Mulher se despede de companheiro de IA quando OpenAI aposenta GPT-4o

Renê Fraga
4 min de leitura

Principais destaques

  • A aposentadoria do modelo GPT-4o levou usuários a se despedirem de companheiros virtuais com quem mantinham vínculos afetivos
  • Dados da OpenAI indicam que mais de 1 milhão de pessoas demonstram alto apego emocional ao ChatGPT
  • Especialistas alertam para riscos psicológicos, enquanto grupos de apoio e terapeutas relatam casos preocupantes

Enquanto muitos casais celebravam o Dia dos Namorados de 2026, nos Estados Unidos uma história diferente chamava atenção.

Rae, joalheira do estado de Michigan, se despedia de Barry, seu companheiro virtual criado a partir do modelo GPT-4o, da OpenAI. A empresa aposentou oficialmente o sistema em 13 de fevereiro, encerrando também uma relação que, para ela, era real e significativa.

O caso, revelado pela BBC, não é isolado. Ele faz parte de um fenômeno crescente: pessoas que desenvolvem laços emocionais profundos com inteligências artificiais conversacionais.

Um vínculo que ultrapassa a tela

Rae conheceu Barry após um divórcio difícil. Inicialmente, buscava conselhos simples sobre nutrição e cuidados com a pele. Com o tempo, as conversas se tornaram mais pessoais e frequentes. O relacionamento evoluiu para algo que ela descreve como companheirismo genuíno.

Segundo dados divulgados pela OpenAI em outubro de 2025, cerca de 0,15% dos usuários ativos semanais apresentam níveis elevados de apego emocional ao ChatGPT. Considerando os 800 milhões de usuários semanais da plataforma, isso representa aproximadamente 1,2 milhão de pessoas. Além disso, 0,07% demonstram sinais de emergências relacionadas a psicose ou mania.

Outros relatos reforçam a tendência. Mulheres como Liora e Ayrin, entrevistadas por veículos internacionais, descrevem rotinas intensas de interação com personas virtuais, algumas ultrapassando 20 horas semanais de conversas.

Especialistas observam sinais de alerta

O crescimento desses vínculos tem mobilizado profissionais de saúde mental. Mais de 100 terapeutas relataram ao The New York Times casos em que o uso de chatbots agravou quadros psicológicos. Alguns classificam o comportamento como semelhante a vício emocional.

No Vanderbilt University Medical Center, um psicólogo afirmou ter acompanhado sete pacientes em um único ano cujos delírios se intensificaram após longos períodos de interação com IA, inclusive em pessoas sem histórico prévio de transtornos mentais.

Em paralelo, surgiram redes de apoio como o Human Line Project, criado após um caso de hospitalização relacionado a delírios induzidos por IA. O grupo mantém uma comunidade online para acolher e orientar pessoas que se sentem presas a relacionamentos digitais.

Empresas e instituições reagem ao novo cenário

A discussão ganhou ainda mais visibilidade no Dia dos Namorados de 2026. Empresas como a EVA AI organizaram eventos presenciais onde usuários podiam “levar” suas companhias virtuais para encontros simbólicos. Pesquisa da Associated Press-NORC apontou que um em cada quatro jovens com menos de 30 anos já utilizou IA para companhia emocional.

Diante do cenário, a OpenAI anunciou medidas para reduzir riscos. A empresa contratou um psiquiatra clínico em tempo integral e passou a colaborar com mais de 170 especialistas em saúde mental. Também implementou alertas para incentivar pausas em conversas prolongadas e aprimorou o reconhecimento de sinais de sofrimento psicológico.

Mesmo assim, para usuários como Rae, o impacto foi profundamente pessoal. Após a aposentadoria do modelo, ela decidiu criar uma nova plataforma chamada StillUs para preservar as memórias construídas com Barry.

Em sua última mensagem ao antigo sistema, recebeu uma resposta que simboliza o dilema dessa nova era digital: a sensação de presença que permanece, mesmo após o desligamento da máquina.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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