Principais destaques
- Assinaturas reais: investigação encontrou nomes ou pseudônimos de mais de 15 cartunistas da The New Yorker em imagens geradas pelo ChatGPT.
- Nenhum consentimento: os artistas não autorizaram o uso de seus nomes e não receberam pagamento pelas imagens atribuídas a eles.
- O problema continua: a OpenAI adicionou um aviso, mas o sistema ainda pode gerar charges com assinaturas de artistas reais.
O problema de pedir a uma IA uma imagem “no estilo de” determinado artista acaba de ganhar uma camada bem mais complicada.
O ChatGPT não estaria apenas reproduzindo características visuais associadas a cartunistas da The New Yorker. Segundo uma investigação publicada pelo Nieman Lab, o sistema também chegou a colocar assinaturas e pseudônimos de artistas reais em desenhos que eles nunca fizeram.
A descoberta foi feita pelo repórter Andrew Deck, que encontrou nomes de mais de 15 colaboradores da revista em imagens geradas por IA.
E nenhum deles havia autorizado isso.
Não é só uma questão de estilo 🎨
A discussão sobre IA generativa e estilo artístico já é antiga. Aqui, porém, existe uma diferença importante.
Uma coisa é uma ferramenta produzir uma charge que lembre determinadas características visuais de uma publicação. Outra é apresentar o resultado como se tivesse sido criado por uma pessoa específica.
É justamente isso que torna as assinaturas o ponto mais sensível do caso.
🔎 O detalhe que chamou atenção: em algumas imagens, o nome do artista aparece como parte do próprio desenho, criando a impressão de autoria.
“Meu nome é meu nome.”
A frase é de Brendan Loper, cartunista que assina seus trabalhos como BLOPER. Seu pseudônimo apareceu em uma charge criada pelo ChatGPT que acabou circulando pelo Facebook.
A charge que viralizou 📱
O caso de Loper começou com um pedido aparentemente simples.
Um usuário solicitou ao ChatGPT uma charge “no estilo da New Yorker” relacionada às mortes noticiadas de Dolly Parton e Tim Curry, no fim de agosto.
O resultado acabou sendo publicado nas redes sociais.
O problema é que a imagem trazia a assinatura BLOPER, fazendo com que algumas pessoas acreditassem que o desenho havia sido produzido pelo próprio Loper.
Ele descobriu o caso em maio, depois que uma pessoa desconhecida entrou em contato pelo Instagram. Durante o verão, também encontrou outros exemplos em um fórum do Reddit dedicado ao ChatGPT.
🖊️ E não foi um caso isolado: a investigação encontrou assinaturas de outros nomes conhecidos da The New Yorker, incluindo Emily Flake, Harry Bliss, Joe Dator, Pat Byrnes, George Booth e Liza Donnelly.
“Parece um primo distante” 👀
Para alguns dos artistas, o resultado é particularmente estranho porque a IA consegue reproduzir elementos reconhecíveis de seus trabalhos sem necessariamente produzir algo que eles próprios fariam.
Emily Flake descreveu a sensação como enxergar o “DNA” de seu trabalho em uma criação que, ao mesmo tempo, claramente não saiu de suas mãos.
É uma descrição bastante precisa do problema.
A imagem pode carregar características reconhecíveis de um artista, mas isso não transforma o artista em seu autor.
Jason Adam Katzenstein, que desenha para a revista há 12 anos, foi ainda mais direto ao descrever o resultado como um simulacro familiar da maneira como uma piada é construída.
E existe um acordo com a OpenAI 🤝
A situação ganha outra dimensão porque a OpenAI e a Condé Nast, empresa que controla a The New Yorker, possuem um acordo de licenciamento firmado em 2024.
Mas, segundo um porta-voz da The New Yorker ouvido pelo Nieman Lab, o acordo não autorizava o treinamento dos modelos com os cartuns da revista, nem o uso do logotipo ou das artes da publicação para gerar imagens.
Os cartunistas também continuam mantendo os direitos autorais sobre seus trabalhos.
O Nieman Lab analisou ainda os contratos padrão da revista com seus colaboradores e afirmou que eles não autorizavam o licenciamento dos cartuns para treinamento de IA.
⚖️ Isso torna a assinatura especialmente problemática: além da discussão sobre estilo, existe uma associação direta entre uma obra gerada artificialmente e uma pessoa que não a criou.
A OpenAI colocou um aviso. Mas…
Depois de ser procurada pelo Nieman Lab, a OpenAI adicionou um alerta para determinados pedidos relacionados às charges da The New Yorker.
A mensagem informa que o pedido “pode violar nossas diretrizes de proteção quanto à semelhança com conteúdo de terceiros”.
Só que isso não resolveu completamente a questão.
Segundo a reportagem, o ChatGPT continuava gerando as imagens e, em alguns casos, ainda incluía assinaturas de artistas reais.
🧩 A própria OpenAI classificou o comportamento como um problema: um porta-voz afirmou que a empresa acredita que “o futuro da criatividade é fundamentalmente humano” e agradeceu à comunidade por apontar bugs e comportamentos não intencionais dos modelos.
A empresa, porém, não explicou ao Nieman Lab como os modelos aprenderam a reproduzir as assinaturas.
A assinatura é o maior problema? ⚖️
Nem necessariamente.
Para James Grimmelmann, professor da Faculdade de Direito da Universidade Cornell, uma eventual ação por violação de direitos autorais provavelmente dependeria mais da reprodução de elementos protegidos da obra de um cartunista do que da assinatura isoladamente.
Isso cria uma distinção importante:
| Elemento | Questão envolvida |
|---|---|
| Estilo | Até onde uma IA pode reproduzir características associadas a um artista? |
| Obra | Houve reprodução de elementos protegidos por direitos autorais? |
| Assinatura | A imagem pode induzir terceiros a acreditar que o artista é o autor? |
São problemas diferentes, embora possam aparecer juntos na mesma imagem.
Quando a IA começa a inventar autoria
É aí que o caso fica mais interessante.
Uma charge criada por IA já pode provocar debates sobre treinamento, estilo e direitos autorais. Mas colocar o nome de um artista real muda a natureza da interação.
A pessoa que vê a imagem pode não saber que ela foi gerada artificialmente.
E, se a assinatura pertence a um profissional reconhecido, ela funciona como um selo de autenticidade.
Katzenstein resumiu sua preocupação de maneira bem mais contundente: segundo ele, a tecnologia estaria tentando tornar os cartunistas obsoletos porque eles custam dinheiro e levam tempo.
A frase expõe o conflito econômico por trás da discussão.
💡 A questão deixou de ser apenas “a IA consegue desenhar como esse artista?”
Passa a ser: “por que uma máquina está dizendo que esse artista fez algo que ele nunca fez?”
Um bug que pode virar problema maior 🚨
A OpenAI tratou o comportamento como algo não intencional. Mas o episódio mostra como sistemas generativos podem produzir resultados que vão além do pedido original do usuário.
O usuário pede uma charge.
O modelo produz a charge.
E, no processo, pode acrescentar uma assinatura que transforma uma criação sintética em algo que aparenta ter autoria humana específica.
Isso é particularmente delicado em um ambiente como as redes sociais, onde uma imagem pode ser repostada milhares de vezes sem que ninguém verifique sua origem.
A charge que começou como uma solicitação para um chatbot pode terminar circulando como se fosse trabalho legítimo de um cartunista.
E agora? 🧠
O caso coloca mais uma peça na discussão sobre os limites da geração de imagens por IA.
Não se trata apenas de impedir que um modelo copie uma obra existente. Também é preciso evitar que ele atribua uma obra inexistente a uma pessoa real.
Enquanto a tecnologia avança, nomes, assinaturas e outros sinais de autoria continuam funcionando como uma espécie de “selo” que a internet aprendeu a reconhecer.
O problema é que, agora, uma máquina pode colocar esse selo em uma imagem que o suposto autor nunca viu.
E talvez seja justamente aí que a próxima disputa sobre IA e criatividade comece.
