Engenheiros usam IA para recriar Salesforce e Auth0 e desafiar o modelo SaaS

Renê Fraga
8 min de leitura

Principais destaques

  • Dois concorrentes de código aberto: OccupySaaS lançou alternativas ao Auth0 e ao Salesforce, desenvolvidas com auxílio de agentes de programação com IA.
  • Modelo de cobrança na mira: O grupo quer reduzir a dependência de assinaturas por usuário, consideradas um obstáculo ao crescimento das empresas.
  • Projetos ainda imaturos: ZeroAuthy e SalesCompel estão em desenvolvimento e não oferecem todos os recursos necessários para substituir as plataformas originais em produção.

A inteligência artificial está começando a mexer em um dos negócios mais lucrativos do mercado de software: a cobrança recorrente por usuário.

Um grupo de engenheiros de software decidiu transformar essa insatisfação em um movimento chamado OccupySaaS. A proposta é usar agentes de programação com IA para reconstruir ferramentas empresariais populares, oferecendo alternativas gratuitas e de código aberto.

Os primeiros alvos não são exatamente pequenos. Estamos falando do Salesforce, uma das maiores plataformas de CRM do mundo, e do Auth0, serviço de autenticação pertencente à Okta.

💻 Dois projetos para enfrentar gigantes do software

O OccupySaaS apresentou duas iniciativas que tentam reproduzir funcionalidades das plataformas proprietárias.

ProjetoAlternativa aTecnologia
ZeroAuthyAuth0 (Okta)Go
SalesCompelSalesforceTypeScript

Os dois projetos foram disponibilizados sob a licença Apache 2.0, permitindo utilização, modificação e distribuição dentro das condições dessa licença.

🎯 A estratégia é ambiciosa: criar substitutos com paridade de recursos, permitindo que empresas abandonem serviços proprietários sem precisar reconstruir toda a infraestrutura tecnológica.

O grupo descreve os projetos como recriações clean-room. Isso significa que o desenvolvimento parte de documentação pública e padrões abertos, sem utilizar código-fonte vazado ou descompilar os produtos originais.

Uma espécie de Occupy Wall Street do software

O nome do coletivo não parece acidental.

O OccupySaaS afirma ser formado por engenheiros de software demitidos e sediado nos Estados Unidos. A iniciativa recupera o espírito do movimento Occupy Wall Street, que ganhou notoriedade em 2011 com o lema “Somos os 99%”.

O grupo também mantém uma postura discreta: não apresenta publicamente seus integrantes no perfil do GitHub.

Segundo o site do projeto, a inteligência artificial executa boa parte do trabalho de programação, mas os humanos continuam responsáveis pelas especificações, revisões e decisões técnicas.

💡 A proposta não é simplesmente copiar produtos existentes, mas reconstruir suas funcionalidades usando documentação pública, padrões abertos e desenvolvimento assistido por IA.

O Tom’s Hardware identificou o engenheiro de software Thomas Meadows como aparente fundador do movimento.

🚧 O Salesforce já tem concorrente, mas ainda falta muita coisa

O SalesCompel pretende reproduzir as funcionalidades do Salesforce, começando por operações básicas de CRM.

Por enquanto, o projeto trabalha principalmente com fluxos de contas e contatos. Seu roadmap ainda não registra a conclusão de marcos importantes nem certificação para uso em produção.

Isso significa que empresas interessadas em abandonar o Salesforce ainda não encontram ali um substituto completo.

O desafio é particularmente grande porque um CRM empresarial envolve muito mais do que cadastrar clientes. Existem automações, permissões, integrações, relatórios, fluxos comerciais e personalizações que precisam funcionar de maneira consistente.

🔐 ZeroAuthy também enfrenta limitações importantes

O ZeroAuthy, alternativa ao Auth0, apresenta avanços em compatibilidade com padrões de autenticação.

A OpenID Foundation lista um commit específico do projeto como certificado para três perfis de provedor OpenID Connect.

Mas isso não significa que a plataforma já esteja pronta para substituir o Auth0 em ambientes corporativos.

⚠️ O que ainda falta? As próprias notas de compatibilidade identificam recursos importantes como incompletos:

  • WebAuthn;
  • Passkeys;
  • SAML;
  • Integração com diretórios corporativos.

São funcionalidades relevantes para empresas que precisam administrar identidades, autenticação multifator e acesso seguro a diferentes sistemas.

🤖 A IA está diminuindo o custo de criar software

O OccupySaaS não é um caso isolado.

A iniciativa acompanha uma tendência de projetos que utilizam inteligência artificial para reconstruir ferramentas comerciais tradicionalmente caras. Um exemplo anterior envolve alternativas de código aberto à suíte criativa da Adobe, desenvolvidas por Brandon Thomas.

A lógica é relativamente simples: tarefas de programação que exigiam equipes grandes e meses de trabalho podem ser aceleradas por agentes de IA capazes de produzir, revisar e testar código.

Isso não significa que o desenvolvimento de software tenha se tornado gratuito.

💸 Existe uma conta que continua chegando: manter um sistema complexo exige infraestrutura, atualizações, segurança, documentação, suporte e correção de problemas.

Dave Wreski, CEO da Guardian Digital, chamou atenção justamente para essa diferença. Segundo ele, quando empresas pagam por softwares proprietários, não estão pagando apenas pelo código, mas também por suporte, integrações, atualizações e responsabilidade quando alguma coisa dá errado.

O verdadeiro alvo é a cobrança por usuário

O modelo per-seat pricing, no qual empresas pagam uma assinatura por cada funcionário que utiliza determinada plataforma, é um dos principais pontos de insatisfação do grupo.

O OccupySaaS considera que esse formato penaliza empresas conforme elas crescem.

Imagine uma organização que precisa contratar mais 100 funcionários. Se cada novo colaborador exigir uma licença adicional para CRM, autenticação e outras ferramentas, o orçamento de tecnologia cresce junto com a equipe.

Alternativas auto-hospedadas e de código aberto podem mudar essa equação, embora continuem exigindo investimentos em infraestrutura e manutenção.

🔎 E os próximos alvos? O coletivo afirma que pretende desenvolver substitutos para outras categorias de software empresarial:

  • Wikis e plataformas de documentação;
  • Ferramentas de gerenciamento de tarefas;
  • Sistemas de feature flags;
  • Plataformas de observabilidade;
  • Soluções de atendimento ao cliente.

A lista indica que o objetivo vai além de enfrentar duas empresas específicas. O grupo quer questionar o próprio modelo de distribuição e monetização do software corporativo.

Uma ameaça real ou apenas mais um experimento com IA?

Ainda é cedo para dizer se o OccupySaaS conseguirá entregar alternativas capazes de competir diretamente com Salesforce e Auth0.

Existe uma diferença enorme entre reproduzir funcionalidades básicas e manter uma plataforma empresarial utilizada por milhares de organizações, com exigências de segurança, disponibilidade e integração.

Mas há uma mudança importante nessa história.

A IA pode reduzir drasticamente a barreira de entrada para desenvolver ferramentas que antes exigiam investimentos elevados e equipes especializadas. Isso abre espaço para projetos independentes que, até pouco tempo atrás, seriam difíceis de tirar do papel.

O OccupySaaS ainda precisa provar que consegue transformar protótipos em produtos confiáveis. Mas a discussão que levantou já interessa a todo o mercado: se ficou muito mais barato construir software, por quanto tempo as empresas continuarão aceitando pagar licenças cada vez mais caras?

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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