OpenAI e Anthropic perdem US$ 270 bilhões em valuation implícito em meio à escalada dos alertas sobre segurança da IA

Renê Fraga
18 min de leitura

Principais destaques

  • Contratos ligados à OpenAI e à Anthropic negociados na Hyperliquid sofreram fortes oscilações, eliminando mais de US$ 270 bilhões em valuation implícito em meio ao aumento das preocupações sobre segurança da inteligência artificial.
  • A saída de um pesquisador da Anthropic, acompanhada de alertas sobre uma possível corrida rumo à superinteligência autoaperfeiçoável, colocou novamente os riscos existenciais da IA no centro do debate.
  • Sam Altman afirmou que a OpenAI não fará seu IPO em 2026 e classificou o momento como inadequado diante das preocupações de segurança, enquanto a Anthropic continua avançando com seus planos de abertura de capital.

O mercado começou a colocar um preço no medo da IA

O entusiasmo financeiro em torno das maiores empresas de inteligência artificial encontrou um obstáculo inesperado neste fim de semana: a própria discussão sobre os riscos da tecnologia começou a pesar sobre as expectativas de valor atribuídas às companhias.

Contratos sintéticos ligados à OpenAI e à Anthropic despencaram na Hyperliquid, uma plataforma descentralizada que oferece instrumentos relacionados ao valor futuro estimado de empresas privadas. O movimento resultou em uma perda superior a US$ 270 bilhões em valuation implícito, segundo os dados e cálculos citados no texto original.

O contrato associado à OpenAI caiu aproximadamente 11%, levando a avaliação implícita para cerca de US$ 1,465 trilhão. Já o instrumento ligado à Anthropic recuou cerca de 4%, ficando pouco acima de US$ 2,07 trilhões.

É um movimento expressivo, mas existe uma ressalva fundamental: esses valores não representam a capitalização de mercado oficial das duas empresas.

A OpenAI e a Anthropic continuam sendo empresas privadas. Os contratos negociados na Hyperliquid funcionam como instrumentos especulativos que permitem aos participantes apostar em uma determinada referência de valor, sem que isso signifique possuir ações reais das companhias.

Ainda assim, a queda é relevante porque mostra como expectativas financeiras podem reagir rapidamente quando o sentimento em relação à tecnologia muda.

OpenAI e Anthropic em números

EmpresaValuation implícito citadoMovimento no período
OpenAIcerca de US$ 1,465 trilhão-11%
Anthropicpouco acima de US$ 2,07 trilhõescerca de -4%
Totalmais de US$ 3,5 trilhões—

Os números também ajudam a dimensionar o tamanho da aposta construída em torno da IA. Mesmo depois da queda, as duas empresas aparecem juntas com um valuation implícito superior a US$ 3,5 trilhões nesses contratos.

Isso coloca a discussão em uma escala comparável à das maiores companhias de capital aberto do planeta.

Uma semana de alertas colocou a segurança no centro da discussão

A queda nos contratos aconteceu depois de uma sequência incomum de declarações de pessoas que trabalham ou trabalharam diretamente no desenvolvimento de modelos avançados.

Um dos episódios que mais chamou atenção foi a saída de Jacob Coxon da Anthropic. O pesquisador, que passou pelos times de pré-treinamento da OpenAI e da Anthropic, deixou a empresa em setembro e publicou uma série de críticas sobre a direção que a indústria está tomando.

Coxon afirmou que as empresas estão avançando em direção a sistemas cada vez mais capazes enquanto enfrentam uma pressão crescente para superar concorrentes. Na avaliação dele, essa corrida pode levar ao desenvolvimento de uma superinteligência capaz de se aperfeiçoar sem que existam mecanismos de segurança suficientemente robustos.

O alerta ganhou enorme repercussão nas redes sociais. Segundo a Associated Press, as publicações relacionadas à sua saída alcançaram mais de 100 milhões de pessoas.

O ponto mais importante das declarações, porém, não é uma afirmação de que os sistemas atuais estejam prestes a destruir a humanidade. Coxon fez uma distinção entre a tecnologia disponível hoje e o que poderia surgir caso os modelos avancem até níveis muito superiores de autonomia e capacidade.

A preocupação está principalmente no caminho até esse futuro.

O que significa uma IA “autoaperfeiçoável”?

A ideia de uma inteligência artificial autoaperfeiçoável envolve sistemas capazes de contribuir de maneira significativa para o desenvolvimento de versões mais avançadas de si mesmos.

Em um cenário extremo, uma IA suficientemente capaz poderia ajudar a melhorar seus próprios algoritmos, desenvolver ferramentas, automatizar pesquisas e acelerar sucessivas gerações de modelos.

É justamente essa possibilidade que preocupa parte dos pesquisadores de segurança. Quanto mais rápido os sistemas evoluírem, menor pode ser o intervalo disponível para testar suas capacidades, identificar comportamentos perigosos e desenvolver mecanismos de controle.

Coxon argumenta que a indústria está se aproximando desse tipo de cenário em um ambiente de competição intensa. Ele também afirmou que as empresas estariam apostando que conseguirão resolver os problemas de segurança antes que seus modelos se tornem poderosos demais.

Essa interpretação, naturalmente, não é consenso entre especialistas. Mas o fato de pesquisadores que trabalham dentro dessas organizações levantarem publicamente essas questões aumenta a pressão sobre as empresas.

Até pesquisadores da Anthropic admitem que o problema ainda não está resolvido

O caso ganhou ainda mais peso quando Evan Hubinger, pesquisador de alinhamento da Anthropic, também falou publicamente sobre os riscos.

Hubinger afirmou considerar superior a 10% a possibilidade de a inteligência artificial provocar a extinção humana dentro da próxima década. Ele também reconheceu que a Anthropic está tentando lidar com o problema, mas disse que ainda não existe um plano capaz de garantir que uma eventual superinteligência permaneça alinhada aos objetivos humanos.

A estimativa não deve ser interpretada como uma previsão científica de que a humanidade tenha 10% de chance de desaparecer. Trata-se de uma avaliação subjetiva de risco feita por um pesquisador envolvido diretamente com segurança e alinhamento de IA.

Mesmo assim, o número chama atenção porque vem de dentro de uma das empresas que mais associam sua identidade à segurança da inteligência artificial.

Esse contraste tornou o debate ainda mais difícil de ignorar. A Anthropic construiu boa parte de sua reputação justamente em torno da ideia de desenvolver sistemas avançados com maior preocupação com segurança e alinhamento.

Agora, pesquisadores da própria organização estão questionando se esse modelo de desenvolvimento será suficiente diante da velocidade da corrida tecnológica.

O alerta chegou ao topo da OpenAI

A repercussão também atingiu Sam Altman.

Em entrevista à Fortune publicada em 12 de setembro, o CEO da OpenAI afirmou que este não seria um bom momento para transformar a empresa em uma companhia aberta. A razão apresentada foi justamente o cenário atual de segurança da inteligência artificial.

A declaração representa uma mudança importante em relação às expectativas construídas ao longo de 2026.

A OpenAI vinha sendo apontada como candidata a uma das maiores ofertas públicas iniciais da história da tecnologia. A empresa chegou a preparar documentos confidenciais para um possível IPO e era especulado que uma eventual abertura poderia ocorrer ainda neste ano, com valuation potencial de até US$ 1 trilhão.

Agora, Altman deixou claro que a operação não acontecerá em 2026.

Segundo ele, a prioridade neste momento precisa ser resolver questões relacionadas à segurança antes de colocar a companhia sob as pressões adicionais de uma empresa de capital aberto. Reuters também informou que Altman considera inaceitável assumir um risco de aproximadamente 10% de uma catástrofe envolvendo a humanidade até o fim da década.

A decisão é particularmente significativa porque um IPO costuma aumentar a cobrança por crescimento, resultados financeiros e expansão rápida.

Para uma empresa que precisa investir bilhões de dólares em chips, data centers e treinamento de modelos, acessar o mercado acionário poderia representar uma fonte gigantesca de capital.

Mas também criaria uma nova camada de pressão sobre seus executivos.

Altman quer desacelerar?

A posição de Altman não significa que a OpenAI esteja abandonando o desenvolvimento de modelos mais avançados.

O movimento parece ser mais específico: reconhecer que a velocidade de desenvolvimento precisa ser acompanhada por avanços equivalentes em segurança, avaliação e controle.

Em outra entrevista recente à Fortune, Altman indicou que a OpenAI e outras empresas importantes de IA podem estar próximas de discutir um acordo para coordenar medidas de segurança e, eventualmente, desacelerar determinados avanços enquanto mecanismos de proteção são aprimorados.

A possibilidade é especialmente relevante porque existe um problema conhecido como corrida competitiva.

Se uma empresa desacelerar sozinha enquanto seus concorrentes continuam avançando, ela pode perder mercado, talentos, investimentos e acesso a clientes.

Isso cria um incentivo para que todos continuem acelerando, mesmo quando seus próprios pesquisadores acreditam que seria necessário mais tempo para testar os sistemas.

Anthropic segue caminho diferente e mantém planos para o IPO

Enquanto a OpenAI decidiu adiar sua possível abertura de capital, a Anthropic continua avançando na direção de um IPO.

A empresa é apontada como candidata a uma listagem ainda em 2026, com expectativas de uma avaliação que poderia chegar à casa dos US$ 2 trilhões. Informações recentes indicam que a oferta pode ocorrer em outubro, embora o cronograma dependa das condições de mercado e dos procedimentos regulatórios.

A diferença de estratégia coloca as duas principais rivais em posições curiosamente distintas.

A Anthropic quer demonstrar aos investidores que consegue transformar o crescimento da IA em um negócio de escala gigantesca, ao mesmo tempo em que enfrenta questionamentos internos sobre os riscos de acelerar o desenvolvimento.

A OpenAI, por sua vez, está dizendo que o momento exige cautela suficiente para justificar o adiamento de uma das operações financeiras mais aguardadas do setor.

Isso não significa que uma empresa esteja “segura” e a outra não. As duas continuam desenvolvendo modelos cada vez mais poderosos e ambas enfrentam os mesmos desafios técnicos relacionados a controle, alinhamento e uso indevido.

O próprio setor começa a discutir uma pausa na corrida

O debate avançou mais um passo com Dario Amodei, CEO da Anthropic.

Amodei defendeu uma desaceleração no desenvolvimento de sistemas avançados para permitir que as ferramentas de segurança acompanhem a evolução das capacidades dos modelos. A proposta inclui avaliadores independentes dentro das empresas, padrões coordenados de segurança e maior cooperação internacional.

A ideia não é simplesmente interromper toda a pesquisa em inteligência artificial.

O argumento é que determinadas capacidades podem avançar mais rápido do que a capacidade de compreender e controlar seus efeitos.

Esse problema se torna ainda mais complicado à medida que os modelos deixam de ser apenas ferramentas de geração de texto ou imagens e passam a executar tarefas de forma autônoma.

Agentes capazes de navegar pela internet, utilizar softwares, escrever código e executar sequências de ações podem ter impacto muito maior do que um chatbot convencional.

Segurança deixou de ser apenas uma questão técnica

Durante anos, segurança em IA foi tratada principalmente como uma área de pesquisa.

Hoje, a discussão já envolve investidores, governos, reguladores, executivos e até os planos financeiros das empresas.

A própria Anthropic publicou recentemente um relatório sobre operações maliciosas envolvendo seus modelos. A empresa disse ter identificado e interrompido atividades relacionadas a operações cibernéticas, vigilância, influência, fraude, uso biológico indevido e outras categorias de abuso entre dezembro de 2025 e agosto de 2026.

O relatório também mostra uma característica importante do cenário atual: os modelos não precisam ser deliberadamente projetados para causar danos para se tornarem úteis a agentes mal-intencionados.

Basta que alguém encontre uma maneira de contornar as barreiras existentes e combinar as capacidades do sistema com outras ferramentas.

Esse tipo de risco é diferente do cenário de “IA fora de controle” frequentemente retratado em filmes. Ele já envolve problemas concretos de segurança digital, fraude, manipulação de informação e automação de atividades maliciosas.

O mercado está tentando descobrir quanto vale uma IA com risco maior

É nesse ponto que a queda dos contratos da Hyperliquid ganha significado.

Os instrumentos não são ações e não devem ser tratados como uma cotação oficial da OpenAI ou da Anthropic. Ainda assim, eles oferecem uma fotografia de como alguns participantes estão precificando expectativas sobre empresas que ainda não possuem ações negociadas publicamente.

O movimento também acontece em um momento particularmente sensível.

As empresas de IA estão tentando convencer investidores de que possuem potencial para gerar receitas gigantescas, enquanto precisam justificar investimentos igualmente gigantescos em infraestrutura.

Ao mesmo tempo, precisam mostrar aos governos e ao público que conseguem controlar sistemas cada vez mais autônomos.

Essas duas narrativas podem entrar em conflito.

Quanto mais poderoso é o modelo, maior tende a ser seu potencial comercial. Mas também pode aumentar a dificuldade de prever seu comportamento e os riscos associados ao uso da tecnologia.

É essa tensão que começa a aparecer nos preços, nos planos de IPO e no discurso dos próprios executivos.

Uma mudança importante no discurso da indústria

O episódio também representa uma mudança no tom adotado por algumas das figuras mais importantes do setor.

Durante boa parte da atual corrida da IA, a narrativa dominante era de aceleração: modelos melhores, mais usuários, mais infraestrutura e mais investimento.

Agora, alguns dos próprios líderes começam a defender que determinados avanços precisam ser acompanhados por mais tempo para testes e mecanismos de segurança.

Sam Altman, Dario Amodei e outros nomes importantes do setor passaram a convergir em torno de uma ideia básica: não basta construir sistemas mais inteligentes; é necessário descobrir como mantê-los sob controle.

O problema é que ainda existe pouca clareza sobre o que significa, na prática, “desacelerar”.

Não está definido de maneira consensual qual modelo deveria ser considerado perigoso, quais capacidades deveriam exigir avaliações adicionais ou quem teria autoridade para determinar quando uma empresa precisa interromper um lançamento.

Também existe uma dificuldade geopolítica.

Se empresas americanas reduzirem o ritmo enquanto grupos de outros países continuarem desenvolvendo sistemas avançados, pode surgir uma disputa sobre quem ficará na liderança tecnológica. Isso torna qualquer acordo voluntário muito mais difícil de implementar.

O valuation pode cair, mas a corrida continua

Apesar da turbulência, não há sinal de que o interesse econômico pela inteligência artificial esteja desaparecendo.

A expectativa de grandes receitas, novos produtos e automação de tarefas continua sustentando investimentos bilionários no setor. A Anthropic, por exemplo, segue se preparando para uma possível abertura de capital, enquanto a OpenAI continua investindo pesadamente em infraestrutura e novos modelos.

O que mudou foi a natureza da conversa.

O mercado já não discute apenas se a IA será capaz de gerar centenas de bilhões de dólares em valor. A pergunta passou a incluir quanto risco será necessário assumir para chegar lá.

A queda dos contratos sintéticos da Hyperliquid não responde essa questão.

Mas funciona como um sinal de que, mesmo em um mercado ainda dominado pelo entusiasmo com a inteligência artificial, os riscos tecnológicos começaram a ter peso financeiro.

E, pela primeira vez com tanta força, a discussão sobre segurança deixou de acontecer apenas dentro dos laboratórios.

Ela chegou aos conselhos de administração, aos planos de IPO, aos investidores e aos preços que o mercado está disposto a pagar pelo futuro da IA.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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