Empresas dos Estados Unidos ampliam uso de IA chinesa para cortar custos e desafiam domínio de OpenAI e Anthropic

Renê Fraga
10 min de leitura

Principais destaques

  • Modelos chineses de inteligência artificial estão conquistando espaço entre empresas americanas graças ao custo muito mais baixo.
  • A diferença de desempenho entre as principais IAs da China e dos Estados Unidos está diminuindo rapidamente, tornando a concorrência mais equilibrada.
  • Segurança, privacidade de dados e decisões políticas dos dois países devem definir os próximos passos dessa disputa tecnológica.

A corrida global pela inteligência artificial está entrando em uma nova fase. Depois de anos em que empresas dos Estados Unidos dominaram praticamente sozinhas o mercado de modelos avançados de IA, desenvolvedores chineses começaram a conquistar um espaço cada vez maior.

O motivo vai além da evolução tecnológica: o custo de utilização dessas plataformas tornou-se um fator decisivo para empresas que precisam processar milhões ou até bilhões de tokens todos os meses.

Enquanto gigantes como OpenAI e Anthropic continuam liderando em desempenho e popularidade, soluções desenvolvidas por empresas chinesas, como DeepSeek e Z.ai, passaram a oferecer uma combinação bastante atraente entre qualidade e economia. Para muitas organizações, a diferença de desempenho já não é suficiente para justificar uma conta significativamente mais alta.

Esse movimento vem sendo observado principalmente entre startups e empresas de tecnologia, mas começa a chamar a atenção também de companhias maiores, que buscam reduzir despesas operacionais sem abrir mão da produtividade proporcionada pela inteligência artificial.

O avanço dos modelos chineses ganhou velocidade em 2025

Dados divulgados pela plataforma OpenRouter mostram que a presença dos modelos chineses cresceu de forma impressionante ao longo dos últimos meses. A plataforma reúne dezenas de modelos de IA em um único ambiente, permitindo que empresas escolham a alternativa mais adequada para cada tarefa.

Desde o dia 8 de fevereiro, mais de 30% dos tokens utilizados semanalmente por empresas americanas na OpenRouter passaram a ser processados por modelos desenvolvidos na China. Em algumas semanas, essa participação chegou a impressionantes 46%, mostrando uma mudança significativa no comportamento do mercado.

Os números ficam ainda mais expressivos quando comparados aos períodos anteriores. Há cerca de um ano, a participação média dos modelos chineses era de aproximadamente 11%. Já durante o primeiro semestre de 2025, esse percentual era de apenas 4,5%. Em poucos meses, portanto, a adoção praticamente explodiu.

Especialistas apontam que essa aceleração representa uma mudança estrutural no setor. Até pouco tempo, empresas ocidentais escolhiam modelos americanos quase automaticamente. Hoje, muitas delas analisam desempenho, preço, velocidade de resposta e disponibilidade antes de tomar uma decisão.

O preço virou um dos fatores mais importantes

A principal vantagem dos modelos chineses está no custo. Segundo estimativas do mercado, modelos de código aberto desenvolvidos por empresas da China podem custar entre 60% e 90% menos do que alternativas equivalentes oferecidas por laboratórios americanos.

Essa diferença pode parecer pequena para usuários individuais, mas ganha uma dimensão completamente diferente quando aplicada a empresas que processam enormes volumes de dados diariamente. Em operações desse porte, economizar alguns centavos por milhão de tokens pode representar milhões de dólares ao longo de um ano.

Um exemplo citado por analistas é o da startup Lindy. Em junho, a empresa decidiu migrar toda a sua infraestrutura baseada no Claude para a plataforma DeepSeek. A expectativa é economizar milhões de dólares apenas com essa mudança, sem comprometer significativamente a qualidade das respostas entregues aos clientes.

Para startups em crescimento, essa economia pode representar mais investimentos em desenvolvimento de produtos, contratação de funcionários ou expansão internacional. Já para grandes empresas, a redução de custos ajuda a aumentar a margem operacional em projetos baseados em IA.

A diferença de desempenho está diminuindo rapidamente

Além do preço competitivo, os modelos chineses também evoluíram de forma acelerada nos últimos meses.

Um dos casos que mais chamou atenção foi o GLM 5.2, desenvolvido pela Z.ai. Em um importante benchmark voltado para agentes de inteligência artificial, o modelo ficou apenas um ponto percentual atrás do Claude Opus 4.8, um dos sistemas mais avançados da Anthropic.

A diferença, porém, aparece no custo operacional. Enquanto o desempenho ficou praticamente empatado, o modelo chinês apresentou um custo cerca de cinco vezes menor para executar tarefas semelhantes.

Segundo pesquisadores da Brookings Institution, os modelos chineses mais avançados estão atualmente entre seis e nove meses atrás das melhores soluções americanas. Em um setor que evolui praticamente todas as semanas, essa distância é considerada relativamente pequena.

Na prática, isso significa que empresas podem optar por um modelo ligeiramente menos avançado em troca de uma economia significativa, principalmente quando a aplicação não exige o máximo desempenho disponível.

Nem todas as tarefas exigem a IA mais poderosa

Apesar do crescimento dos modelos chineses, a maioria das empresas não pretende abandonar completamente plataformas como ChatGPT ou Claude.

A estratégia mais comum atualmente é utilizar diferentes modelos para diferentes tipos de trabalho.

Atividades mais simples, como tradução de textos, resumo de documentos, classificação de informações, geração de código e atendimento automatizado, podem ser realizadas por modelos mais baratos sem perda significativa de qualidade.

Já tarefas envolvendo decisões críticas, análise de dados sensíveis, aplicações médicas, financeiras ou jurídicas continuam concentradas nas soluções consideradas mais confiáveis e robustas, principalmente por questões relacionadas à segurança e conformidade regulatória.

Esse modelo híbrido permite reduzir custos sem abrir mão da qualidade quando ela realmente faz diferença.

Segurança e proteção de dados continuam sendo um desafio

Mesmo com preços mais baixos e desempenho crescente, a adoção de modelos chineses ainda enfrenta resistência em diversos setores.

Empresas que trabalham com informações confidenciais precisam seguir regras rígidas de proteção de dados e conformidade. Por isso, muitos executivos demonstram cautela antes de transferir processos críticos para fornecedores estrangeiros.

Outro ponto importante envolve transparência, auditoria e governança dos modelos de IA. Organizações reguladas costumam exigir documentação detalhada, controles de segurança e garantias sobre o tratamento das informações utilizadas durante as interações.

Por esse motivo, ChatGPT e Claude continuam sendo as opções predominantes em setores como saúde, finanças, seguros e serviços governamentais.

A geopolítica também influencia a disputa pela IA

O avanço dos modelos chineses acontece em um momento de crescente tensão tecnológica entre Estados Unidos e China.

Em junho, a Anthropic suspendeu temporariamente o acesso internacional aos seus modelos mais avançados após uma solicitação do Departamento de Comércio dos Estados Unidos. Embora a restrição tenha sido posteriormente removida, o episódio levantou dúvidas sobre a dependência de empresas americanas em relação a decisões políticas.

Para muitas organizações internacionais, ficou claro que fatores governamentais podem afetar diretamente a disponibilidade de ferramentas essenciais para seus negócios.

Ao mesmo tempo, a China também avalia adotar medidas semelhantes.

Segundo informações divulgadas recentemente, o governo chinês estuda limitar o acesso internacional aos seus modelos de inteligência artificial mais avançados. O Ministério do Comércio do país realizou reuniões com representantes de empresas como Alibaba, ByteDance e Z.ai para discutir mecanismos de proteção de tecnologias consideradas estratégicas para a segurança nacional.

Caso essas restrições sejam implementadas, o mercado global poderá enfrentar uma fragmentação ainda maior, com modelos diferentes disponíveis para regiões específicas do mundo.

O futuro da inteligência artificial será mais competitivo

A ascensão dos modelos chineses demonstra que o mercado de inteligência artificial está longe de ter um vencedor definitivo.

Se há poucos anos OpenAI, Anthropic e Google pareciam praticamente sem concorrentes, hoje empresas chinesas começam a disputar espaço oferecendo uma proposta difícil de ignorar: desempenho competitivo por uma fração do custo.

Essa nova realidade deve aumentar a pressão sobre empresas americanas para reduzirem preços, ampliarem a oferta de modelos abertos e acelerarem ainda mais a inovação.

Ao mesmo tempo, governos dos dois lados passam a enxergar a inteligência artificial como uma tecnologia estratégica, capaz de influenciar economia, segurança nacional e competitividade global.

Nos próximos anos, a disputa entre Estados Unidos e China provavelmente deixará de ser apenas uma corrida por modelos mais inteligentes. Ela deverá envolver infraestrutura, acesso aos mercados, regulamentação, proteção de dados e controle sobre tecnologias consideradas essenciais para o futuro da economia digital.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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