Produtora de Londres cria selo “Sem Uso de IA” e provoca debate global no cinema

Renê Fraga
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Principais destaques

  • Empresa britânica lança certificação garantindo ausência total de conteúdo gerado por inteligência artificial em seus filmes
  • Iniciativa foi apresentada com grande visibilidade no European Film Market, em Berlim
  • Movimento surge em meio a tensões crescentes da indústria sobre o avanço da IA no entretenimento

A discussão sobre inteligência artificial no cinema ganhou um novo capítulo nesta semana em Berlim.

A produtora londrina Mise En Scene Company anunciou oficialmente uma certificação chamada “Sem Uso de IA”, garantindo que seus filmes não utilizam qualquer conteúdo criado por ferramentas automatizadas.

A revelação aconteceu durante o European Film Market, evento que integra a Berlinale e reúne profissionais do audiovisual do mundo todo.

A iniciativa posiciona a empresa como uma das primeiras companhias internacionais de vendas a declarar publicamente esse compromisso.

Outdoors instalados na Potsdamer Platz destacaram o novo selo ao lado de títulos como Forelock, com David Krumholtz, e Billy Knight, estrelado por Al Pacino e Charlie Heaton.

Um selo para proteger a arte humana

O CEO da empresa, Paul Yates, definiu o movimento como uma resposta direta ao momento de transformação vivido pela indústria.

Segundo ele, o setor atravessa uma mudança estrutural profunda, na qual a produção artística feita por pessoas corre o risco de perder espaço diante da automação.

A proposta da certificação segue a lógica de selos já conhecidos em outros mercados, como os de produtos orgânicos ou de comércio justo.

A ideia é criar um padrão de verificação que garanta transparência ao público e aos distribuidores. Para Yates, se não houver um esforço coletivo para identificar e valorizar a criação humana, ela pode acabar diluída em meio ao volume crescente de conteúdo gerado por algoritmos.

O debate ganhou ainda mais força porque, pela primeira vez, a Berlinale incluiu em seus formulários oficiais uma pergunta específica sobre o uso de inteligência artificial nas produções inscritas.

Cresce a tensão em torno da IA no cinema

O lançamento da certificação acontece em um cenário de forte inquietação no setor audiovisual. Nos últimos meses, associações e profissionais da indústria passaram a demonstrar preocupação com a velocidade de evolução dos modelos generativos de vídeo.

A Motion Picture Association denunciou recentemente o que classificou como uma violação massiva de direitos autorais relacionada a um novo sistema de vídeo da ByteDance, responsável por conteúdos virais que incluem vídeos falsos envolvendo celebridades de Hollywood.

O roteirista Rhett Reese, conhecido por seu trabalho em Deadpool, chegou a declarar publicamente seu desalento diante da qualidade das imagens sintéticas.

Durante debates paralelos em Berlim, executivos também alertaram para o risco de um modelo de produção em que criadores se tornem apenas operadores de grandes plataformas tecnológicas, enfraquecendo o papel autoral e a diversidade de talentos ao longo do tempo.

Portfólio reforçado no mercado europeu

Além do anúncio do selo, a Mise En Scene Company apresentou novos títulos adquiridos recentemente. Entre eles estão Forge, com Kelly Marie Tran, e Desert Road, um thriller de loop temporal estrelado por Kristine Froseth.

O European Film Market segue até 18 de fevereiro e deve continuar sendo palco de discussões intensas sobre os rumos da indústria cinematográfica.

A certificação lançada em Berlim pode marcar o início de um movimento mais amplo, que busca diferenciar produções humanas em um cenário cada vez mais automatizado.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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