se repetir cada vez mais nos próximos anos: até onde vai o conhecimento adquirido por um profissional ao mudar de empresa e onde começa a violação de propriedade intelectual.

Com bilhões de dólares em investimentos, milhares de engenheiros disputados pelas maiores empresas do mundo e uma corrida acelerada para lançar os próximos dispositivos de IA, o julgamento poderá influenciar não apenas Apple e OpenAI, mas toda a indústria de tecnologia.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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