Código de Napoleão é decifrado por IA após 217 anos

Renê Fraga
7 min de leitura

Principais destaques

  • Uma carta finalmente lida: mensagem enviada por Napoleão Bonaparte a um de seus generais permaneceu indecifrada por mais de dois séculos.
  • Seis horas de trabalho: o engenheiro de cibersegurança Carter Church usou o GPT-6 Astra para reconstruir o processo de decifração a partir de uma única imagem.
  • Um recado militar estratégico: o conteúdo revelava posições e forças dos exércitos franceses, aliados e austríacos, além de orientar o general sobre os próximos movimentos.

Durante 217 anos, uma carta escrita por Napoleão Bonaparte carregou um segredo que ninguém conseguia revelar.

O documento, enviado em 1809 ao general francês Auguste de Marmont, começava normalmente, em francês. Em determinado ponto, porém, o texto mergulhava em uma sequência aparentemente incompreensível de números, letras e símbolos invertidos.

O problema tinha uma explicação simples: a chave usada para decifrar a mensagem havia desaparecido.

E, sem ela, o conteúdo ficou praticamente trancado no passado.

Uma mensagem escondida em plena era napoleônica 🔐

A carta foi enviada por Napoleão a Marmont por meio do então vice-rei da Itália, que também era enteado do imperador francês.

A primeira parte não apresentava grandes mistérios. O que vinha depois, porém, era outra história.

O sistema utilizava uma combinação incomum de caracteres que transformava a mensagem em uma espécie de quebra-cabeça criptográfico. A chave original deveria permitir a leitura, mas havia sido perdida ao longo dos séculos.

🕰️ O detalhe que complicava tudo: não era simplesmente uma questão de traduzir um francês antigo. Era necessário descobrir como o código funcionava antes de descobrir o que a carta dizia.

Durante mais de dois séculos, portanto, o documento permaneceu como uma mensagem sem destinatário moderno capaz de lê-la. Até a chegada da IA.

Seis horas contra 217 anos 🤖

O engenheiro de cibersegurança Carter Church decidiu tentar resolver o problema utilizando o GPT-6 Astra.

Segundo Church, o processo completo levou apenas seis horas.

Mais interessante ainda: ele afirma que o modelo conseguiu executar todo o fluxo multimodal a partir de uma única imagem e de um objetivo definido, em vez de apenas auxiliar em uma etapa específica da análise.

💡 O salto não está apenas em decifrar um código antigo, mas em fazer a IA conduzir todo o processo necessário para chegar à resposta.

Isso muda um pouco a maneira de olhar para o caso.

Criptografia histórica costuma exigir uma combinação de linguística, matemática, conhecimento histórico, reconhecimento de padrões e muita tentativa e erro. Aqui, a promessa é que um único sistema de IA conseguiu coordenar essas diferentes tarefas.

E o que Napoleão queria dizer? ⚔️

O conteúdo revelado estava longe de ser uma mensagem pessoal ou uma curiosidade histórica.

A carta apresentava ao general Marmont uma visão estratégica das posições e da força dos exércitos franceses e aliados, além de informações sobre as forças austríacas.

Ou seja, o código escondia informações militares relevantes em meio às campanhas napoleônicas.

A mensagem também trazia uma orientação bastante direta para Marmont: ele deveria se preparar para marchar sem se deixar intimidar por forças inimigas relativamente pequenas.

Napoleão avaliava que a Áustria estava prestes a ser atacada por todos os lados e caminhava rapidamente para sua própria ruína.

A IA não encontrou apenas palavras

Há uma diferença importante entre simplesmente reconhecer caracteres e realmente recuperar o sentido de uma mensagem criptografada.

Neste caso, o desafio envolvia identificar padrões suficientes para reconstruir a lógica do sistema e então transformar aqueles símbolos em uma mensagem legível.

Isso torna o episódio particularmente interessante para a história da criptografia.

🔎 O verdadeiro teste: a carta já estava disponível havia 217 anos. O que faltava não era acesso ao documento, mas uma maneira de interpretar aquilo que estava diante dos olhos.

Uma carta, vários tipos de inteligência

O caso também mostra por que modelos multimodais podem ser particularmente interessantes para pesquisas históricas.

Uma imagem de um documento antigo pode exigir simultaneamente:

• reconhecimento visual dos caracteres;

• identificação de padrões no sistema de codificação;

• análise linguística;

• reconstrução de possíveis regras do código;

• interpretação do contexto histórico;

• validação da mensagem resultante.

Antes, essas etapas poderiam envolver especialistas diferentes e longos períodos de investigação.

Agora, pelo menos em alguns casos, um modelo de IA pode atuar como uma espécie de coordenador dessas tarefas.

Isso significa que a IA pode resolver qualquer código antigo? 🤔

Não.

O caso de Napoleão é impressionante, mas não significa que qualquer cifra histórica possa ser quebrada simplesmente colocando uma fotografia em um modelo de linguagem.

Códigos podem ser incompletos, documentos podem estar danificados e diferentes sistemas de criptografia podem exigir conhecimentos que não estejam disponíveis no próprio material.

Além disso, uma decifração feita por IA precisa ser examinada cuidadosamente. Encontrar uma interpretação plausível não é necessariamente o mesmo que provar historicamente que ela está correta.

É justamente aí que especialistas continuam sendo importantes.

O curioso é que Napoleão nunca saberia disso

Em 1809, uma mensagem militar codificada precisava depender de uma chave física ou de conhecimento compartilhado entre seus destinatários.

Se essa chave desaparecesse, o conteúdo poderia permanecer inacessível indefinidamente.

Napoleão não tinha como imaginar que, mais de dois séculos depois, uma máquina seria capaz de analisar uma fotografia de sua própria carta e reconstruir o caminho para sua leitura.

🧩 E aqui está a ironia histórica: o código criado para proteger uma informação militar sobre o futuro acabou sendo vencido por uma tecnologia que o próprio autor jamais poderia ter previsto.

O documento atravessou guerras, mudanças políticas e dois séculos de história. No fim, a mensagem que parecia condenada ao silêncio voltou a falar.

E talvez essa seja uma das aplicações mais curiosas da IA: não apenas criar coisas novas, mas abrir documentos antigos que a humanidade deixou para trás.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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