IA não é o problema no conteúdo. A estratégia é.

Renê Fraga
5 min de leitura

Principais destaques:

  • Cortar equipes e apostar apenas em conteúdo gerado por IA não cria vantagem competitiva e pode enfraquecer marcas no longo prazo.
  • Dados ajudam decisões, mas quando viram regra absoluta, levam a erros estratégicos difíceis e caros de reverter.
  • A IA funciona melhor como força multiplicadora de talentos humanos, não como substituta do pensamento criativo e estratégico.

A pergunta tem aparecido cada vez mais nas salas de diretoria: se a inteligência artificial escreve textos em minutos, por que continuar pagando escritores?

Em um cenário global de inflação elevada, juros altos e pressão por eficiência, a tentação de trocar pessoas por máquinas parece lógica. Só que essa lógica esconde um erro profundo de estratégia.

De fato, os orçamentos de marketing vêm encolhendo ano após ano. Dados da Gartner mostram que a fatia da receita destinada ao marketing caiu de 11% em 2020 para cerca de 7,7% atualmente.

Em resposta, algumas empresas decidiram reduzir drasticamente seus times de conteúdo, apostando que alguns prompts bem feitos resolveriam tudo. Outras foram para o extremo oposto e baniram a IA por medo de perda de qualidade ou riscos éticos. Os dois caminhos levam ao mesmo problema.

O risco de decisões guiadas apenas por dados

Existe uma diferença essencial entre ser orientado por dados e ser informado por dados. Quando os números são tratados como verdade absoluta, sem contexto, surgem decisões míopes. É o raciocínio do tipo: IA produz texto mais barato, logo devemos substituir redatores.

A história mostra como isso pode dar errado. Nos anos 1960, a empresa estatal British Rail fechou milhares de quilômetros de linhas consideradas “não lucrativas”. Décadas depois, o país precisou gastar bilhões para reconstruir parte dessa infraestrutura, ao perceber que aquelas rotas tinham valor social e econômico que não cabia em uma planilha.

No marketing de conteúdo, o risco é semelhante. Métricas financeiras de curto prazo não capturam ativos intangíveis como autoridade, confiança, diferenciação e memória de marca.

Conteúdo não é custo. É infraestrutura.

Conteúdo costuma ser tratado como algo simples, quase mecânico. Na prática, ele precisa cumprir múltiplas funções ao mesmo tempo. Informar, educar, atrair, converter, reforçar posicionamento e ainda ser relevante para buscadores e pessoas.

Ferramentas como ChatGPT conseguem redigir textos coerentes e rápidos, mas não têm contexto interno, vivência de mercado nem visão estratégica do negócio. Elas reciclam informações disponíveis online. Se todos usam as mesmas ferramentas, com os mesmos dados, o resultado tende à homogeneização.

Não existe vantagem competitiva em publicar conteúdos parecidos com os de todo mundo.

O papel real da IA nos times de conteúdo

A IA não pensa, não imagina e não cria conhecimento novo. Ela sintetiza. E isso é extremamente útil quando bem aplicado. Times maduros usam IA para tarefas que consomem tempo e energia mental: resumir relatórios, transcrever entrevistas, organizar pautas, revisar estilo e até gerar rascunhos iniciais.

Um exemplo fora do marketing ajuda a ilustrar. Um levantamento do Australian Financial Review mostrou que escritórios de advocacia que adotaram IA não reduziram equipes. Pelo contrário, cerca de 70% aumentaram contratações para revisar e validar os resultados gerados pelas máquinas. A estratégia nunca foi cortar pessoas, mas liberar tempo para o trabalho realmente estratégico.

No conteúdo, o princípio é o mesmo. A IA acelera a execução, mas o valor nasce do olhar humano, da experiência, da apuração e da capacidade de conectar ideias de forma original.

O que se perde quando o humano sai da equação

Quando empresas substituem criadores por IA, não perdem apenas mão de obra. Perdem memória, repertório, identidade e nuance. Reconstruir isso depois é caro, lento e incerto. Assim como nas ferrovias britânicas, o custo real só aparece anos depois.

Além disso, conteúdos genéricos têm menos chances de serem citados, recomendados ou usados como fonte em respostas geradas por IA. Para ser relevante nesse novo ecossistema, o conteúdo precisa oferecer algo que não está facilmente disponível na internet. Experiência própria, dados exclusivos, visão crítica e histórias reais.

No fim das contas, a discussão não é humano contra máquina. É estratégia contra atalho. A IA é uma ferramenta poderosa, mas tratá-la como substituta do pensamento humano é confundir eficiência operacional com visão de longo prazo.

Antes de cortar equipes em nome da automação, vale a pergunta essencial: estamos eliminando desperdício ou desmontando a infraestrutura que sustenta a visibilidade e a credibilidade da marca?

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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