Xi Jinping quer criar ecossistema de IA de código aberto para os países do Brics

Renê Fraga
14 min de leitura
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Principais destaques

  • China propõe uma área de IA de código aberto dentro do Brics, com colaboração no desenvolvimento e na aplicação de grandes modelos de linguagem.
  • A iniciativa vai além dos modelos de IA e inclui uma plataforma de nuvem, treinamento profissional, manufatura inteligente e intercâmbio tecnológico.
  • Pequim quer transformar tecnologia em um dos pilares da próxima etapa do Brics, em um momento de forte disputa global por inteligência artificial, infraestrutura digital e minerais estratégicos.

A China quer transformar a inteligência artificial em uma das principais ferramentas de integração entre os países do Brics. Durante a cúpula realizada em Nova Délhi, na Índia, o presidente Xi Jinping apresentou uma proposta para criar uma comunidade de IA de código aberto voltada à cooperação entre os integrantes do bloco.

A ideia foi apresentada no segundo dia da 18ª cúpula do Brics, encerrada em 13 de setembro. O encontro marcou também a passagem da presidência do grupo da Índia para a China, que comandará a próxima etapa da organização.

A proposta chinesa prevê a criação de uma área de inteligência artificial de código aberto do Brics, com apoio ao desenvolvimento e à utilização de grandes modelos de linguagem. Também estão previstos seminários especializados e programas de capacitação em IA.

Para Xi, a cooperação tecnológica deve permitir que os países do bloco desenvolvam suas próprias capacidades em vez de apenas consumir ferramentas criadas por empresas e governos de outras regiões. A proposta se encaixa em uma estratégia mais ampla de aumentar a participação do chamado Sul Global na definição dos rumos da tecnologia.

A IA passa a ocupar um espaço estratégico no Brics

O conceito de código aberto é particularmente importante nesse contexto. Em sistemas de IA, a abertura de modelos, ferramentas ou componentes pode facilitar a pesquisa, a adaptação e o desenvolvimento de aplicações por empresas, universidades e governos.

Isso não significa necessariamente que todos os componentes de um sistema sejam liberados sem restrições. Dependendo do projeto, diferentes partes da tecnologia podem ter níveis distintos de abertura, como pesos do modelo, código, documentação ou ferramentas de desenvolvimento.

A proposta chinesa, portanto, pode criar uma infraestrutura compartilhada para que pesquisadores e empresas dos países do Brics tenham maior participação na evolução desses sistemas.

O próprio Xi já havia defendido, no primeiro dia da cúpula, que o Brics deveria avançar na cooperação em inteligência artificial com base em abertura, colaboração e compartilhamento. Na ocasião, ele também apresentou a ideia de uma IA capaz de apoiar uma nova etapa de industrialização.

A preocupação com acesso à tecnologia já aparecia em documentos anteriores do bloco. Em 2025, os países do Brics defenderam a participação de desenvolvedores de seus países em iniciativas internacionais de código aberto e apontaram a inteligência artificial como uma área de cooperação estratégica.

O que a proposta chinesa prevê

FrenteObjetivo
IA de código abertoCriar uma área de cooperação tecnológica entre os países
Grandes modelos de linguagemAmpliar o desenvolvimento e a aplicação conjunta
CapacitaçãoOferecer treinamento e formação em inteligência artificial
Nuvem digitalCriar infraestrutura compartilhada para a economia digital
Manufatura inteligenteAcelerar a modernização das indústrias
Formação profissionalAproximar engenheiros, pesquisadores e jovens talentos

A lista mostra que a estratégia de Pequim não está limitada ao desenvolvimento de um chatbot ou de um único modelo de inteligência artificial. O objetivo apresentado por Xi é construir um ecossistema tecnológico mais amplo.

China também quer construir a infraestrutura digital

A inteligência artificial é apenas uma parte do plano. Xi Jinping também propôs a criação de uma plataforma de nuvem para a indústria digital do Brics, com treinamento em habilidades digitais, intercâmbio tecnológico e aproximação entre empresas.

Essa infraestrutura poderia servir como uma camada de cooperação para diferentes iniciativas digitais do grupo. O objetivo declarado é estimular o crescimento da economia digital e facilitar a conexão entre os mercados dos países participantes.

A proposta também conversa com compromissos assumidos pelo Brics durante a presidência indiana. A declaração da cúpula reconheceu a infraestrutura digital como uma base importante para crescimento econômico, inclusão e inovação e defendeu o avanço de um ecossistema digital mais autônomo e resiliente.

O documento também menciona iniciativas relacionadas a infraestrutura pública digital, capacitação profissional e cooperação em pesquisa e desenvolvimento. Em outras palavras, a agenda tecnológica do bloco já vinha sendo construída antes da proposta chinesa.

A diferença é que Pequim agora apresenta um conjunto de projetos que tenta conectar essas diferentes frentes em uma estratégia mais abrangente.

Da inteligência artificial à fábrica inteligente

Outra proposta apresentada por Xi envolve a chamada manufatura inteligente. A China pretende ajudar países do Brics a desenvolver fábricas inteligentes e a criar padrões que facilitem a modernização industrial.

A iniciativa pode aproximar IA de setores tradicionais da economia. Em vez de concentrar a tecnologia apenas em serviços digitais, a proposta busca levá-la para fábricas, cadeias de produção e outros segmentos industriais.

Esse movimento é importante porque a disputa tecnológica atual não envolve somente quem possui os melhores modelos de linguagem. Também está relacionada à capacidade de usar IA para aumentar produtividade, automatizar processos e tornar as cadeias industriais mais eficientes.

Xi também propôs uma aliança de engenheiros do Brics para treinamento conjunto e reconhecimento de padrões de qualificação. A China ainda pretende promover intercâmbios entre jovens voltados à inovação científica e tecnológica.

A proposta acontece em meio à disputa entre China e Estados Unidos

O anúncio chinês ocorre em um momento de forte competição entre Pequim e Washington pelo domínio de tecnologias estratégicas.

A inteligência artificial se tornou uma das principais áreas dessa disputa, envolvendo desde chips avançados e infraestrutura de computação até modelos de linguagem, serviços em nuvem e acesso a talentos especializados.

Para os países do Brics, o debate tem uma dimensão adicional. Muitos integrantes do grupo buscam ampliar sua capacidade tecnológica sem depender completamente das plataformas, equipamentos e padrões definidos pelas grandes potências.

É nesse ponto que a proposta de uma IA de código aberto ganha peso político e econômico. Ao incentivar o desenvolvimento compartilhado, a China pode ajudar outros países a construir competências próprias enquanto amplia sua influência sobre o ecossistema tecnológico do bloco.

Isso não significa que os países do Brics tenham uma posição única sobre tecnologia. As economias do grupo possuem interesses diferentes e também mantêm relações estratégicas com Estados Unidos, Europa e outros mercados.

Ainda assim, a criação de estruturas próprias pode aumentar o poder de negociação do bloco em discussões internacionais sobre inteligência artificial, dados, infraestrutura e governança digital.

Modi alerta contra o uso estratégico da tecnologia

O primeiro-ministro indiano Narendra Modi também colocou tecnologia no centro de seu discurso durante a cúpula. Sem mencionar diretamente nenhum país, ele criticou o que chamou de transformação de tecnologia e minerais críticos em instrumentos de pressão comercial e diplomática.

A preocupação está diretamente relacionada à crescente importância de materiais usados em equipamentos eletrônicos, baterias, sistemas de energia e outras tecnologias avançadas.

China e Estados Unidos estão envolvidos em uma disputa por cadeias de fornecimento e acesso a tecnologias estratégicas. Restrições comerciais e controles de exportação passaram a ser usados pelos dois lados como instrumentos de política industrial e segurança nacional.

Para países que não estão no centro dessa disputa, existe o risco de ficarem presos entre dois ecossistemas tecnológicos concorrentes. É justamente esse espaço que iniciativas de cooperação dentro do Brics podem tentar ocupar.

A declaração conjunta da cúpula também destacou a importância da cooperação internacional em inteligência artificial, incluindo acesso a recursos, segurança, inclusão, confiabilidade, inovação e redução de riscos.

China prepara uma agenda tecnológica para 2027

A proposta de Xi também ajuda a antecipar o que pode se tornar uma das prioridades da presidência chinesa do Brics.

Além da inteligência artificial e da infraestrutura digital, o presidente chinês apresentou iniciativas relacionadas à facilitação do comércio, zonas econômicas especiais, manufatura inteligente e formação de profissionais. O conjunto indica uma tentativa de aproximar tecnologia, indústria e comércio dentro do bloco.

Pequim também anunciou que pretende realizar, em 2027, um fórum do Brics dedicado ao comércio de serviços. A intenção é criar novos canais para ampliar as relações econômicas entre os países.

Nesse cenário, a inteligência artificial deixa de ser tratada apenas como uma tecnologia emergente e passa a aparecer como parte da estratégia econômica do grupo.

Isso pode incluir desde automação industrial e serviços digitais até educação, pesquisa, comércio eletrônico e infraestrutura de computação.

Um projeto ambicioso, mas com desafios

Transformar a proposta em uma plataforma realmente utilizada pelos países do Brics será mais complexo do que anunciar uma iniciativa conjunta.

Os integrantes possuem diferentes níveis de infraestrutura, capacidade computacional, disponibilidade de dados, legislação e formação profissional. Também existem diferenças importantes nas políticas nacionais para inteligência artificial e proteção de dados.

Outro desafio será definir quais tecnologias poderão ser compartilhadas e sob quais condições. Código aberto pode facilitar colaboração, mas questões como propriedade intelectual, segurança, governança e responsabilidade continuam relevantes.

A própria declaração do Brics reconhece a necessidade de uma IA segura, confiável, inclusiva e responsável. O documento também aponta a cooperação internacional como necessária para ampliar o acesso aos recursos de IA sem ignorar os riscos associados à tecnologia.

Por isso, o projeto chinês deve ser observado menos como o lançamento imediato de uma nova IA e mais como o início de uma infraestrutura de cooperação tecnológica.

O que está em jogo para o Brics

O avanço dessa agenda pode dar ao bloco uma presença maior no debate mundial sobre inteligência artificial.

Até agora, grande parte da corrida por modelos avançados foi concentrada em empresas e centros de pesquisa dos Estados Unidos e da China. Europa, Índia e outras regiões também desenvolvem suas próprias estratégias, mas o acesso à capacidade computacional e aos modelos mais sofisticados continua sendo um dos principais obstáculos.

Ao reunir países com grandes mercados consumidores, recursos naturais, capacidade industrial e comunidades de pesquisadores, o Brics poderia tentar construir uma alternativa própria.

A estratégia também combina com uma discussão que já vinha ganhando espaço dentro do grupo: a busca por maior autonomia tecnológica. Em documentos anteriores, os países já defendiam um ecossistema digital aberto, inclusivo e voltado à inovação, além de maior participação em projetos de código aberto.

Agora, a China está colocando uma proposta concreta sobre a mesa.

Se a ideia avançar, o impacto poderá ser sentido não apenas no desenvolvimento de modelos de inteligência artificial, mas também na formação de profissionais, na indústria, nos serviços digitais e nas relações comerciais entre os integrantes.

O próximo passo será transformar os anúncios da cúpula em projetos capazes de funcionar em diferentes realidades nacionais. A presidência chinesa em 2027 deverá mostrar se a proposta de uma IA mais aberta para o Brics conseguirá sair do discurso político e se transformar em infraestrutura tecnológica de fato.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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