GNOME ganha “Liquid Glass” de verdade, mas o efeito cobra caro

Renê Fraga
10 min de leitura

Principais destaques

  • Vidro com refração real: uma nova extensão para GNOME usa shaders baseados na Lei de Snell para simular como a luz atravessa e se desvia no vidro.
  • Visual altamente configurável: Quick Settings, notificações, dock e outros elementos podem receber diferentes níveis de transparência, cor, desfoque e iluminação.
  • A beleza pesa no hardware: os cálculos por pixel aumentam bastante o uso de CPU e GPU, além de consumir bateria rapidamente em notebooks mais modestos.

A aparência de “vidro líquido” virou uma das marcas visuais mais comentadas do design recente. Agora, usuários do Linux podem experimentar algo parecido no GNOME, mas com uma diferença importante: não estamos falando apenas de colocar blur e reduzir a opacidade.

Uma nova extensão desenvolvida por Ryosuke Watanabe tenta reproduzir também a física visual por trás do efeito.

E é aí que a história fica interessante. 🔎

Não é só um desfoque bonito

A referência é o Liquid Glass da Apple, apresentado como um material translúcido capaz de reagir ao conteúdo, à luz e ao movimento ao redor.

Watanabe gostou da estética, mas não tinha um dispositivo da Apple para experimentá-la no dia a dia. A solução foi bastante direta: criar uma versão para o desktop Linux.

O resultado é uma extensão para GNOME Shell que leva a ideia de “vidro” além do efeito fosco tradicional.

🧪 A matemática entra em cena: o shader usa a Lei de Snell para calcular a refração da luz e deslocar visualmente o conteúdo que está atrás da superfície.

Em termos práticos, isso significa que o papel de parede ou uma janela por trás do elemento de interface não fica simplesmente borrado. A imagem é deslocada para simular o comportamento de uma superfície refrativa.

O vidro fica mais grosso no meio 🪟

Para produzir esse efeito, a extensão calcula uma espécie de espessura do vidro para cada pixel.

A lógica é relativamente intuitiva: a superfície é considerada mais espessa no centro e vai afinando em direção às bordas. Esses valores determinam quanto a imagem de fundo deve ser deslocada.

Depois entram outros elementos para reforçar a sensação tridimensional:

• iluminação nas bordas;

• reflexos especulares;

• transparência;

• desfoque;

• tonalidade de cor;

• raio dos cantos.

O resultado tenta convencer o olho de que existe realmente uma camada de material entre o usuário e o conteúdo.

💡 O detalhe que muda tudo: o efeito não tenta apenas parecer vidro. Ele usa cálculos de refração para simular o comportamento do vidro.

É uma diferença pequena no código e enorme na proposta visual.

Você escolhe onde colocar o “vidro” ⚙️

A extensão permite selecionar quais partes do GNOME Shell receberão o tratamento.

Entre as opções estão elementos como Quick Settings, calendário e mensagens, notificações e OSD. Também é possível aplicar o efeito ao Dash to Dock ou ao Ubuntu Dock.

O usuário ainda pode configurar cada área separadamente.

Isso permite, por exemplo, ter uma configuração de vidro mais discreta em um componente e outra mais intensa em outro, ajustando cor, força do efeito, blur e outros parâmetros.

Falta, porém, uma peça importante: não existe ainda uma configuração global de estilo.

Ou seja, quem quiser uma identidade visual totalmente uniforme terá de configurar os elementos individualmente.

E as aplicações? Aí complica um pouco 👀

A extensão também consegue aplicar o tratamento às aplicações, embora o resultado não seja considerado particularmente elegante.

Isso reforça uma característica importante do projeto: ele parece estar mais interessante como demonstração das possibilidades do GNOME Shell do que como uma solução polida para transformar absolutamente toda a interface.

Ainda assim, a possibilidade de aplicar shaders desse tipo diretamente à interface mostra o quanto o ambiente permite brincar com composição e renderização.

O problema não é estético. É energia 🔋

Toda essa matemática precisa ser calculada em algum lugar.

O shader realiza cálculos por pixel em cada quadro para produzir a refração. Quando há movimento atrás de uma área com vidro, o trabalho continua sendo atualizado.

Em um desktop potente, isso pode ser apenas mais uma tarefa para a GPU.

Em um notebook mais modesto, a história muda.

O teste mostrado pelo autor da reportagem foi feito em um Chuwi AeroBook Pro. Com a extensão ativada, houve um aumento considerável no uso de CPU e GPU.

E a bateria também sentiu.

🔋 O número mais revelador: a carga caiu de 59% para 38% enquanto o efeito estava funcionando.

Não é exatamente o tipo de “efeito visual gratuito” que se espera de uma interface moderna.

O próprio desenvolvedor sabe que não foi simples

Watanabe afirma que cuidou do design, da matemática dos shaders, das decisões de arquitetura e dos testes em hardware real.

Ao mesmo tempo, reconhece que uma parte significativa do código foi produzida com ajuda de assistentes de programação baseados em IA.

O processo aparentemente também foi bastante turbulento.

O desenvolvedor relata que perdeu a conta de quantas vezes derrubou o GNOME Shell durante o desenvolvimento.

Isso ajuda a explicar por que o projeto ainda tem cara de experimento avançado, e não de acabamento definitivo.

A IA também virou parte da história 🤖

Existe outro detalhe curioso: a extensão ainda não está disponível diretamente no site oficial de extensões do GNOME.

Ela está aguardando revisão, e as diretrizes do projeto estabelecem restrições para extensões geradas por IA.

A questão não é simplesmente “IA é proibida”. A preocupação, segundo o material citado, é evitar que revisores voluntários recebam código gerado por ferramentas de IA sem que o autor tenha feito uma verificação técnica adequada.

Em outras palavras: se a IA escreveu boa parte do código, alguém ainda precisa entender o que ela escreveu.

E, nesse caso, há um motivo especialmente forte para isso. Estamos falando de um componente que mexe diretamente com o shell do desktop e pode derrubá-lo.

Mas o Liquid Glass não para aqui 🚀

A extensão de Watanabe não é o único caminho para levar refração ao GNOME.

O projeto Blur My Shell também possui uma proposta de pipeline de vidro refrativo em desenvolvimento, disponível para quem quiser acompanhar e experimentar o trabalho no GitHub.

Isso pode acabar sendo mais importante do que esta primeira extensão específica.

Porque, se diferentes projetos começarem a explorar shaders de refração, iluminação e materiais translúcidos, o GNOME pode ganhar uma nova geração de efeitos visuais muito mais sofisticados do que o tradicional “blur + transparência”.

A questão será descobrir onde fica a linha entre uma interface que parece um pedaço de vidro e uma interface que faz o notebook trabalhar como se estivesse renderizando um filme da Pixar.

Por enquanto, o Liquid Glass para GNOME está mais perto da segunda opção. E talvez seja justamente esse exagero que torne o projeto tão interessante: ele mostra o que é possível fazer, mesmo que ainda não seja a melhor ideia deixar o efeito ligado o dia inteiro.

Afinal, uma interface pode parecer líquida. A bateria, infelizmente, continua evaporando.

Quer experimentar? A instalação é manual 🛠️

A extensão ainda não está disponível no site do GNOME Extensions, mas usuários do GNOME 50 podem instalá-la diretamente pelo GitHub. Com o git instalado, basta abrir o terminal e executar:

git clone https://github.com/ryohsuke1231/liquid-glass.git &&
mkdir -p ~/.local/share/gnome-shell/extensions/ &&
cp -r liquid-glass/liquid-glass@thinkingcoding1231.gmail.com ~/.local/share/gnome-shell/extensions/

Depois, saia da sessão e entre novamente. Em seguida, abra o aplicativo Extensions Manager, disponível nos repositórios do Ubuntu, e ative a extensão.

⚠️ Vale o aviso: como o efeito realiza cálculos de refração a cada quadro, ele pode aumentar bastante o uso de CPU e GPU. Em notebooks, especialmente, o visual pode sair caro em desempenho e bateria.

Para quem aceita esse preço, porém, é uma maneira curiosa de transformar o GNOME em uma espécie de laboratório de vidro líquido.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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