Cookie do ChatGPT pode acompanhar usuários em sites de compras, aponta investigação

Renê Fraga
10 min de leitura

Principais destaques

  • Um identificador persistente: o cookie __obi, atribuído ao domínio da OpenAI, pode permanecer por até um ano e ser enviado em requisições entre sites.
  • Rastreamento em varejistas: o mesmo identificador foi observado em 12 sites comerciais, enquanto a investigação encontrou centenas de pixels de anunciantes espalhados por mais de 1.000 hostnames.
  • A associação ainda não foi comprovada: a análise mostra o envio dos dados aos servidores da OpenAI, mas não consegue determinar se eles são efetivamente vinculados às contas dos usuários no back-end.

Um cookie instalado pela OpenAI há cerca de um ano está levantando dúvidas sobre como o ChatGPT acompanha usuários fora de seus próprios serviços.

A investigação foi publicada em 20 de setembro pelo pesquisador que usa o pseudônimo Buchodi e rapidamente chegou ao topo do Hacker News, onde provocou centenas de comentários.

A questão central é relativamente simples: um identificador criado quando alguém usa o ChatGPT pode reaparecer quando essa mesma pessoa visita determinados sites de compras?

Segundo a análise, a resposta técnica é sim.

O que ainda não está demonstrado é o passo seguinte: se a OpenAI efetivamente usa esse identificador para conectar toda essa atividade à conta individual do usuário.

O protagonista tem seis caracteres 🔎

O mecanismo gira em torno do cookie __obi.

Ele é definido no domínio .openai.com, tem validade de um ano e utiliza SameSite=None. Na prática, essa configuração permite que o cookie acompanhe determinadas requisições feitas em contextos de terceiros.

O processo começa no ChatGPT. O navegador gera um valor aleatório, que é enviado aos servidores da OpenAI. A empresa então retorna um token assinado que associa aquele valor à conta do usuário.

Esse token é posteriormente utilizado para estabelecer o __obi em bzr.openai.com.

Até aqui, parece uma engrenagem típica de identificação.

O problema aparece quando o usuário sai do ChatGPT.

E quando o usuário vai às compras? 🛒

Sites que utilizam o pixel de publicidade da OpenAI carregam um script hospedado em bzrcdn.openai.com.

Esse pixel tem uma função semelhante à de ferramentas conhecidas do mercado publicitário, como Meta Pixel e Google Tag.

⚙️ O detalhe técnico: antes mesmo de o código da página ser executado, o navegador pode anexar o __obi à requisição feita ao domínio da OpenAI. Assim, a empresa recebe o identificador junto com informações relacionadas à página visitada.

Buchodi afirma ter encontrado o mesmo valor de __obi em 12 sites comerciais.

Entre eles estão Chewy, Wayfair, HelloFresh, Coursera e SeatGeek.

A investigação também registrou 936 pixels de anunciantes em mais de 1.000 hostnames durante meses de monitoramento.

ElementoO que a investigação encontrou
Cookie__obi
ValidadeAté 1 ano
Sites comerciais com o mesmo identificador12
Pixels de anunciantes observados936
Hostnames monitoradosMais de 1.000

Não é só sobre um identificador 🔐

O SDK associado ao pixel pode coletar automaticamente determinados dados fornecidos pelos sites.

Entre eles estão endereços de e-mail, números de telefone e nomes. Segundo a análise, essas informações passam por hash SHA-256 antes da transmissão.

Cidade e CEP, porém, são enviados em texto simples.

Isso não significa, por si só, que a OpenAI esteja montando um histórico individual de compras para cada usuário. A própria investigação faz uma ressalva importante sobre esse ponto.

💡 A parte comprovada é o caminho dos dados. A associação com a conta no servidor ainda não foi demonstrada.

Essa distinção é importante porque transforma uma acusação ampla de rastreamento em uma questão técnica mais específica: o que a OpenAI consegue receber, identificar e posteriormente relacionar em seus sistemas?

O rótulo “analytics” virou outro problema ⚠️

Há uma segunda camada na investigação.

A OpenAI classifica o __obi como cookie de analytics em sua política de cookies, em vez de colocá-lo na categoria de marketing.

Na mesma política, a categoria de marketing inclui rastreadores associados a empresas como LinkedIn, Google, Meta e TikTok.

Buchodi decodificou 932 tokens e afirma que todos continham a flag consent_decision: analytics_allowed.

Segundo a interpretação apresentada na investigação, isso significa que o mecanismo poderia continuar funcionando mesmo quando o usuário recusasse cookies de publicidade.

E existe outro detalhe.

👤 Nem é preciso ter uma conta: 196 dos tokens analisados foram emitidos para usuários anônimos. Em um dispositivo monitorado, o mesmo identificador permaneceu estável por pelo menos 27 dias.

Isso amplia a questão. O mecanismo não estaria limitado ao reconhecimento de usuários já autenticados no ChatGPT.

A OpenAI foi questionada

Buchodi afirma ter procurado a OpenAI em 14 de setembro.

A pergunta enviada à empresa foi direta: por que um cookie utilizado em conjunto com um pixel de publicidade aparece classificado como ferramenta de analytics?

A OpenAI teria confirmado o recebimento da consulta.

Não respondeu, segundo o pesquisador, às perguntas apresentadas.

Até o material fornecido para esta reportagem, também não há manifestação pública da empresa esclarecendo se o identificador é utilizado para relacionar a navegação externa às contas do ChatGPT.

Chrome, Safari e Firefox contam histórias diferentes 🌐

O impacto também depende do navegador.

A investigação foi realizada no Chrome para Android, onde o comportamento observado pôde ocorrer.

No Safari, cookies de terceiros são bloqueados por padrão desde 2020, reduzindo significativamente esse tipo de compartilhamento.

O Firefox também possui mecanismos próprios para limitar o compartilhamento de cookies entre sites.

Há ainda uma barreira adicional para quem utiliza bloqueadores.

A lista EasyPrivacy, habilitada por padrão no uBlock Origin, já bloqueia os domínios bzr.openai.com e bzrcdn.openai.com apontados na investigação.

Ou seja, não existe uma experiência única para todos os usuários. Navegador, configurações e extensões podem mudar completamente o que acontece.

E a Europa entra na equação 🇪🇺

A questão ganha outra dimensão regulatória na Europa.

Desde o fim de agosto, os anúncios do ChatGPT estão ativos em 31 mercados europeus. Nesses mercados, a diretiva ePrivacy estabelece requisitos de consentimento prévio para determinados cookies não essenciais.

É justamente aí que a classificação de __obi como analytics pode se tornar relevante.

Se um identificador classificado como analítico também participa de um mecanismo de publicidade e rastreamento entre sites, a questão passa a ser menos sobre o nome dado ao cookie e mais sobre qual é efetivamente sua finalidade e qual consentimento é exigido para utilizá-lo.

A investigação, porém, não determina que a implementação viole a legislação europeia. Ela aponta que o comportamento observado pode entrar em tensão com essas exigências.

Então, o ChatGPT está rastreando suas compras? 🤔

Essa é a pergunta mais fácil de fazer e a mais difícil de responder com o material disponível.

A investigação apresenta evidências de que:

• o __obi pode persistir por longos períodos;

• o mesmo identificador foi observado em diferentes sites comerciais;

• pixels da OpenAI enviam informações relacionadas às páginas visitadas;

• determinados dados de contato podem ser processados pelo SDK;

• tokens foram emitidos tanto para usuários identificados quanto anônimos.

Mas existe uma fronteira que o pesquisador não conseguiu atravessar.

Ele não conseguiu confirmar o que acontece no back-end da OpenAI depois que os dados chegam aos servidores.

Isso significa que não há, na análise apresentada, uma prova de que a empresa tenha associado uma compra específica em um varejista à conta específica de um usuário do ChatGPT.

A diferença parece pequena. Tecnicamente, não é.

O que está em jogo agora 📌

A investigação coloca três questões diferentes na mesma mesa: identificação, publicidade e consentimento.

O primeiro ponto é o comportamento do cookie. O segundo é a utilização do identificador em ambientes comerciais. O terceiro é a forma como tudo isso é classificado e apresentado ao usuário.

E talvez seja justamente essa terceira questão que determine o próximo capítulo.

Porque um cookie pode parecer apenas uma pequena sequência de caracteres no navegador. Mas, quando ele atravessa a fronteira entre o ChatGPT e uma loja virtual, deixa de ser apenas um detalhe técnico.

A investigação começou com um cookie. Agora, a pergunta é até onde esse cookie consegue viajar e, principalmente, o que a OpenAI faz com as informações quando ele chega ao outro lado.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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