Xiaomi lança IA open-source de alto desempenho enquanto enfrenta acusação de “destilação” da Anthropic

Renê Fraga
9 min de leitura
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Principais destaques

  • Novo topo entre modelos abertos: O MiMo-V2.6-Pro alcançou 46 pontos no índice da Artificial Analysis, ficando no primeiro lugar entre os modelos open-weight avaliados pela empresa.
  • Desempenho a preço baixo: A Xiaomi abriu os pesos dos modelos e oferece APIs com preços muito inferiores aos de concorrentes proprietários, além de liberar ferramentas para treinamento e pesquisa.
  • Uma estreia cercada de suspeitas: O lançamento acontece poucos dias depois de a Anthropic acusar a Xiaomi e outros laboratórios chineses de usar o Claude para gerar dados destinados ao treinamento de modelos concorrentes.

A Xiaomi decidiu colocar uma quantidade enorme de poder computacional em domínio público. E fez isso justamente quando uma acusação da Anthropic colocou os métodos de treinamento de empresas chinesas de IA sob os holofotes.

A empresa lançou o MiMo-V2.6, uma nova família de modelos de pesos abertos que inclui versões capazes de trabalhar com texto, imagens, áudio e vídeo.

O detalhe que chama atenção é a combinação de desempenho, escala e preço.

Um trilhão de parâmetros entra em cena 🤖

A nova família é formada por três modelos:

ModeloParâmetros totaisParâmetros ativos
MiMo-V2.6-Pro1,02 trilhão~42 bilhões
MiMo-V2.6-Flash310 bilhões~15 bilhões
MiMo-V2.6-Distill-Qwen-9B9 bilhões9 bilhões

Os dois modelos maiores utilizam arquitetura MoE, ou Mixture of Experts. Na prática, isso significa que o modelo pode ter centenas de bilhões ou até mais de 1 trilhão de parâmetros armazenados, mas apenas uma parte deles é ativada a cada consulta.

O Pro e o Flash também possuem janela de contexto de 1 milhão de tokens, permitindo trabalhar com quantidades enormes de informação em uma única interação.

📦 E os pesos estão abertos: Os modelos foram publicados no Hugging Face sob licenças MIT, permitindo que pesquisadores e desenvolvedores baixem, executem e estudem os sistemas.

A pontuação que colocou a Xiaomi no topo 📊

O MiMo-V2.6-Pro alcançou 46 pontos no Artificial Analysis Intelligence Index.

Segundo os dados apresentados no material, isso o colocou no primeiro lugar entre os modelos open-weight avaliados pela plataforma independente.

O resultado é particularmente relevante porque a Xiaomi não está tentando competir apenas com outros modelos abertos. O posicionamento coloca o MiMo na mesma conversa de sistemas proprietários de empresas como Anthropic, OpenAI e Google.

Mas existe uma ressalva importante.

Alguns benchmarks utilizados para avaliar os modelos da Xiaomi, incluindo SWE-bench Verified e DeepSWE v1.1, foram apontados pela Epoch AI como problemáticos para determinadas comparações, devido a preocupações relacionadas a contaminação de dados e metodologia de pontuação.

Isso não invalida automaticamente os resultados. Mas significa que um número isolado de benchmark não conta toda a história.

💡 O placar impressiona, mas a pergunta passou a ser outra: de onde vieram os dados e como o modelo chegou até esse nível de desempenho?

E aí entra a Anthropic 👀

O timing não poderia ser mais delicado.

Em 10 de setembro, a Anthropic publicou um relatório de inteligência de ameaças no qual acusou sete laboratórios chineses de IA de realizar operações de destilação em larga escala contra o Claude.

A Xiaomi estava entre as empresas citadas.

Segundo a Anthropic, a empresa identificada internamente como GTG-16008 teria encaminhado mais de 400 mil conversas para o Claude entre março e abril de 2026, utilizando serviços intermediários.

A alegação é que essas interações teriam sido utilizadas para extrair informações capazes de ajudar no treinamento de modelos concorrentes.

A Anthropic classificou a operação como um exemplo de ataque de destilação.

O que significa “destilação”? 🧪

A ideia não é nova.

Em sistemas de IA, destilação pode ser usada de maneira legítima: um modelo maior, chamado de professor, gera informações que ajudam a treinar um modelo menor, chamado de aluno.

O problema aparece quando uma empresa utiliza um modelo de terceiros para produzir grandes quantidades de respostas com a finalidade de reproduzir ou transferir suas capacidades para um sistema concorrente, especialmente quando isso viola os termos de uso do fornecedor.

Segundo a Anthropic, foi isso que teria acontecido.

A empresa afirmou ter identificado aproximadamente 200 milhões de trocas associadas a operações que classificou como destilação não autorizada envolvendo os sete laboratórios.

Entre as outras empresas citadas estão Alibaba, DeepSeek e Moonshot AI.

Não foi só uma questão de benchmark 💸

O MiMo-V2.6 também chama atenção pelo preço.

Segundo os valores apresentados no material, o MiMo-V2.6-Flash custa US$ 0,14 por milhão de tokens de entrada e US$ 0,28 por milhão de tokens de saída via API.

No Pro, os valores são US$ 0,435 e US$ 0,87, respectivamente.

Para comparação, o material cita o Claude Opus 5, da Anthropic, a US$ 5 por milhão de tokens de entrada e US$ 25 por milhão de tokens de saída.

ModeloEntrada / 1 milhãoSaída / 1 milhão
MiMo-V2.6-FlashUS$ 0,14US$ 0,28
MiMo-V2.6-ProUS$ 0,435US$ 0,87
Claude Opus 5US$ 5US$ 25

A diferença ajuda a explicar por que modelos open-weight de alto desempenho estão ganhando espaço: empresas podem executar os modelos por conta própria ou escolher provedores de API com custos significativamente menores.

A Xiaomi abriu mais do que os pesos 🔓

A estratégia não termina no modelo.

A Xiaomi também publicou mais de 7.000 ambientes de tarefas de aprendizado por reforço, além de um framework completo de treinamento.

A empresa estima que o treinamento de RL tenha custado aproximadamente:

• US$ 2,62 milhões para o MiMo-V2.6-Pro
• US$ 850 mil para o MiMo-V2.6-Flash

Isso transforma o lançamento em algo maior do que simplesmente disponibilizar checkpoints no Hugging Face.

A Xiaomi está tentando liberar parte considerável da infraestrutura necessária para pesquisadores e desenvolvedores experimentarem a tecnologia.

O problema que fica no ar

Existe, porém, uma questão que o código aberto não resolve sozinho.

Abrir os pesos mostra o que o modelo é. Não necessariamente mostra de onde vieram todos os dados que ajudaram a produzi-lo.

É justamente nesse ponto que as acusações da Anthropic ganham importância.

A Xiaomi não apresentou, segundo o material fornecido, uma resposta pública detalhada às acusações específicas feitas pela Anthropic. Portanto, neste momento, é importante separar duas coisas: as alegações da Anthropic e os fatos demonstráveis sobre o novo modelo.

O lançamento do MiMo-V2.6, por si só, não comprova que os modelos foram treinados com dados obtidos dessa maneira.

Uma corrida que ficou mais complicada 🚀

O episódio revela uma transformação importante no mercado de IA.

Até pouco tempo atrás, a principal disputa era relativamente simples: quem tinha o modelo mais inteligente?

Agora existem várias corridas simultâneas:

🏎️ Desempenho: quem consegue melhores resultados?

💰 Custo: quem consegue oferecer isso mais barato?

🔓 Abertura: quem disponibiliza pesos e ferramentas para terceiros?

📚 Dados: como os modelos foram treinados?

⚖️ Licenciamento: quais usos são permitidos e sob quais condições?

A Xiaomi acaba de avançar fortemente nas três primeiras.

As acusações da Anthropic, por outro lado, colocam a quarta e a quinta no centro da discussão.

E é justamente aí que a história do MiMo-V2.6 fica mais interessante: o próximo capítulo da corrida dos modelos abertos pode depender tanto da qualidade dos pesos quanto da transparência sobre como eles chegaram até lá.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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