Profissionais ganham até US$ 400 por hora para treinar a IA que pode substituí-los

Renê Fraga
11 min de leitura

Principais destaques

  • Remuneração de até US$ 400 por hora: recrutadores oferecem pagamentos elevados a advogados e outros especialistas para contribuir com o treinamento de modelos de IA.
  • Conhecimento especializado virou negócio: startups como a Mercor conectam profissionais qualificados a empresas que precisam de dados para desenvolver sistemas mais sofisticados.
  • O trabalho está mudando de perfil: enquanto especialistas recebem propostas mais lucrativas, trabalhadores generalistas enfrentam tarefas mais difíceis e menos oportunidades estáveis.

A inteligência artificial está criando uma nova oportunidade de renda para médicos, advogados e engenheiros de software. Empresas especializadas em IA estão recrutando profissionais experientes para avaliar respostas, fornecer conhecimento técnico e ajudar a desenvolver sistemas capazes de executar tarefas cada vez mais complexas.

O detalhe é que alguns desses trabalhadores estão ajudando a treinar tecnologias que podem, no futuro, disputar espaço com suas próprias profissões.

💰 A nova corrida por conhecimento humano

Durante anos, o treinamento de inteligência artificial foi associado à rotulagem de dados, uma atividade que envolve classificar imagens, identificar objetos e organizar informações para ensinar algoritmos. Em muitos casos, esse trabalho foi realizado por pessoas com remuneração baixa, frequentemente em mercados de mão de obra terceirizada.

Agora, a demanda está avançando para outro nível: empresas querem profissionais capazes de avaliar problemas que exigem conhecimento técnico, experiência prática e julgamento humano.

Segundo reportagem da Bloomberg publicada em 16 de outubro de 2026, recrutadores estão oferecendo até US$ 400 por hora a advogados, US$ 170 a especialistas em matéria condensada e US$ 120 a engenheiros de software.

Esses valores não representam necessariamente a remuneração típica de cada categoria. São ofertas para determinadas tarefas especializadas, e as condições variam conforme o projeto.

📊 Quanto vale a experiência profissional?

EspecialidadePagamento por hora
AdvogadosAté US$ 400
Especialistas em matéria condensadaAté US$ 170
Engenheiros de softwareAté US$ 120

O objetivo é transformar a experiência desses profissionais em exemplos, avaliações e respostas que ajudem os modelos a resolver problemas complexos com mais precisão.

Na prática, a IA não aprende apenas com grandes volumes de textos disponíveis na internet. Ela também pode ser aprimorada com avaliações criteriosas de especialistas que identificam erros, comparam soluções e demonstram como determinadas tarefas devem ser executadas.

🧠 A Mercor quer transformar especialistas em dados

Uma das empresas que participam desse mercado é a Mercor. A startup conecta profissionais qualificados a projetos de treinamento e avaliação de sistemas de IA.

De acordo com os dados citados pela Bloomberg Law, a remuneração média na plataforma chegou a US$ 110 por hora. A empresa, porém, não informou qual proporção das tarefas efetivamente paga esse valor.

A Mercor também negociava uma nova rodada de investimentos que poderia avaliá-la em US$ 20 bilhões, segundo a reportagem.

Na área da saúde, vagas publicadas pela própria empresa indicavam pagamentos de US$ 110 a US$ 250 por hora para médicos.

🔎 O que esses profissionais fazem?

Dependendo do projeto, o trabalho pode envolver a análise de respostas produzidas por modelos, a elaboração de exemplos técnicos, a avaliação de raciocínios e a identificação de falhas que passariam despercebidas em uma revisão menos especializada.

Para as empresas de IA, contratar alguém que já conhece profundamente uma área pode ser mais eficiente do que tentar reproduzir esse conhecimento apenas com dados genéricos.

Para os profissionais, a atividade oferece uma possibilidade de renda adicional, embora a disponibilidade de projetos e a estabilidade dos pagamentos não sejam garantidas.

⚠️ O dinheiro aumentou, mas a estabilidade diminuiu

A expansão desse mercado não significa que todos os trabalhadores envolvidos no treinamento de IA estejam ganhando mais.

Generalistas que atuam em tarefas de dados relatam que os trabalhos estão ficando mais difíceis, enquanto as oportunidades estáveis se tornam mais escassas. Brook Hansen, trabalhadora experiente e organizadora do setor, contou à Bloomberg que precisa circular entre diferentes plataformas para encontrar projetos.

O cenário também sofreu uma mudança importante com o encerramento do Amazon Mechanical Turk, em setembro de 2026, após 21 anos de operação.

A plataforma havia se tornado uma das referências do mercado americano para a contratação de trabalhadores em pequenas tarefas digitais.

O fechamento reforça a transformação de um setor que passa a depender de diferentes intermediários, projetos temporários e níveis variados de especialização.

💡 Existe uma divisão crescente no mercado:

  • Profissionais especializados podem acessar projetos mais bem remunerados, desde que atendam aos requisitos técnicos.
  • Generalistas continuam relevantes, mas enfrentam concorrência e incerteza sobre a continuidade das tarefas.
  • Plataformas e empresas de IA precisam equilibrar qualidade dos dados, custos e disponibilidade de trabalhadores.

Essa diferença importa porque os valores mais chamativos das vagas especializadas podem esconder a realidade da maior parte da força de trabalho que sustenta a indústria.

🤔 Especialistas bem pagos são a regra ou a exceção?

Nem todos os pesquisadores acreditam que o avanço das vagas especializadas represente uma transformação generalizada das condições de trabalho.

Antonio Casilli, professor do Instituto Politécnico de Paris, afirmou que a maior parte do trabalho com dados continua nas mãos de trabalhadores mal remunerados. Na avaliação dele, os especialistas que recebem valores elevados são apenas uma pequena parcela desse mercado.

A plataforma britânica Prolific informou que especialistas representam 30% de seus participantes, mas não divulgou a proporção de tarefas executadas por esse grupo.

Ana Price, vice-presidente da empresa, argumentou que a remuneração precisa ser atraente para conquistar profissionais que têm pouco tempo disponível e outras fontes de renda.

A distinção é fundamental: ter especialistas cadastrados não significa que a maioria das tarefas seja realizada por eles, nem que todos recebam os valores anunciados nas vagas mais bem pagas.

🔄 O paradoxo: ensinar a IA a fazer o próprio trabalho

A questão mais delicada vai além dos pagamentos. Quando um médico avalia respostas clínicas, um advogado analisa argumentos jurídicos ou um engenheiro revisa código, esse profissional contribui para aprimorar sistemas que podem automatizar parte dessas atividades.

Danielle Li, professora do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), alertou que um grupo relativamente pequeno de profissionais envolvidos no treinamento poderia, em tese, substituir ou desvalorizar significativamente uma profissão inteira.

O conhecimento que hoje torna um profissional valioso pode se transformar nos dados que permitem à IA reproduzir parte desse conhecimento amanhã.

Isso não significa que médicos, advogados ou engenheiros deixarão de ser necessários. Muitas atividades dependem de responsabilidade legal, relacionamento humano, decisões contextualizadas e atuação no mundo físico. O risco está na automação de tarefas específicas e na possível redução do valor econômico de determinadas competências.

Quanto mais capazes os modelos se tornam, maior pode ser a pressão para que profissionais entreguem mais resultados em menos tempo, mesmo quando a experiência que desenvolveram levou anos para ser adquirida.

🖱️ A transformação também chegou aos escritórios

O treinamento de IA não depende apenas de especialistas contratados para responder a perguntas. Algumas empresas também estão buscando dados diretamente das atividades cotidianas de seus funcionários.

Em abril de 2026, a Meta começou a monitorar cliques, digitação e movimentos do mouse de funcionários para aprimorar seus modelos, segundo a Bloomberg.

A iniciativa ilustra uma estratégia mais ampla: transformar atividades profissionais reais em exemplos de como as pessoas trabalham, navegam por sistemas e executam tarefas digitais.

Esse tipo de dado pode ajudar modelos a compreender sequências de ações e a reproduzir processos de escritório, em vez de apenas gerar textos ou responder a perguntas.

Para os trabalhadores, entretanto, a perspectiva desperta preocupação. O conhecimento que antes era transmitido por treinamento, experiência e convivência profissional pode se tornar matéria-prima para sistemas automatizados.

O que vem depois dessa corrida?

O mercado de treinamento de IA está se tornando mais sofisticado, mas ainda é cedo para afirmar que os pagamentos elevados serão sustentáveis ou representarão uma tendência para toda a economia.

A oportunidade imediata é real para profissionais que conseguem acessar projetos especializados. A incerteza está na duração dessa vantagem: à medida que os modelos melhoram, as empresas podem precisar de menos exemplos humanos para determinadas tarefas, enquanto passam a buscar avaliações ainda mais complexas para outras.

A ironia é que os especialistas estão sendo valorizados justamente porque a IA ainda não domina plenamente o conhecimento que eles possuem.

A pergunta é por quanto tempo essa vantagem continuará valendo: o treinamento de IA será uma nova fonte duradoura de renda para profissionais qualificados ou uma etapa temporária na automação de suas próprias atividades?

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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