GNOME 51 chega com passkeys, menos animações e um desktop mais suave

Renê Fraga
15 min de leitura

Principais destaques

  • Login com passkeys: GNOME 51 amplia o suporte do GDM a FIDO2, passkeys, QR codes e autenticação baseada na web.
  • Interface mais fluida: mudanças no Mutter, gravação de tela e rolagem buscam reduzir travamentos e melhorar a sensação de resposta do desktop.
  • Apps ganharam recursos úteis: Maps passa a funcionar offline, Papers recebe assinaturas visuais e Nautilus melhora desempenho e gerenciamento de arquivos.

O GNOME 51 chegou nesta quarta-feira, 16 de setembro, sem fazer tanto barulho quanto algumas versões anteriores, mas com uma coleção de mudanças que atacam justamente aquelas pequenas irritações do uso diário.

Tem autenticação moderna, controles de acessibilidade, ajustes de desempenho e várias melhorias nos aplicativos que acompanham o ambiente.

E há uma mudança particularmente interessante: o desktop está tentando ficar mais suave não apenas no visual, mas na forma como calcula e entrega cada quadro da interface.

O Mutter mexeu justamente onde os olhos percebem 👀

O Mutter, compositor responsável pelo GNOME Shell, recebeu novas alterações internas para melhorar o gerenciamento dos frames.

Uma delas muda a maneira como o relógio de frames estima o tempo necessário para renderização. A ideia é evitar que estimativas fixas sejam rigorosas ou permissivas demais dependendo do hardware.

Na prática, isso pode significar menos frames perdidos e animações mais consistentes.

🎥 Outro ganho aparece na gravação de tela e no acesso remoto:

O Mutter passou a reduzir trabalho desnecessário durante a captura, diminuindo o uso de recursos tanto em renderização por hardware quanto por software.

É o tipo de alteração que dificilmente vira uma captura de tela chamativa. Mas pode ser justamente o tipo de coisa que deixa o desktop menos “aos trancos”.

💡 A mudança mais importante pode ser justamente aquela que você não percebe: animações e rolagens que simplesmente parecem mais naturais.

E aquele blur no fundo? Calma lá 🧊

GNOME 51 também adiciona suporte ao protocolo Wayland para efeitos de desfoque de fundo.

Isso gerou manchetes sobre um suposto novo visual “frosted glass” chegando ao GNOME. Só que existe uma diferença importante.

O suporte ao protocolo está presente, mas nenhuma superfície do GNOME Shell solicita esse efeito por padrão.

Portanto, não há um botão escondido nas configurações para ativar o blur geral do desktop.

Agora dá para redimensionar screenshots com o teclado ⌨️

A ferramenta interativa de captura de tela ganhou controles pelo teclado.

Ao selecionar uma área, as setas podem expandir, reduzir ou movimentar a seleção. Shift e Ctrl permitem ajustes em incrementos maiores ou menores, enquanto Alt move toda a área selecionada.

E há ainda uma tecla para zerar a seleção.

R restaura a área, enquanto Enter continua capturando a imagem.

Outro detalhe discreto: o efeito sonoro de obturador de câmera deixou de ser usado ao tirar a captura.

Papers finalmente deixa assinar PDFs ✍️

O visualizador de documentos Papers ganhou uma função bastante prática para quem lida com PDFs.

Agora é possível criar uma assinatura visual desenhando com mouse, tela sensível ao toque ou caneta.

Também dá para importar uma fotografia da assinatura. O aplicativo remove o fundo da imagem para transformá-la em uma assinatura utilizável no documento.

E não é necessário redesenhar tudo a cada vez: as assinaturas ficam salvas para reutilização.

Outras mudanças incluem informações mais descritivas sobre tamanhos de papel e impressão de anotações de texto livre por padrão.

Passkeys chegam ao login do GNOME 🔐

Aqui está uma das mudanças tecnicamente mais relevantes.

O GNOME Display Manager, conhecido como GDM, recebeu uma estrutura de autenticação mais abrangente, com suporte a diferentes mecanismos no login e na tela de bloqueio.

Entre eles estão:

• autenticação por smart card
• login baseado na web
• QR codes e URLs
• FIDO2 e passkeys

A novidade é particularmente interessante para ambientes corporativos e configurações remotas.

A arquitetura também foi pensada para permitir que novos métodos de autenticação sejam incorporados posteriormente.

Settings ficou cheio de pequenos ajustes ⚙️

Não existe uma grande reformulação do aplicativo Settings. Em vez disso, GNOME 51 espalha várias melhorias pelas configurações.

No painel de Mouse & Touchpad, notebooks podem desativar automaticamente o touchpad quando um mouse estiver conectado.

Já em Displays, aparelhos com acelerômetro ganham a opção Auto Rotate, permitindo alterar a orientação da tela de acordo com a posição do dispositivo.

A organização de monitores externos também recebeu snapping centralizado.

🌐 No painel de rede, chegaram configurações para pesquisa de domínios DNS.

Ao mesmo tempo, o suporte a redes Wi-Fi protegidas por WEP foi removido da configuração. O padrão já é considerado ultrapassado.

Menos movimento também virou uma opção oficial ♿

Uma das mudanças mais interessantes para acessibilidade está em Accessibility > Seeing > Reduced Motion.

A opção reduz animações em partes da experiência do GNOME, incluindo ações como minimizar e maximizar aplicativos e a aparição de menus e applets.

Ela não elimina absolutamente todas as animações. A abertura da grade de aplicativos, por exemplo, continua animada.

Ainda assim, é uma forma mais direta de controlar a quantidade de movimento da interface.

Nautilus ficou mais esperto com arquivos 📁

O Nautilus, também conhecido como Files, ganhou algumas melhorias que parecem pequenas até você lidar com centenas de arquivos.

Ao arrastar vários itens, uma pequena contagem passa a aparecer sobre a pilha de ícones. Assim, fica claro quantos arquivos estão sendo movimentados.

Outro problema também foi corrigido: arquivos copiados depois de transferências demoradas voltam a ser selecionados automaticamente.

Isso facilita ações imediatamente posteriores, como renomear os arquivos.

E as pastas enormes?

Aqui está outra mudança importante.

O GNOME afirma que várias operações lentas agora deixam de bloquear o aplicativo. A diferença deve ser mais perceptível ao navegar por pastas grandes e cheias de arquivos, que também passam a carregar mais rapidamente durante atualizações.

Em outras palavras, não é só uma questão de “abrir mais rápido”. A interface também tenta continuar respondendo enquanto o trabalho acontece.

Maps aprendeu a funcionar sem internet 🗺️

O Maps ganhou uma função que muita gente provavelmente gostaria de ter encontrado antes: download de áreas para uso offline.

É possível salvar regiões grandes ou pequenas e removê-las posteriormente por meio de uma interface de gerenciamento.

Isso é especialmente útil em viagens.

📍 O motivo é simples:

Roaming internacional pode ser caro, enquanto a cobertura de rede pode desaparecer justamente quando você mais precisa saber onde está.

O Maps 51 também passa a mostrar horários de partida em tempo real para ônibus, trens e outros serviços quando os dados estão disponíveis.

A aplicação ainda exibe informações sobre atrasos e acrescenta aos itinerários o tempo necessário para caminhar até e a partir das paradas.

RecursoGNOME 50GNOME 51
Mapas offlineNãoSim
Horários de transporte em tempo realLimitadoSim, onde houver dados
Assinaturas visuais em PDFsNãoSim
Passkeys/FIDO2 no GDMNãoSim
Reduced MotionNãoSim

O “Quick Look” do GNOME foi modernizado 👀

O Sushi, ferramenta complementar do Nautilus para visualizar arquivos sem abri-los completamente, foi portado para GTK4.

O resultado é uma experiência mais alinhada ao restante do desktop.

A pré-visualização agora respeita o modo escuro do sistema, pode ocupar a tela inteira com um duplo clique e utiliza as mesmas bibliotecas de renderização de imagens adotadas em outras partes do GNOME.

A janela também muda de tamanho conforme o conteúdo visualizado.

Para vídeos, áudio e PDFs, os controles aparecem sobre o conteúdo, enquanto os botões da interface foram simplificados.

⚠️ Há uma pegadinha para usuários do Ubuntu:

O Sushi não vem pré-instalado no Ubuntu. É necessário instalar o pacote gnome-sushi antes de esperar que a barra de espaço faça alguma mágica.

Brilho e HDR agora ganham memória 💡

O GNOME Shell passa a guardar o nível de brilho individual de cada monitor e também configurações de modo de cor, como HDR.

Essas configurações são restauradas depois de uma reinicialização.

O problema anterior era que o sistema confiava no mecanismo de backlight do kernel para preservar o brilho. Isso pode gerar resultados inesperados porque modos de economia de energia conseguem alterar o nível armazenado.

Em configurações HDR mais recentes, a situação fica ainda mais complicada porque parte do controle de brilho pode acontecer por software.

GNOME 51 muda a abordagem: o Shell passa a armazenar e restaurar essas informações diretamente.

Para identificar os monitores, são usados dados EDID de fabricante, produto e número de série. Quando esses dados são inválidos, existe um fallback baseado no conector físico.

E ainda tem mais coisa escondida no pacote 📦

Os aplicativos principais receberam várias outras alterações menores.

Image Viewer passa a mostrar informações de câmera e cor nas propriedades das imagens.

Calendar ganhou ajustes no diálogo de eventos e uma rolagem mais suave na visualização mensal.

Remote Desktop adicionou compartilhamento de smart cards e autenticação Kerberos.

Web pode gerar senhas seguras e teve a barra de endereços simplificada.

Software agora alerta sobre o fim de vida de versões Flatpak e apresenta permissões de maneira mais clara.

Já o aplicativo Extensions foi desacoplado do GNOME Shell e passou a funcionar como uma ferramenta independente.

Algumas mudanças são ainda mais técnicas 🛠️

Entre os demais avanços estão:

• suporte a um ícone Adwaita para a pasta XDG Projects
• suporte ao oo7, ferramenta em Rust para armazenar e recuperar senhas
• suporte a cursores baseados em SVG
• arquivos menores em gravações de tela graças aos controles de taxa VA-API H.264
• remoção do leitor de impressão digital da tela de login

O carregamento de wallpapers também mudou de lugar: agora o GNOME Shell utiliza o glycin, biblioteca de decodificação de imagens escrita em Rust, em vez de deixar essa tarefa a cargo do Mutter.

A consequência é uma base mais enxuta para o libmutter, já que APIs e dependências relacionadas ao carregamento de imagens podem ser retiradas dali.

O que ficou de fora? 🤔

GNOME 51 não entregou tudo o que estava planejado.

Entre os recursos que não chegaram nesta versão estão a migração do aplicativo Disks para GTK4 e um controle deslizante específico para alterar a velocidade de rolagem do touchpad.

Por isso, a versão pode parecer menos ambiciosa do que alguns lançamentos recentes.

Mas a estratégia é diferente: em vez de concentrar tudo em uma grande mudança visual, o GNOME 51 espalha melhorias por autenticação, desempenho, acessibilidade, gerenciamento de arquivos, mapas e aplicativos.

E quando o Ubuntu vai receber tudo isso? 🐧

A resposta depende da versão.

O Ubuntu 26.10 será lançado em 15 de outubro e virá com GNOME 51, acompanhado pelas personalizações próprias do Ubuntu.

Já o Ubuntu 26.04 LTS permanecerá no GNOME 50 durante seu período de suporte. Novas versões do GNOME não são normalmente retroportadas para essa versão LTS.

Isso significa que, para quem estiver usando o Ubuntu 26.04 LTS, GNOME 51 não aparecerá simplesmente como uma atualização comum do ambiente.

Para experimentar a nova versão dentro do ciclo normal do Ubuntu, será preciso olhar para a próxima versão, 26.10.

Um GNOME menos chamativo, talvez mais interessante

O GNOME 51 chega sem um único recurso que redefina completamente o desktop.

Em vez disso, ele mexe em coisas que normalmente só percebemos quando dão errado: frames perdidos, pastas que travam a interface, brilho que não volta como deveria, autenticação limitada, mapas sem conexão e animações excessivas.

É quase como trocar o motor enquanto o carro continua com a mesma carroceria.

E, quando o resultado aparece na forma de uma interface que simplesmente responde melhor, talvez esse seja exatamente o tipo de atualização que não precisa parecer revolucionária para fazer diferença no próximo uso.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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