Cientistas contestam a comparação da Anthropic com o CRISPR sobre a descoberta do Claude

Renê Fraga
11 min de leitura

Principais destaques

  • Claude encontrou um sistema desconhecido: cerca de 950 agentes analisaram milhões de sequências genéticas até identificar uma arquitetura biológica associada a transcriptases reversas.
  • A comparação com o CRISPR é controversa: pesquisadores consideram o achado interessante, mas dizem que ainda não há evidências de que o sistema tenha capacidades comparáveis às do CRISPR.
  • A descoberta ainda está no começo: a função do chamado ART permanece desconhecida e a pesquisa não passou por revisão por pares.

A Anthropic apresentou uma descoberta científica feita com a ajuda de seu modelo Claude como um exemplo do potencial da inteligência artificial para acelerar pesquisas em biologia.

O sistema encontrou uma arquitetura genética até então desconhecida em bacteriófagos, vírus que infectam bactérias. A empresa chamou a estrutura de ART, ou transcriptases reversas associadas a arranjos.

O problema começa quando a comparação chega ao CRISPR.

A Anthropic destacou que o novo sistema possui uma organização que lembra os famosos arranjos de DNA associados ao mecanismo que revolucionou a edição genética e cuja descoberta recebeu o Nobel de Química em 2020.

Cientistas, porém, pedem bastante cautela.

O que Claude realmente encontrou? 🔬

A história começa com uma quantidade enorme de dados.

Cerca de 950 agentes Claude trabalharam durante 21 horas, processando aproximadamente 210 milhões de tokens enquanto vasculhavam bancos públicos de sequências genéticas.

O processo começou com mais de 200 mil sequências de transcriptase reversa.

A partir daí, os agentes reduziram o universo para cerca de 3.500 candidatos e produziram relatórios detalhados sobre os 20 casos considerados mais promissores.

É uma demonstração interessante de automação científica.

Mas existe uma diferença importante entre encontrar algo incomum e compreender aquilo que foi encontrado.

🧬 A novidade estava na arquitetura: a transcriptase reversa presente no sistema já era conhecida pela ciência. O que Claude identificou foi a combinação dessa enzima com um gene parceiro de função desconhecida e uma longa sequência de repetições de DNA regularmente espaçadas.

É justamente essa organização que chamou atenção.

As repetições lembram, em determinados aspectos, os arranjos encontrados em sistemas CRISPR.

E aí apareceu a comparação com o CRISPR

O CRISPR se tornou uma das tecnologias mais importantes da biologia moderna porque determinados sistemas conseguem utilizar sequências de RNA para reconhecer alvos específicos e participar de mecanismos de defesa contra material genético invasor.

No caso do ART, porém, ainda não se sabe se existe algo equivalente.

A Anthropic confirmou que os arranjos de repetição produzem RNAs curtos distintos, segundo experimentos realizados em seu laboratório de biologia molecular na região da Baía de São Francisco.

Isso é relevante.

Mas não responde à principal pergunta.

O ponto central ainda não é saber se o ART se parece com o CRISPR. É descobrir o que ele efetivamente faz.

A própria Anthropic reconhece que ainda não estabeleceu qual é a função do sistema nem se ele apresenta as características programáveis que tornaram o CRISPR tão poderoso como ferramenta de edição genética.

Os cientistas estão dizendo: calma lá 🧐

A reação da comunidade científica foi menos empolgada do que o anúncio empresarial.

Feng Zhang, pesquisador do MIT e do Broad Institute e um dos nomes associados ao desenvolvimento do campo de edição genética baseada em CRISPR, classificou o achado como “genuinamente intrigante” e afirmou que ele merece investigação adicional.

É uma avaliação positiva.

Mas também é uma avaliação cautelosa.

Philip Kranzusch, microbiologista da Harvard Medical School, foi mais direto ao afirmar ao New York Times que o resultado ainda não representa um avanço, descrevendo-o como uma nuance dentro do conhecimento já existente na área.

A diferença entre as duas avaliações é importante: ninguém está dizendo que o achado é irrelevante. A discussão está justamente sobre o tamanho da descoberta.

Encontrar o padrão pode ser a parte fácil 🔎

Yuzhen Ye, bióloga computacional da Universidade de Indiana, levantou outra questão.

Segundo ela, antes de anunciar uma nova descoberta, os pesquisadores poderiam ter testado a hipótese usando um software desenvolvido especificamente para analisar genes de transcriptase reversa.

A crítica toca em um ponto central da pesquisa computacional moderna.

Hoje existem ferramentas capazes de procurar padrões genéticos em enormes bancos de dados. Portanto, identificar uma combinação incomum de genes não significa necessariamente ter descoberto um novo mecanismo biológico.

Lucas Harrington, que fez doutorado no laboratório de Jennifer Doudna e cofundou a Mammoth Biosciences, argumentou no X que a mineração de vizinhança genômica utilizada nesse tipo de investigação é empregada há décadas.

A distinção que ele aponta é simples:

encontrar um padrão é uma coisa. Descobrir sua função é outra.

E, neste caso, a segunda etapa ainda está em aberto.

A própria Anthropic reconheceu uma descoberta anterior

Há ainda outro detalhe que enfraquece qualquer interpretação de ruptura imediata.

O CEO da Anthropic, Dario Amodei, reconheceu que pesquisadores de Stanford já haviam identificado anteriormente um sistema que, em determinados aspectos, é semelhante ao encontrado por Claude.

Isso não elimina a importância do trabalho.

Mas muda a narrativa.

Em vez de uma máquina encontrar sozinha um equivalente ao CRISPR completamente desconhecido pela ciência, o episódio parece estar mais próximo de uma ferramenta computacional que conseguiu navegar por uma quantidade gigantesca de dados, encontrar uma configuração incomum e colocá-la diante dos pesquisadores para investigação experimental.

E talvez seja justamente aí que esteja a parte mais interessante da história.

Claude descobriu ou acelerou a descoberta?

A questão não é apenas semântica.

O processo descrito pela Anthropic mostra uma aplicação bastante diferente de um chatbot convencional.

Em vez de simplesmente responder a uma pergunta, centenas de agentes foram utilizados para dividir tarefas, examinar dados, filtrar candidatos e produzir análises.

Isso transforma o modelo em uma espécie de sistema de investigação automatizada.

Mas a validação continua dependendo do laboratório.

🧪 O computador encontrou a pista. O laboratório ainda precisa explicar a pista: saber que determinadas sequências aparecem juntas não revela automaticamente por que elas estão juntas, qual mecanismo produzem ou se existe alguma aplicação prática.

É uma distinção fundamental para entender o papel da IA na ciência.

O fantasma do CRISPR é grande demais?

A comparação com o CRISPR também carrega um peso histórico considerável.

O desenvolvimento das ferramentas de edição genética baseadas em CRISPR não foi apenas uma descoberta computacional. Ele envolveu anos de investigação experimental sobre mecanismos biológicos, caracterização molecular e demonstração de aplicações.

Por isso, alguns cientistas consideram exagerada qualquer tentativa de colocar o ART na mesma categoria neste momento.

Michael Le Page, da New Scientist, comparou a relevância atual do trabalho a uma descoberta de sequências repetidas feita em E. coli em 1987, e não ao avanço científico que posteriormente levou à revolução do CRISPR.

Ele também afirmou que o resultado ainda está distante, em importância, de trabalhos como o AlphaFold, da DeepMind.

Não se trata, portanto, de dizer que Claude não encontrou nada.

A questão é que a distância entre encontrar uma estrutura interessante e inaugurar uma nova tecnologia biológica pode ser enorme.

E tem uma questão de timing 💼

O anúncio também ganhou atenção porque ocorre enquanto a Anthropic se prepara para um possível IPO nos próximos meses.

Esse contexto não prova que a empresa tenha exagerado deliberadamente a importância do resultado.

Mas ajuda a explicar por que o enquadramento público da descoberta passou a ser observado com cuidado.

A pesquisa, até o momento descrita no material divulgado, não foi submetida à revisão por pares.

Isso significa que ainda falta uma etapa importante para que outros pesquisadores possam avaliar de maneira independente a metodologia, reproduzir os resultados e testar as conclusões.

Em biologia, essa diferença importa muito.

O próximo experimento será mais importante que o anúncio

Existe uma ironia interessante nessa história.

O maior feito do Claude pode não ser ter encontrado “um novo CRISPR”.

Pode ser ter demonstrado que modelos de IA conseguem percorrer espaços gigantescos de informação biológica e entregar aos pesquisadores pistas que seriam difíceis de encontrar manualmente.

Mas transformar uma pista em descoberta científica exige uma segunda etapa.

É preciso descobrir a função do ART, entender o mecanismo molecular, testar suas propriedades e verificar se ele possui alguma capacidade prática de manipulação genética.

Só então será possível saber se estamos diante de uma nova ferramenta biológica ou apenas de uma curiosa arquitetura genética que estava escondida nos bancos de dados.

🔬 Por enquanto, o Claude encontrou a pergunta. A ciência ainda precisa encontrar a resposta.

E talvez esse seja o aspecto mais interessante do episódio: pela primeira vez, a discussão não é apenas sobre se uma IA consegue escrever, programar ou responder perguntas.

É sobre até onde ela consegue vasculhar o desconhecido e entregar aos cientistas algo que vale a pena investigar.

O ART ainda não é um novo CRISPR. Mas, se os experimentos futuros revelarem uma função realmente nova, a história poderá ganhar outro capítulo.

Por enquanto, o laboratório continua sendo a parte da equação que nenhuma manchete consegue substituir.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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