Principais destaques
- OpenAI volta a ganhar velocidade: a empresa chegou a 39,7% de adoção entre os negócios acompanhados pela Ramp em julho, enquanto a Anthropic ficou em 43,5%.
- Preço começa a pesar mais na escolha dos modelos: o Fable 5 responde por apenas 11,4% dos dólares gastos em modelos da Anthropic, contra 23% do GPT-5.6 Sol nos gastos da OpenAI.
- A corrida empresarial está longe de terminar: empresas aumentam os investimentos em IA, mas também experimentam modelos de código aberto e alternativas mais baratas.
O número que resume a disputa
43,5%
Empresas que pagaram por Anthropic
39,7%
Empresas que pagaram por OpenAI
6,1%
Empresas que usam plataformas de modelos abertos entre as que já adotam IA
A disputa entre OpenAI e Anthropic entrou em uma fase mais interessante. Durante meses, a conversa no mercado de inteligência artificial foi dominada pela ideia de que empresas estavam simplesmente escolhendo qual laboratório oferecia o melhor modelo.
Os dados mais recentes sugerem uma realidade mais complicada.
A Anthropic continua na frente entre as empresas americanas acompanhadas pela Ramp, mas a OpenAI está crescendo novamente e reduzindo a distância. Ao mesmo tempo, os negócios parecem cada vez menos dispostos a pagar qualquer preço por um modelo de última geração.
Essa mudança é importante porque transforma a competição. Não basta mais apresentar a IA mais poderosa. O modelo precisa justificar o custo, funcionar bem em tarefas reais e entregar ganhos suficientes para convencer uma empresa a colocar mais dinheiro naquela tecnologia.
A Ramp chegou a uma conclusão particularmente relevante: o mercado corporativo pode estar começando a encontrar um limite para quanto aceita gastar por desempenho adicional.
A Anthropic ainda lidera, mas a OpenAI está reagindo
Em julho, 43,5% das mais de 70 mil empresas americanas acompanhadas pela Ramp pagaram por assinaturas ou tokens da Anthropic. O número representa um crescimento de 1,1 ponto percentual em relação ao mês anterior.
A OpenAI apareceu logo atrás, com 39,7%. O avanço mensal foi menor, de 0,23 ponto percentual.
À primeira vista, parece uma vantagem confortável para a Anthropic. São 3,8 pontos percentuais separando as duas empresas.
Mas existe uma diferença importante entre liderar e crescer mais rápido.
A análise da Ramp indica que a OpenAI vem apresentando um ritmo de expansão superior ao da Anthropic no terceiro trimestre. Isso significa que a distância que chegou a favorecer bastante a Anthropic pode voltar a diminuir nos próximos meses.
A virada começou alguns meses atrás. Em maio, a Anthropic passou pela primeira vez a OpenAI no indicador de adoção empresarial da Ramp. Naquele momento, a Anthropic alcançou 41%, enquanto a OpenAI estava em 39%.
Desde então, a Anthropic não perdeu a liderança. Mas a OpenAI também não ficou parada.
A corrida, portanto, mudou de formato.
Em vez de uma empresa simplesmente ultrapassar a outra e consolidar a liderança, os números mostram um mercado empresarial ainda bastante aberto, no qual clientes podem aumentar, reduzir ou redistribuir seus gastos conforme os modelos evoluem.
E há um detalhe que torna essa disputa ainda mais importante: a Ramp não está medindo apenas usuários que experimentaram uma ferramenta. Os dados refletem empresas que efetivamente pagaram por produtos, assinaturas ou consumo de modelos.
Isso aproxima o indicador de uma pergunta muito mais relevante para o mercado: onde as empresas estão colocando dinheiro?
A conta começa a importar tanto quanto a inteligência
O desempenho do GPT-5.6 Sol ajuda a explicar parte da recuperação da OpenAI.
Segundo a Ramp, o modelo respondeu por 25% dos tokens comprados pelas empresas da OpenAI no período analisado e por 23% dos dólares gastos com modelos da companhia.
O Fable 5, apesar de ser apresentado como o modelo mais avançado da Anthropic, teve uma adoção significativamente menor.
Ele representou apenas 6% dos tokens comprados pelas empresas que utilizam modelos da Anthropic. Em valor, ficou em 11,4% dos gastos.
Isso é particularmente curioso porque o Fable 5 é justamente o modelo mais caro da empresa.
A Ramp calcula que o Fable 5 custa aproximadamente US$ 10 por milhão de tokens, cerca de duas vezes o preço atribuído ao GPT-5.6 Sol. Mesmo oferecendo desempenho superior em determinadas avaliações, o modelo não conseguiu transformar essa vantagem técnica em uma participação equivalente nos gastos corporativos.
Fable 5 x GPT-5.6 Sol
Fable 5
6% dos tokens Anthropic
11,4% dos gastos Anthropic
GPT-5.6 Sol
25% dos tokens OpenAI
23% dos gastos OpenAI
Existe uma mensagem bastante clara nesses números.
Empresas não estão necessariamente procurando o modelo mais poderoso disponível. Elas estão procurando o modelo que entrega o melhor resultado pelo dinheiro investido.
Esse pode ser um dos pontos mais importantes da atual fase da corrida da IA.
O problema do Fable 5 vai além da tecnologia
A baixa adoção do Fable 5 chama atenção porque o lançamento deveria representar exatamente o tipo de evento capaz de acelerar os gastos empresariais.
Em teoria, um novo modelo de fronteira mais poderoso deveria estimular empresas a migrar seus sistemas, desenvolver novos produtos e aumentar o consumo de tokens.
Não foi isso que aconteceu em escala significativa.
A própria análise da Ramp aponta o preço como um dos principais obstáculos. Para muitas empresas, pagar aproximadamente o dobro por um modelo mais sofisticado pode não fazer sentido se uma alternativa mais barata já consegue resolver a maior parte das tarefas.
É uma mudança de comportamento que pode ter consequências enormes para toda a indústria.
Durante a primeira fase do mercado de IA generativa, a lógica era relativamente simples: modelos melhores criavam novas possibilidades e justificavam investimentos maiores.
Agora, os clientes corporativos parecem estar perguntando algo diferente:
“Quanto essa melhoria realmente economiza ou gera para a minha empresa?”
Essa pergunta muda completamente a economia do setor.
Uma diferença pequena de qualidade pode ser irrelevante para uma empresa que precisa resumir documentos, classificar informações, responder clientes ou automatizar tarefas internas.
Em contrapartida, uma redução de custos de 30%, 40% ou 50% pode ser extremamente relevante quando milhões de chamadas são processadas todos os meses.
OpenAI também está respondendo com preço
A movimentação mais recente da OpenAI reforça essa tendência.
Em 21 de agosto, a empresa anunciou uma redução superior a 20% no preço para desenvolvedores que utilizam o GPT-5.6 Sol, em uma iniciativa prevista para durar três meses. A decisão acontece justamente em um momento de competição intensa com Anthropic e outros fornecedores de modelos.
A redução não é apenas uma estratégia comercial isolada.
Ela mostra que a competição pelo mercado de IA está cada vez mais ligada à chamada relação preço-performance, ou seja, quanto desempenho o cliente recebe por cada dólar gasto.
A própria OpenAI destacou, no lançamento de sua geração GPT-5.6, que a empresa estava buscando aumentar a eficiência por dólar em diferentes cargas de trabalho empresariais.
Isso cria um ciclo difícil para os laboratórios.
Modelos melhores exigem enormes investimentos em computação. Mas, ao mesmo tempo, empresas querem preços menores. E, quando um concorrente reduz o custo, os demais precisam responder para não tornar seus próprios modelos economicamente menos atraentes.
O resultado pode ser uma espécie de corrida tecnológica ao contrário: não apenas quem consegue criar o modelo mais inteligente, mas quem consegue entregar inteligência suficiente pelo menor custo possível.
A questão da retenção de dados também entrou na disputa
Outro fator pode ter afetado a percepção empresarial sobre o Fable 5.
A Anthropic informou usuários corporativos sobre uma política que exige a retenção de determinados dados por 30 dias, segundo informações repercutidas no mercado. A mudança gerou críticas porque empresas que trabalham com informações sensíveis costumam considerar políticas de armazenamento e privacidade antes de escolher um fornecedor de IA.
A questão é especialmente relevante no ambiente corporativo.
Uma empresa pode aceitar pagar mais por um modelo se ele oferecer uma vantagem clara. Mas, se além do preço maior existir uma exigência adicional de retenção de dados, o cálculo pode mudar.
A OpenAI, por sua vez, apresentou recentemente o Private Safety Processing, uma abordagem que busca permitir determinadas verificações de segurança sem manter os dados dos clientes, em testes com usuários empresariais e de API. A tecnologia ainda está em avaliação, mas mostra como privacidade e governança estão se tornando parte da competição entre os laboratórios.
Isso significa que a disputa empresarial já não acontece apenas nos benchmarks.
Preço, privacidade, segurança, velocidade, integração e facilidade de implementação passaram a fazer parte da mesma equação.
O mercado começa a olhar para modelos abertos
Existe ainda uma terceira força crescendo silenciosamente.
Enquanto OpenAI e Anthropic disputam empresas dispostas a pagar por modelos proprietários, plataformas que oferecem acesso a modelos de código aberto também estão ganhando espaço.
Segundo a Ramp, 6,1% das empresas que utilizam IA já recorrem a plataformas de fornecimento de modelos que incluem opções abertas e modelos desenvolvidos por empresas chinesas. O percentual cresceu 0,2 ponto percentual em julho.
O número ainda é pequeno diante da participação de OpenAI e Anthropic.
Mas sua importância está no ritmo.
A Ramp observa que os novos compradores de IA continuam escolhendo principalmente empresas americanas como OpenAI e Anthropic. O crescimento das alternativas abertas aparece especialmente entre organizações que já gastam bastante com inteligência artificial e estão procurando maneiras de reduzir custos.
Isso pode ser ainda mais importante do que o número absoluto.
As empresas que mais gastam são justamente aquelas que possuem maior incentivo financeiro para trocar uma solução proprietária cara por uma alternativa que possa ser executada internamente ou contratada por valores menores.
O movimento que merece atenção
A adoção de modelos abertos ainda não derrubou OpenAI ou Anthropic.
Mas ela cria um teto para os preços que os grandes laboratórios podem cobrar.
Quanto mais próxima fica a qualidade dos modelos abertos, menor tende a ser a disposição das empresas de pagar um prêmio enorme por alguns pontos extras de desempenho.
A própria Ramp afirma que esse fenômeno pode pressionar a economia do mercado de IA. Na avaliação da empresa, o Fable 5 funciona como uma espécie de teste para descobrir quanto as empresas estão dispostas a pagar por desempenho adicional.
E a resposta, pelo menos por enquanto, não parece ser “o máximo possível”.
O dinheiro continua entrando, apesar da cautela
Isso não significa que as empresas estejam desistindo da inteligência artificial.
Muito pelo contrário.
A parcela de negócios acompanhados pela Ramp que gastam com IA chegou a quase 56% em julho, acima dos pouco mais de 50% registrados em março. A empresa também aponta que os gastos continuam crescendo entre organizações que já adotaram a tecnologia.
O que parece estar mudando é a forma como esse dinheiro é distribuído.
A empresa que antes comprava uma solução de IA e simplesmente aumentava o orçamento pode agora testar vários modelos, comparar preços e medir o resultado de cada tarefa.
Essa racionalização é um passo natural para qualquer tecnologia que sai da fase experimental e começa a entrar profundamente nas operações corporativas.
No início, empresas querem testar.
Depois, querem escalar.
Finalmente, começam a perguntar se a escala é financeiramente sustentável.
É justamente nessa terceira etapa que OpenAI, Anthropic e seus concorrentes estão entrando.
OpenAI e Anthropic vivem momentos financeiros diferentes
A disputa por clientes corporativos também precisa ser observada ao lado dos números financeiros das duas empresas.
A Anthropic registrou US$ 11,6 bilhões em receita no segundo trimestre, superando a OpenAI, que teve US$ 6,7 bilhões no mesmo período, segundo os dados citados no material original.
A empresa também apresentou um pequeno lucro operacional ajustado no trimestre, enquanto a OpenAI registrou uma perda operacional de US$ 12,3 bilhões.
Isso cria uma situação curiosa.
A Anthropic lidera a adoção empresarial da Ramp e ultrapassou a OpenAI em receita trimestral, mas a OpenAI está mostrando sinais de recuperação na disputa por empresas.
Ao mesmo tempo, a Anthropic continua crescendo rapidamente. Dados mais recentes da própria Ramp mostram que a companhia permanece em primeiro lugar na categoria de grandes modelos de linguagem na base de fornecedores da plataforma.
Ou seja, seria precipitado interpretar os números como uma derrota da Anthropic.
O que eles mostram é que a liderança pode ser mais frágil do que parecia.
A próxima batalha pode ser pelo custo da inteligência
O ponto mais interessante dessa disputa talvez não seja descobrir se OpenAI ou Anthropic ficará em primeiro lugar.
É entender o que acontecerá com o preço da inteligência artificial.
Se os modelos mais baratos continuarem ficando bons o suficiente, as empresas terão cada vez mais opções.
Uma companhia poderá utilizar um modelo de fronteira para uma tarefa extremamente complexa, um modelo intermediário para atividades rotineiras e uma alternativa aberta para processos internos.
Essa estratégia de combinar modelos pode reduzir drasticamente o custo médio de uma operação de IA.
E há sinais de que os próprios fornecedores estão se preparando para isso.
A OpenAI está reduzindo preços. Plataformas abertas estão ganhando espaço. A Anthropic precisa provar que o desempenho superior de seus modelos compensa o custo adicional.
A competição deixa de ser uma simples corrida pelo título de “melhor IA”.
Agora é uma corrida para descobrir qual inteligência artificial consegue se tornar indispensável sem se tornar cara demais.
O que os próximos meses podem revelar
Os próximos dados da Ramp serão importantes justamente porque poderão mostrar se o avanço recente da OpenAI é uma tendência ou apenas uma oscilação.
Se a empresa continuar crescendo mais rapidamente que a Anthropic, a distância entre as duas poderá diminuir ainda mais.
Se o Fable 5 começar a ganhar participação nos gastos da Anthropic, também será possível interpretar que as empresas estavam apenas esperando uma redução de preço, melhorias de integração ou mais tempo para testar o modelo.
Mas existe uma terceira possibilidade.
Empresas podem simplesmente aumentar a participação de modelos mais baratos e abertos, mantendo OpenAI e Anthropic apenas para tarefas em que os modelos de ponta realmente façam diferença.
Esse cenário seria particularmente importante para a indústria porque colocaria pressão sobre o modelo de negócios dos grandes laboratórios.
O mercado corporativo de IA está crescendo, mas isso não significa que os clientes estejam dispostos a aceitar qualquer preço.
A era em que desempenho sozinho vendia IA pode estar chegando ao fim.
Agora, cada novo salto de inteligência terá de passar por uma pergunta muito mais difícil:
ele vale o que custa?
