Google e OpenAI evitam divulgar consumo de água de data centers

Renê Fraga
9 min de leitura

Principais destaques

  • Um novo data center do Google poderá consumir entre 7,5 e 30 milhões de litros de água por dia, segundo documentos divulgados após uma batalha judicial.
  • O caso reacendeu as discussões sobre a falta de transparência das empresas de inteligência artificial em relação ao impacto ambiental de suas operações.
  • Especialistas também questionam os números divulgados pela OpenAI sobre o consumo de água do ChatGPT e pedem informações técnicas mais detalhadas.

A corrida pela inteligência artificial está transformando o mundo em ritmo acelerado. Novos modelos são lançados constantemente, empresas anunciam investimentos bilionários e a construção de data centers cresce em diversos países para atender à demanda cada vez maior por processamento.

No entanto, junto com essa expansão, cresce também uma preocupação que vai além da tecnologia: o impacto ambiental dessas gigantescas estruturas.

Embora energia elétrica seja frequentemente apontada como o principal desafio para manter a infraestrutura da IA funcionando, outro recurso essencial vem ganhando destaque nos debates: a água. Ela é utilizada principalmente para resfriar equipamentos que operam ininterruptamente e geram grandes quantidades de calor.

O problema é que poucas empresas divulgam dados completos sobre esse consumo, o que dificulta avaliar o verdadeiro impacto da inteligência artificial sobre os recursos naturais.

Uma disputa judicial envolvendo o Google nos Estados Unidos colocou esse assunto novamente em evidência e revelou como informações consideradas de interesse público podem permanecer sob sigilo por longos períodos.

Disputa judicial obrigou divulgação de informações

O episódio ocorreu na região de Roanoke, no estado da Virgínia, onde o Google pretende construir um novo complexo de data centers para ampliar sua infraestrutura de computação.

Os moradores da região passaram a questionar quanto da água do reservatório Carvins Cove seria destinada ao novo empreendimento. O reservatório é responsável pelo abastecimento de boa parte da população local, o que naturalmente despertou preocupações sobre a disponibilidade futura do recurso.

Segundo reportagens publicadas pela imprensa americana, representantes do projeto convenceram tanto a companhia elétrica quanto a autoridade regional responsável pelo abastecimento de água a assinarem acordos de confidencialidade. Com isso, informações sobre o consumo previsto de água e energia permaneceram fora do alcance do público.

A falta de transparência levou o jornalista Henri Gendreau, do portal Roanoke Rambler, a entrar na Justiça para exigir a divulgação dos documentos.

Na decisão, o tribunal concluiu que as estimativas de consumo de água não poderiam ser classificadas como informação proprietária do Google. O juiz afirmou que esses dados não representam propriedade intelectual nem constituem um segredo comercial protegido da forma como a empresa alegava.

Mesmo assim, a autoridade responsável pelo abastecimento informou que recorreria da decisão porque o Google continuava defendendo que essas informações deveriam permanecer confidenciais.

O caso passou a ser visto como um exemplo da dificuldade enfrentada por jornalistas e comunidades locais para obter informações sobre grandes projetos de infraestrutura ligados à inteligência artificial.

Estimativas mostram consumo que impressiona

Após meses de disputa, os números finalmente vieram a público.

As estimativas indicam que o novo data center poderá utilizar entre 2 e 8 milhões de galões de água por dia, o equivalente a aproximadamente 7,5 milhões a 30 milhões de litros diários.

Autoridades responsáveis pelo sistema de abastecimento afirmaram que, neste momento, a infraestrutura da região conseguiria atender à demanda prevista.

Porém, também reconheceram que, caso o consumo ultrapasse esses limites ou novos empreendimentos semelhantes sejam instalados futuramente, poderá ser necessário buscar novas fontes de abastecimento para garantir o fornecimento à população.

O dado chamou atenção porque demonstra a enorme escala operacional dos modernos data centers utilizados para inteligência artificial e serviços em nuvem.

Essas instalações funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana, reunindo milhares de servidores que precisam permanecer dentro de uma faixa segura de temperatura para evitar falhas e reduzir o desgaste dos equipamentos.

Embora nem todos os data centers utilizem exatamente os mesmos sistemas de resfriamento, especialistas lembram que muitos deles ainda dependem, em diferentes níveis, do uso de água para dissipar o calor gerado pelo funcionamento constante dos servidores.

Essa realidade faz com que o planejamento da disponibilidade hídrica se torne um fator importante na escolha dos locais onde esses centros de processamento são construídos.

OpenAI também é alvo de questionamentos

O debate sobre consumo de água não se restringe ao Google.

Durante entrevistas recentes, Sam Altman, CEO da OpenAI, afirmou que muitas das informações compartilhadas nas redes sociais sobre o consumo hídrico da inteligência artificial são exageradas ou simplesmente incorretas. Segundo ele, tecnologias modernas de resfriamento reduziram significativamente a necessidade de água em comparação com sistemas utilizados no passado.

Altman também contestou publicamente publicações que afirmavam que cada consulta ao ChatGPT consumiria grandes volumes de água. Em sua avaliação, essas estimativas não refletem a realidade da infraestrutura atual.

Em outra oportunidade, o executivo declarou que uma consulta média ao ChatGPT utilizaria aproximadamente 0,000085 galão de água, o equivalente a cerca de 0,32 mililitro, uma quantidade inferior a uma gota de água em muitos contextos.

A declaração rapidamente chamou atenção porque representava um número muito inferior às estimativas divulgadas anteriormente em diversos estudos e reportagens.

No entanto, pesquisadores e analistas apontaram um problema importante: a OpenAI não apresentou detalhes sobre a metodologia utilizada para chegar a essa estimativa.

Até o momento, a empresa não explicou publicamente quais etapas foram incluídas no cálculo, nem informou se o número considera apenas a operação dos servidores durante as respostas aos usuários ou se também incorpora atividades como treinamento dos modelos, manutenção da infraestrutura, sistemas auxiliares e demais processos envolvidos na operação da plataforma.

Sem essas informações, torna-se difícil validar a estimativa ou compará-la com estudos independentes realizados por universidades e centros de pesquisa.

Transparência deve ganhar importância nos próximos anos

O episódio envolvendo o Google evidencia um debate que tende a se intensificar conforme a inteligência artificial se torna parte da infraestrutura digital mundial.

Empresas do setor investem centenas de bilhões de dólares na construção de novos data centers para atender à crescente demanda por modelos cada vez mais sofisticados. Ao mesmo tempo, governos, pesquisadores e organizações ambientais passam a cobrar informações mais detalhadas sobre o consumo de água, energia elétrica e as emissões associadas a essas operações.

Especialistas destacam que o desafio não está apenas em medir o impacto ambiental da inteligência artificial, mas também em disponibilizar dados confiáveis que permitam análises independentes e comparações entre diferentes empresas.

Sem transparência, torna-se difícil avaliar quais tecnologias são realmente mais eficientes e quais práticas contribuem para reduzir o consumo de recursos naturais.

À medida que a IA continua expandindo sua presença em praticamente todos os setores da economia, cresce também a expectativa de que as grandes empresas do segmento adotem políticas mais abertas sobre seus indicadores ambientais.

Para muitos pesquisadores, essa transparência será fundamental para equilibrar inovação tecnológica, confiança pública e sustentabilidade nas próximas décadas.

Apoie o Eurisko
Este conteúdo é independente, sem anúncios e feito por pessoas.
A inteligência artificial e as mudanças recentes do Google reduziram significativamente o alcance dos sites independentes. Se este conteúdo foi útil para você, considere apoiar o Eurisko e todo o ecossistema de projetos com qualquer valor.
Quero apoiar
Seguir:
Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
Nenhum comentário