LibreOffice transforma “não ter IA” em recurso

Renê Fraga
8 min de leitura

Principais destaques

  • IA fica de fora: a Document Foundation decidiu não incluir recursos de inteligência artificial no LibreOffice em sua instalação padrão por enquanto.
  • Dados permanecem no dispositivo: a escolha busca garantir que documentos confidenciais não precisem ser enviados a servidores para processamento.
  • Quem quiser, pode instalar: extensões permitem conectar o LibreOffice a modelos de IA locais, mantendo a integração como uma escolha do usuário.

O mercado de software parece ter entrado numa corrida para colocar inteligência artificial em praticamente tudo. O LibreOffice decidiu correr na direção contrária.

A Document Foundation, organização sem fins lucrativos responsável pelo editor de documentos de código aberto, afirma que não pretende adicionar IA ao LibreOffice no futuro próximo.

Não se trata de uma rejeição definitiva à tecnologia. É uma decisão sobre como o software deve funcionar hoje.

E se “não ter IA” fosse justamente o diferencial? 🤔

A posição foi reforçada após o lançamento do LibreOffice 26.8, no fim de agosto. A organização destacou que a versão mais recente não possui recursos de IA generativa.

Para a fundação, isso é uma escolha deliberada de design.

O ponto central está menos na inteligência artificial em si e mais no que acontece com os dados quando ela é utilizada.

🔒 A regra é simples: o LibreOffice quer que os documentos continuem na máquina do usuário e que o programa não dependa de uma conexão de rede para funcionar.

Isso é particularmente relevante para empresas, governos e profissionais que trabalham com informações confidenciais.

O documento fica onde deveria estar

Ferramentas de IA integradas a aplicativos costumam enviar dados para servidores remotos para que modelos possam analisá-los. Dependendo do serviço, isso pode envolver documentos, trechos de texto ou outros conteúdos produzidos pelo usuário.

O LibreOffice adota uma filosofia diferente.

A Document Foundation argumenta que organizações que lidam com dados pessoais, confidenciais ou protegidos legalmente precisam saber exatamente para onde essas informações estão indo.

“A única garantia que sobrevive a uma auditoria é que os dados não saiam da máquina.”

A frase resume bem a lógica por trás da decisão.

Não é apenas uma questão de privacidade para usuários domésticos. Em determinados ambientes profissionais, saber que um documento nunca deixou o computador pode ser uma exigência operacional ou jurídica.

Mas o LibreOffice não está proibindo IA 🧩

Aqui está uma diferença importante.

A Document Foundation não quer impedir que alguém use inteligência artificial dentro do LibreOffice. O que ela não pretende fazer é transformar a IA em parte obrigatória da instalação padrão.

Usuários que desejarem recursos desse tipo podem recorrer a extensões capazes de conectar o editor a modelos de IA locais.

Isso cria uma separação bastante clara:

ModeloComo funciona
LibreOffice padrãoSem recursos de IA generativa
ExtensõesUsuário decide se quer adicionar IA
IA localPode ser usada sem necessariamente enviar documentos para serviços externos

A escolha, portanto, fica nas mãos do usuário.

Uma resposta à “IA em todo lugar” ⚡

A decisão acontece em um momento curioso para a indústria de software.

Empresas vêm adicionando chatbots, assistentes, geração de texto, edição de imagens e outros recursos de IA a praticamente qualquer aplicativo. Em muitos casos, a tecnologia aparece mesmo quando sua utilidade para aquela tarefa não é tão evidente.

Esse movimento também alimentou críticas à chamada “enshittification”, termo usado para descrever a degradação de produtos digitais à medida que eles acumulam recursos, anúncios, mecanismos de monetização ou funcionalidades consideradas desnecessárias.

O movimento contrário já começou a aparecer.

Há desenvolvedores criando ferramentas para bloquear recursos de IA em determinados programas, enquanto alguns softwares passaram a oferecer maneiras de desativá-los.

O LibreOffice leva essa ideia um passo adiante: a IA nem sequer entra no pacote padrão.

Por que não simplesmente colocar um botão para desligar? 🛑

Essa é uma diferença importante na filosofia do projeto.

Em vez de instalar a IA e permitir que o usuário a desative depois, o LibreOffice parte do princípio oposto: o software começa sem IA e quem quiser pode adicioná-la.

Isso reduz também a dependência de provedores específicos.

Segundo a Document Foundation, atualmente não existe uma integração de IA que cumpra todos os requisitos considerados necessários pelo projeto, incluindo manter os dados no dispositivo e evitar dependência de um único fornecedor de inteligência artificial.

🔎 E isso deixa uma porta aberta: a organização não está dizendo que a IA nunca fará parte do LibreOffice.

A avaliação é sobre o estado atual da tecnologia e das integrações disponíveis.

O que precisaria mudar?

A Document Foundation afirma que seus critérios não representam uma rejeição definitiva ao setor de IA.

Na prática, a tecnologia teria de evoluir para atender melhor aos princípios adotados pelo projeto.

Entre as preocupações está justamente a possibilidade de processamento local, sem que documentos precisem ser enviados para servidores externos, além de evitar que o usuário fique preso a um único provedor de IA.

Isso também combina com uma das características históricas do LibreOffice: ser uma alternativa aberta aos grandes pacotes proprietários de produtividade.

A escolha virou uma funcionalidade

Existe uma ironia interessante nessa história.

Durante anos, uma característica de software era descrita pelo que ele fazia. Agora, cada vez mais, também pode ser definida pelo que ele deliberadamente não faz.

Não ter IA pode significar menos processamento remoto, menos dependências externas e menos componentes adicionais rodando em segundo plano.

Para quem quer um assistente de IA, isso provavelmente parece uma oportunidade perdida.

Para quem trabalha com documentos sensíveis, pode ser exatamente o contrário.

💡 No fim, “sem IA” deixa de ser ausência de recurso e passa a ser uma escolha de produto.

E o LibreOffice parece disposto a sustentar essa escolha enquanto não encontrar uma forma de incorporar inteligência artificial sem abrir mão do controle sobre os dados.

Por enquanto, a equação é simples: o LibreOffice continua funcionando sozinho. Quem quiser colocar uma IA dentro dele pode fazê-lo por conta própria. E talvez, em uma indústria obcecada por adicionar recursos, a possibilidade de escolher o que fica de fora seja justamente uma das funcionalidades mais interessantes.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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