Microsoft diz que o segredo dos agentes de IA é não começar pelos agentes

Renê Fraga
11 min de leitura

Principais destaques

  • O manual da Microsoft: guia de 44 páginas propõe redesenhar o trabalho antes de distribuir agentes de IA pelas empresas.
  • Mais de 40 mil agentes: análise do Copilot Studio mostra crescimento de 15 vezes no número de agentes ativos no ecossistema Microsoft 365 em um ano.
  • O modelo pode ser trocado: a Microsoft defende que a vantagem competitiva está nos dados, avaliações, processos e conhecimento da própria empresa, não no modelo de IA utilizado.

A Microsoft está tentando convencer as empresas de que a corrida pelos agentes de IA pode estar começando pelo lugar errado.

Em um guia de 44 páginas chamado Becoming a Frontier Firm: Our Frontier Playbook, publicado em 17 de setembro, a companhia reúne aprendizados de centenas de iniciativas internas de transformação com IA e propõe um caminho para organizações que querem incorporar agentes aos seus processos.

A ideia central é quase uma provocação: antes de colocar um agente no fluxo de trabalho, redesenhe o próprio fluxo de trabalho.

O erro de tratar IA como mais um software 🧩

Segundo o manual, a própria Microsoft passou por esse aprendizado.

A empresa afirma que muitas organizações estão tratando a inteligência artificial como uma implantação convencional de software: compram licenças, distribuem ferramentas aos funcionários e acompanham métricas de utilização.

O problema é que isso não necessariamente muda a maneira como o trabalho acontece.

“Uma ferramenta licenciada e distribuída para 100.000 funcionários não muda a forma como o trabalho é feito.”

É uma distinção importante. Ter acesso a um Copilot ou a um agente não significa, por si só, que uma empresa tenha transformado seus processos.

🔎 A pergunta muda: em vez de “quantos funcionários estão usando IA?”, a Microsoft propõe perguntar “como o trabalho passou a ser feito depois que a IA entrou nele?”.

O manual foi elaborado sob a liderança de Kathleen Hogan, diretora de Estratégia e Transformação da Microsoft, e tenta transformar essa experiência interna em um framework que possa ser aplicado por outras empresas.

Três caminhos para colocar IA no trabalho 🚦

A Microsoft organiza sua estratégia em três abordagens diferentes.

AbordagemIdeia central
Aceleração por PersonaAdaptar ferramentas de IA às necessidades de funções específicas
Redesenho de Processos com IAReestruturar processos existentes ao redor das capacidades da IA
IA em Primeiro LugarCriar novos produtos e fluxos já pensando na IA desde o início

Não existe, portanto, uma única receita.

Uma empresa pode começar aumentando a produtividade de determinados funcionários. Outra pode desmontar um processo inteiro e reconstruí-lo com agentes. Uma terceira pode criar uma operação completamente nova já assumindo que humanos e agentes trabalharão juntos.

É nesse segundo cenário que aparece uma das expressões mais interessantes do documento: “lean antes dos agentes”.

Primeiro enxugue. Depois automatize. 🛠️

A lógica é relativamente simples.

Antes de colocar agentes para executar tarefas, a empresa precisa mapear o processo, eliminar etapas desnecessárias, organizar os dados e determinar quais decisões continuarão nas mãos das pessoas.

Só depois entra a automação.

Isso evita um problema conhecido em tecnologia: automatizar um processo ruim apenas faz com que ele seja executado de forma ruim em uma velocidade muito maior.

📦 O exemplo da cadeia de suprimentos: a operação de cloud supply chain da Microsoft aplicou essa abordagem e chegou a mais de 111 agentes especializados em áreas como planejamento, sourcing, atendimento e logística.

Em determinados fluxos, a empresa afirma ter reduzido os tempos de ciclo em até 75%.

Investigações relacionadas a planos de demanda, que anteriormente levavam de cinco a sete dias, passaram a ser concluídas em questão de horas.

São resultados internos da Microsoft e, como a própria companhia reconhece, não foram validados de forma independente.

Quando nove pessoas viram uma espécie de laboratório de IA 🤖

Há também um exemplo diferente.

Uma equipe de apenas nove pessoas responsável pela criação do Copilot Cowork adotou a abordagem de IA em Primeiro Lugar e lançou uma versão inicial em 35 dias.

A transformação não aconteceu apenas no produto.

Os próprios profissionais passaram a assumir novas funções, descritas pela Microsoft como “meta-engenheiros” e “meta-PMs”, combinando competências tradicionais de engenharia e gestão de produto com ferramentas e agentes de IA.

Isso aponta para uma mudança maior: a IA não aparece apenas como uma ferramenta utilizada pelo funcionário, mas como parte da maneira pela qual a própria equipe é estruturada.

O agente não é necessariamente o protagonista 🎭

É aqui que o manual apresenta uma de suas ideias mais relevantes.

A Microsoft argumenta que o diferencial competitivo de uma empresa não deveria estar preso ao modelo de IA utilizado.

Nos diagramas apresentados pela companhia, o modelo de base aparece explicitamente como algo intercambiável.

Isso é particularmente interessante vindo de uma empresa que investe pesadamente em sua própria plataforma de IA e mantém uma parceria estratégica com a OpenAI.

💡 O ativo mais difícil de copiar está em outro lugar: nas avaliações proprietárias, nos dados, no conhecimento institucional, na orquestração dos processos e na capacidade de aprender continuamente com os resultados.

Ou seja, se amanhã um modelo mais barato ou mais poderoso surgir, a empresa não deveria precisar reconstruir toda a sua operação do zero.

Uma “máquina de escalar colinas” ⛰️

O manual descreve essa arquitetura como uma hill-climbing machine, ou “máquina de escalada de colinas”.

A metáfora representa um sistema que melhora continuamente por meio de avaliação e feedback.

A organização define o que considera um bom resultado, mede o desempenho dos agentes, identifica falhas e utiliza essas informações para aprimorar o sistema.

Nesse modelo, a IA é apenas uma parte da equação.

O conhecimento acumulado pela própria empresa sobre seus processos passa a funcionar como uma espécie de camada de inteligência que pode permanecer mesmo quando o modelo subjacente muda.

O VentureBeat destacou justamente esse caráter relativamente agnóstico em relação aos modelos como um dos pontos mais interessantes da estratégia apresentada pela Microsoft.

E já existem dezenas de milhares de agentes

O manual chega acompanhado de dados sobre a adoção real da tecnologia.

A Microsoft analisou mais de 40 mil agentes empresariais criados no Copilot Studio.

Segundo a empresa, os agentes ativos no ecossistema do Microsoft 365 cresceram 15 vezes em um ano.

Os casos de produtividade ainda dominam esse universo, representando aproximadamente 65% dos agentes implantados.

Mas a distribuição começa a se espalhar por áreas mais específicas:

• segurança
• cadeia de suprimentos
• finanças
• saúde
• planejamento e operações

Isso sugere uma mudança gradual no perfil dos agentes corporativos. Eles deixam de ser apenas assistentes genéricos e começam a assumir funções específicas dentro de processos empresariais.

Do assistente à equipe humano-agente 👥

A Microsoft também propõe três níveis de autonomia.

No primeiro, estão os assistentes de IA, que ajudam pessoas a executar tarefas.

Depois vêm as equipes humano-agente, nas quais pessoas e sistemas autônomos dividem responsabilidades.

No estágio mais avançado aparecem fluxos de trabalho “conduzidos por humanos, operados por agentes”.

A diferença parece pequena no nome, mas muda bastante a arquitetura da operação.

Em vez de o funcionário abrir uma ferramenta de IA sempre que precisa de ajuda, o próprio fluxo pode ser estruturado para que agentes executem etapas automaticamente e encaminhem aos humanos apenas as decisões que exigem julgamento ou autorização.

A Microsoft está vendendo agentes ou uma mudança de processo? 🤔

O curioso é que o documento acaba chegando a uma conclusão que vai além dos próprios produtos da Microsoft.

Se a tese estiver correta, a empresa que simplesmente distribuir milhares de agentes poderá ter menos vantagem do que aquela que primeiro descobrir quais processos deveriam existir, quais dados precisa organizar e quais resultados deseja medir.

Isso também ajuda a explicar por que a Microsoft insiste tanto em avaliações próprias.

Um agente pode trocar de modelo. O fornecedor pode mudar. Os preços podem cair. Uma tecnologia mais eficiente pode aparecer.

O processo e o conhecimento acumulado pela organização, porém, permanecem.

É uma corrida em que o vencedor não necessariamente será quem comprou a maior quantidade de agentes, mas quem conseguiu redesenhar o trabalho para que eles realmente tenham algo útil para fazer.

E talvez essa seja a ironia do manual: justamente quando o mercado está obcecado por colocar agentes em todos os lugares, a Microsoft está dizendo que o primeiro passo pode ser parar, olhar para o processo e perguntar se ele deveria existir daquela maneira.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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