Principais destaques
- Chatbots treinados com dados pessoais estão sendo usados para simular pessoas falecidas
- Para alguns, a tecnologia ajuda no luto; para outros, pode causar sofrimento e confusão
- Especialistas defendem regras claras sobre consentimento e limites no uso de dados pós-morte
A inteligência artificial está entrando em um dos territórios mais sensíveis da experiência humana: o luto.
Ferramentas conhecidas como griefbots ou deathbots utilizam modelos de linguagem avançados para recriar digitalmente pessoas que já morreram, simulando conversas a partir de mensagens, e-mails, áudios e publicações antigas.
O tema ganhou força após relatos como o de Roro, uma criadora de conteúdo na China que decidiu reconstruir digitalmente a própria mãe após perdê-la para o câncer. A história foi analisada pelo pesquisador James Muldoon em seu livro Love Machines, no qual ele discute as implicações emocionais e éticas da chamada ressurreição digital.
Quando a IA vira companhia no luto
Depois da morte da mãe, Roro passou a escrever sobre a relação conturbada que mantinham. A partir dessas memórias, alimentou um sistema de IA com eventos importantes da vida da mãe, traços de personalidade e padrões de comportamento. O resultado foi um chatbot chamado Xia, criado na plataforma chinesa Xingye.
Durante o processo de treinamento, Roro percebeu que também estava reinterpretando o passado. Ajustava traços, suavizava conflitos e moldava uma versão mais carinhosa da mãe. Segundo ela, a experiência foi profundamente terapêutica e permitiu dizer o que nunca havia sido dito.
Empresas especializadas já exploram esse mercado. A americana You, Only Virtual desenvolve avatares digitais baseados em interações reais entre a pessoa falecida e familiares. Alguns desses sistemas permanecem estáticos, representando a personalidade no momento da morte. Outros têm acesso à internet e continuam “evoluindo”, incorporando novas informações ao longo do tempo.
Entre o conforto e o desconforto
Nem todos reagem da mesma forma. A jornalista britânica Lottie Hayton, que perdeu os pais repentinamente, relatou que as simulações digitais foram perturbadoras. Para ela, as respostas artificiais pareciam imitações imperfeitas, que diminuíam a autenticidade das lembranças reais.
Esse contraste revela um ponto central: enquanto para algumas pessoas a IA pode oferecer uma sensação de encerramento emocional, para outras pode intensificar a dor ou criar uma dependência difícil de romper.
Diferentemente de cartas antigas ou fotografias, a IA generativa introduz novos diálogos. Ela responde de maneiras inesperadas, produz frases inéditas e pode até atualizar opiniões. Isso altera profundamente a dinâmica do luto, que tradicionalmente envolve aceitar a ausência definitiva.
Os riscos éticos e a necessidade de regras
O avanço desses sistemas também levanta questões delicadas. Quem deve autorizar a criação de um griefbot? Todos os familiares precisam concordar? A pessoa falecida teria consentido com a própria recriação digital?
Na China, o crescimento desse tipo de serviço já chamou a atenção da Cyberspace Administration of China, que discute regulamentações para limitar possíveis danos emocionais causados por inteligências artificiais altamente realistas.
Além disso, há um fator comercial. As empresas que oferecem esses serviços não são terapeutas, mas negócios guiados por métricas de engajamento e lucro. Um chatbot que mantém o usuário conectado por horas pode ser financeiramente vantajoso para a plataforma, mas psicologicamente prejudicial para quem ainda está tentando superar a perda.
Especialistas defendem regras claras sobre uso de dados após a morte, padrões de design que priorizem o bem-estar emocional e limites para evitar dependência excessiva. A discussão não é apenas sobre se a tecnologia deve existir, mas sobre quem controla esse processo e quais serão suas consequências a longo prazo.
A inteligência artificial já transformou a forma como trabalhamos, aprendemos e nos relacionamos. Agora, começa a transformar também a forma como nos despedimos. A pergunta que fica é se estamos preparados para lidar com essa nova fronteira emocional.
