Macron pede que países criem IA de código aberto livre dos EUA e da China

Renê Fraga
8 min de leitura

Principais destaques

  • Uma IA sem vassalos: Macron propôs que países unam recursos para desenvolver um modelo de IA de fronteira e código aberto, reduzindo a dependência de EUA e China.
  • Brasil está na lista: Índia, Brasil, Cingapura, países africanos e Estados do Golfo foram citados como potenciais participantes de um ecossistema internacional de IA.
  • Um choque na ONU: A proposta francesa veio poucas horas depois de Donald Trump rejeitar esforços internacionais para regulamentar a inteligência artificial.

Em plena Assembleia Geral da ONU, Emmanuel Macron colocou a disputa global por inteligência artificial em termos bastante diretos: ou os países desenvolvem capacidade própria, ou correm o risco de ficar dependentes das grandes potências tecnológicas.

O presidente francês defendeu a criação de um modelo de IA de fronteira, de código aberto e desenvolvido coletivamente por países que não querem depender exclusivamente dos Estados Unidos ou da China.

A proposta apareceu em seu discurso na terça-feira, quando Macron pediu que nações com interesses semelhantes somem dinheiro, infraestrutura e capacidade computacional.

“Não quero que ninguém se torne vassalo” 🌍

🗣 A mensagem de Macron foi direta: “Não quero que ninguém se torne vassalo de uma das grandes potências”, afirmou aos líderes reunidos em Nova York.

Em seguida, apresentou a alternativa que considera necessária: uma colaboração internacional para construir um modelo de IA de ponta que possa ser compartilhado entre os participantes.

A referência às “superpotências” foi interpretada pela Agence France-Presse como uma alusão aos Estados Unidos e à China.

A ideia, portanto, não é simplesmente criar mais um modelo de linguagem. É tentar construir uma infraestrutura tecnológica capaz de reduzir a dependência de empresas, modelos e capacidade computacional concentrados em poucos países.

💡 A proposta de Macron é essencialmente esta: se a IA de fronteira exige escala, por que essa escala precisa pertencer a apenas duas grandes potências?

E o Brasil entra nessa conta 🇧🇷

Macron mencionou explicitamente o Brasil entre os países que poderiam participar dessa iniciativa.

Índia, Cingapura, países africanos e Estados do Golfo também foram citados como possíveis integrantes desse ecossistema.

💰 Não seria apenas uma vaquinha internacional: Macron defendeu que os países combinem tanto recursos financeiros quanto capacidade de processamento de dados.

Isso é importante porque desenvolver modelos de fronteira exige muito mais do que pesquisadores e algoritmos. É necessário acesso a enormes volumes de dados, infraestrutura de computação e capacidade de financiar o treinamento e a operação desses sistemas.

O timing não poderia ser mais simbólico 🇺🇸

A fala de Macron aconteceu poucas horas depois de Donald Trump adotar uma posição bastante diferente durante seu próprio discurso na ONU.

Trump rejeitou esforços de regulamentação internacional da inteligência artificial, classificando-os como um “esquema globalista”, e afirmou que os Estados Unidos rejeitam completamente qualquer tentativa de controlar a IA.

O governo americano também anunciou que passará a utilizar o termo “superinteligência” em documentos oficiais futuros, em substituição à expressão “inteligência artificial”.

🔎 Duas visões, no mesmo palco: de um lado, a proposta francesa de cooperação internacional para criar uma alternativa tecnológica; do outro, a defesa americana de maior autonomia nacional sobre o desenvolvimento da IA.

A Europa está tentando abrir uma terceira frente 🇪🇺

A França já vem defendendo maior autonomia tecnológica europeia, mas o discurso de Macron amplia essa ideia para além da União Europeia.

O objetivo apresentado agora é reunir países que compartilham o interesse em desenvolver capacidade própria, sem necessariamente aderir ao ecossistema tecnológico dominado por Washington ou Pequim.

Isso coloca a discussão em uma escala diferente.

Não se trata apenas de quem terá o melhor chatbot, mas de quem terá acesso aos recursos necessários para desenvolver os próximos modelos.

A conta começa pelos chips e pela computação 🖥️

Para transformar a proposta em realidade, os países precisariam enfrentar uma questão bastante concreta: capacidade computacional.

Modelos de fronteira dependem de grandes clusters de aceleradores, infraestrutura de data centers, energia, redes de alta velocidade e investimentos gigantescos.

Por isso, a proposta de Macron fala especificamente em somar “capacidades de investimento” e recursos computacionais.

O gargalo não está apenas no software.

Quem controla a infraestrutura necessária para treinar modelos avançados também exerce influência sobre o ritmo e a direção do desenvolvimento da tecnologia.

ONU quer evitar uma nova corrida sem regras ⚠️

A discussão ganhou ainda mais peso com os alertas de Antonio Guterres.

O secretário-geral da ONU comparou a atual corrida pela inteligência artificial à dinâmica de risco da Guerra Fria nuclear e defendeu mecanismos multilaterais para administrar riscos associados à tecnologia.

Guterres também pediu que Estados Unidos e China assumam responsabilidade especial pelo desenvolvimento da IA e defendeu supervisão independente.

Outro ponto destacado foi o uso de sistemas autônomos em conflitos.

“A decisão de determinar a vida e a morte jamais pode ser delegada às máquinas.”

A declaração coloca a IA militar no centro da discussão internacional, especialmente em um momento em que governos tentam estabelecer limites para sistemas capazes de operar com graus crescentes de autonomia.

E agora vem a parte mais difícil 🤔

A proposta francesa tem uma ideia relativamente simples no papel: vários países juntam dinheiro, dados, pesquisadores e computação para criar uma infraestrutura compartilhada.

Na prática, coordenar tudo isso é outra história.

Quem controlaria o modelo? Quem definiria as regras de acesso? Como seriam distribuídos os custos? Quais dados poderiam ser utilizados? E, principalmente, como garantir que um projeto internacional consiga competir tecnologicamente com empresas que movimentam bilhões de dólares e operam com enormes volumes de infraestrutura?

🇬🇧 O Reino Unido também entrou na conversa: o primeiro-ministro Andy Burnham defendeu padrões globais de transparência para a IA e afirmou que decisões fundamentais sobre a tecnologia não deveriam ser deixadas ao acaso.

A reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU sobre os riscos da IA, convocada pela França, deverá aprofundar justamente esse debate, com a participação prevista de Sam Altman, da OpenAI, Dario Amodei, da Anthropic, e Clement Delangue, do Hugging Face.

Macron lançou a ideia de uma IA que não tenha dono geopolítico único. Agora resta descobrir se países tão diferentes conseguem colocar recursos suficientes na mesma mesa para transformar essa “terceira via” em infraestrutura real.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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