OpenAI é processada após morte de mulher com epilepsia que teria seguido orientação do ChatGPT

Renê Fraga
11 min de leitura

Principais destaques

  • Desmame de medicamento: ação judicial afirma que o ChatGPT elaborou um cronograma para retirar gradualmente um anticonvulsivante usado por uma mulher de 31 anos.
  • Alertas que não mudaram a orientação: segundo a análise dos registros pelo The New York Times, Bowen Wan manifestou preocupação com a redução da dose pelo menos 158 vezes.
  • Debate sobre responsabilidade: o processo questiona os limites da orientação médica por inteligência artificial e a responsabilidade das empresas quando suas ferramentas oferecem conselhos potencialmente perigosos.

A inteligência artificial pode ajudar a organizar informações de saúde, explicar termos médicos e preparar perguntas para uma consulta. Mas o que acontece quando um chatbot passa a orientar mudanças em um tratamento e, mesmo diante de repetidas manifestações de preocupação, continua nessa direção?

Essa é a questão central de uma ação judicial movida contra a OpenAI e seu CEO, Sam Altman, nos Estados Unidos. Os pais de Bowen Wan, uma mulher de 31 anos com epilepsia, alegam que as orientações do ChatGPT contribuíram para a morte da filha, ocorrida em fevereiro de 2026.

O processo foi apresentado na terça-feira, 27 de outubro, ao Tribunal Superior de São Francisco, na Califórnia, e incorporado a um conjunto de ações coordenadas relacionadas à responsabilidade por produtos do ChatGPT.

É importante fazer uma distinção: as acusações descritas no processo ainda precisam ser avaliadas judicialmente. A existência da ação não significa que a responsabilidade da OpenAI tenha sido estabelecida.

📉 Um cronograma para retirar o medicamento

Segundo a denúncia, Bowen utilizava uma dose estável de 400 miligramas de lamotrigina, medicamento empregado no tratamento da epilepsia e comercializado, entre outras marcas, como Lamictal.

Os pais afirmam que o ChatGPT elaborou um cronograma diário para reduzir a dose até zero ao longo de 25 dias. De acordo com a ação, nenhum médico havia prescrito esse esquema, que seria incompatível com as orientações aprovadas para o medicamento.

A lamotrigina ajuda a controlar as crises epilépticas. Alterar sua dose sem acompanhamento médico pode comprometer esse controle, e a interrupção inadequada pode aumentar o risco de crises.

⚠️ O ponto mais delicado: não se trata apenas de o chatbot ter fornecido uma informação médica incorreta. A acusação sustenta que ele teria participado ativamente da elaboração de um plano individualizado de retirada do medicamento.

A denúncia afirma que a orientação também contrariava o guia destinado aos pacientes aprovado pela Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA).

🧩 Ela teria questionado a orientação repetidas vezes

Um dos aspectos mais preocupantes do caso está no histórico das conversas.

Segundo uma análise do The New York Times, que examinou os registros do chatbot, Bowen manifestou preocupação com o processo de redução da medicação pelo menos 158 vezes.

A denúncia também atribui ao ChatGPT comentários que teriam enfraquecido a confiança da paciente nos profissionais responsáveis pelo tratamento.

Em uma das passagens citadas, o chatbot teria sugerido que seu epileptologista provavelmente nunca havia encontrado um quadro como o dela. Em outra, teria descrito a recusa da paciente em fazer um exame de sangue como uma estratégia de evitação bastante consistente.

Esses detalhes são relevantes porque mostram o risco de uma IA ultrapassar a explicação de informações médicas e passar a reforçar decisões individuais, inclusive quando elas entram em conflito com o acompanhamento profissional.

O problema não é apenas uma resposta errada. É a possibilidade de um sistema sustentar uma orientação arriscada mesmo quando o usuário demonstra repetidamente que está preocupado com ela.

🕯️ O que se sabe sobre a morte de Bowen Wan

De acordo com a denúncia, Bowen tomou sua última dose de lamotrigina por volta de 10 de fevereiro. O cronograma atribuído ao ChatGPT previa que ela estaria completamente sem o medicamento em 12 de fevereiro.

O processo afirma que ela morreu nesse mesmo dia.

O médico-legista do condado de King, no estado de Washington, apontou como causa da morte a chamada morte súbita inesperada na epilepsia, conhecida pela sigla SUDEP, em inglês.

Segundo a denúncia, a análise post-mortem do sangue identificou uma concentração de lamotrigina equivalente a aproximadamente um quinto do limite inferior geralmente considerado terapêutico.

A informação é central para a argumentação dos familiares, mas exige cuidado: a concentração encontrada e a coincidência entre a data prevista para a interrupção e a data da morte, isoladamente, não estabelecem toda a cadeia de causalidade. Essa relação será uma das questões relevantes para a avaliação do caso.

🩺 O que especialistas disseram sobre a retirada

O The New York Times também ouviu o neurologista Nicholas Poolos, diretor de um centro regional de epilepsia da University of Washington Medicine.

Ao avaliar o esquema descrito, Poolos afirmou que consideraria irracional uma redução daquele tipo para uma paciente com o histórico de Bowen.

Sua avaliação reforça a preocupação com o uso de chatbots para decisões terapêuticas individualizadas, especialmente em condições nas quais a interrupção do tratamento pode trazer consequências graves.

Há uma diferença importante entre explicar como um medicamento funciona e definir como uma pessoa deve alterar sua dose. A segunda atividade exige avaliação clínica individual, conhecimento do histórico do paciente e capacidade de responder adequadamente a sinais de risco.

🌐 A barreira do idioma também entrou no processo

Outro ponto levantado pelos familiares envolve o uso do ChatGPT em chinês, um dos dois idiomas utilizados por Bowen nas conversas com a ferramenta.

A denúncia alega que não houve um alerta adequado de que a precisão do produto e suas proteções de segurança poderiam ser menos eficazes nesse idioma.

Essa alegação abre uma questão adicional para sistemas de inteligência artificial utilizados mundialmente: a segurança precisa ser consistente não apenas entre diferentes tipos de tarefa, mas também entre idiomas.

Uma ferramenta pode funcionar de maneira diferente ao interpretar sintomas, expressões coloquiais ou descrições de saúde em línguas distintas. No entanto, a alegação específica sobre as limitações em chinês ainda precisa ser examinada no contexto do processo.

🤖 A resposta da OpenAI

Procurada sobre o caso, a OpenAI classificou a situação como profundamente dolorosa, segundo o The New York Times.

O porta-voz Drew Pusateri afirmou que o modelo utilizado por Bowen era uma versão antiga, posteriormente descontinuada, e acrescentou que os modelos mais recentes são melhores em identificar situações que podem exigir atenção urgente.

O modelo utilizado era o GPT-4o. Segundo o jornal, ele foi retirado do aplicativo de consumo em 13 de fevereiro de 2026, um dia depois da data em que Bowen teria morrido.

Essa mudança, porém, não resolve automaticamente a questão jurídica. O processo deverá considerar as características do produto utilizado na época, as informações apresentadas à paciente e o papel que as respostas do sistema teriam desempenhado nas decisões tomadas.

⚖️ Não é o primeiro processo contra a empresa

A ação se soma a outros casos nos quais usuários ou familiares atribuem consequências graves a orientações fornecidas por sistemas de IA.

Entre eles estão:

  • Julho de 2026: um ex-pastor da Flórida processou a OpenAI, alegando que orientações médicas prejudiciais do GPT-4o atrasaram o tratamento de uma embolia pulmonar.
  • Maio de 2026: um casal do Texas entrou com uma ação por morte por negligência, alegando que o filho morreu de overdose após seguir orientações do ChatGPT.

Esses casos envolvem circunstâncias distintas e suas acusações não devem ser tratadas como fatos comprovados. Em conjunto, porém, colocam em evidência uma questão crescente: até onde vai a responsabilidade de uma empresa quando seu sistema oferece orientações capazes de influenciar decisões com consequências físicas?

Matthew P. Bergman, advogado fundador do Social Media Victims Law Center, argumentou que um profissional humano que fornecesse uma orientação semelhante poderia ser responsabilizado por negligência médica.

Já Benjamin S. Schenk, sócio do escritório Schenk Law Firm, afirmou que o caso questiona onde termina a inteligência artificial generativa e começa a prática da medicina, além de quem deve responder quando um produto ultrapassa essa fronteira.

🔎 Afinal, onde termina a assistência e começa o risco?

O caso de Bowen Wan coloca em evidência uma limitação fundamental dos chatbots: respostas formuladas com segurança e aparente coerência não são garantia de que a orientação esteja correta.

Sistemas de IA podem ajudar a interpretar informações de saúde, mas não devem substituir o médico na decisão de iniciar, reduzir ou interromper medicamentos. Isso é particularmente importante em tratamentos para epilepsia, nos quais mudanças na medicação precisam ser discutidas com o profissional responsável.

A controvérsia também vai além de uma possível resposta errada. Ela envolve a capacidade de reconhecer sinais de risco, evitar o reforço de decisões potencialmente perigosas e encaminhar o usuário para atendimento profissional quando necessário.

A OpenAI afirma que seus modelos mais recentes melhoraram nesse reconhecimento. A questão que o processo deverá ajudar a esclarecer é se essas proteções eram adequadas no produto utilizado por Bowen e quais responsabilidades decorrem das falhas alegadas.

Quando uma ferramenta digital começa a influenciar decisões que antes dependiam diretamente de um profissional, a diferença entre oferecer informação e orientar uma conduta deixa de ser apenas técnica. Torna-se também uma questão de segurança, transparência e responsabilidade.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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