Alphabet promete gastar ainda mais com IA em 2027, apesar dos temores de uma bolha

Renê Fraga
9 min de leitura

Principais destaques

  • Investimentos sem freio: Ruth Porat afirma que a Alphabet gastará significativamente mais na infraestrutura de inteligência artificial em 2027.
  • Capex bilionário: a empresa prevê despesas de capital de US$ 195 bilhões a US$ 205 bilhões em 2026, mais que o dobro do registrado em 2025.
  • Wall Street está dividida: enquanto o Jefferies alerta para uma possível destruição de capital, a executiva defende que a demanda por IA justifica os investimentos.

A corrida pela inteligência artificial está ficando cada vez mais cara. E, pelo menos para a Alphabet, controladora do Google, ainda não chegou a hora de tirar o pé do acelerador.

Ruth Porat, presidente e diretora de investimentos da companhia, afirmou nesta semana que os gastos com infraestrutura de IA vão aumentar significativamente em 2027. A declaração foi feita durante a Fortune Most Powerful Women Summit, em conversa com Alyson Shontell, editora-chefe da Fortune.

A mensagem é clara: mesmo diante das dúvidas sobre a rentabilidade dos investimentos em inteligência artificial, a Alphabet acredita que reduzir o ritmo agora pode custar caro no futuro.

💰 Os números estão ficando difíceis de ignorar

A Alphabet já planeja desembolsar entre US$ 195 bilhões e US$ 205 bilhões em despesas de capital (Capex) em 2026. Para colocar esse valor em perspectiva, a empresa gastou US$ 91,4 bilhões em 2025.

IndicadorValor
Capex da Alphabet em 2025US$ 91,4 bilhões
Previsão para 2026US$ 195 bilhões a US$ 205 bilhões
Consenso de mercado para 2027Cerca de US$ 257 bilhões

A estimativa para 2027, atribuída à FactSet pela CNBC, representa uma nova escalada nos investimentos. O valor ainda é uma projeção de mercado, não um compromisso definitivo da companhia.

📈 O que está por trás da conta: data centers, capacidade computacional e infraestrutura necessária para desenvolver e executar modelos de IA exigem investimentos enormes. E a demanda por esses recursos continua sendo o principal argumento das empresas para justificar a expansão.

Em julho, a Alphabet já havia elevado sua previsão de Capex para 2026 de US$ 180 bilhões para US$ 190 bilhões. Posteriormente, a projeção foi ampliada para a faixa de US$ 195 bilhões a US$ 205 bilhões, enquanto a diretora financeira, Anat Ashkenazi, também sinalizou novos aumentos em 2027.

🤔 Mas quando todo esse dinheiro começa a voltar?

Essa é a pergunta que preocupa investidores.

A construção de data centers e a compra de chips acontecem antes que todas as receitas associadas à inteligência artificial se materializem. Isso cria uma diferença importante entre o dinheiro investido hoje e os retornos que poderão aparecer nos próximos anos.

A pressão já aparece nas finanças da Alphabet. Segundo a Fortune, a companhia registrou fluxo de caixa livre negativo no segundo trimestre, pela primeira vez desde sua abertura de capital, em 2004. A dívida de longo prazo também chegou a aproximadamente US$ 98 bilhões no fim de junho.

O cenário não envolve apenas o Google. Amazon, Alphabet, Microsoft e Meta devem investir, juntas, mais de US$ 720 bilhões em 2026, segundo os números apresentados no material de origem.

💡 O risco não é apenas investir demais em IA. É construir capacidade computacional em uma escala que a receita futura talvez não consiga justificar.

Para os investidores, portanto, o debate deixou de ser apenas sobre qual empresa possui os melhores modelos. Agora, também envolve quem conseguirá transformar a infraestrutura em receita e lucro suficientes para compensar o custo de mantê-la.

⚠️ O alerta de Wall Street que Porat rejeita

Em relatório publicado em 9 de outubro, Chris Wood, chefe global de estratégia de ações do Jefferies, levantou uma hipótese preocupante: o boom da IA poderia terminar em uma destruição maciça de capital nos Estados Unidos.

A tese considera a possibilidade de que modelos chineses de código aberto, oferecidos a custos menores, conquistem participação de mercado e reduzam a capacidade das empresas americanas de recuperar seus investimentos.

Wood também destacou a percepção crescente de que a China se tornou uma concorrente tecnológica de peso dos Estados Unidos em inteligência artificial.

🌏 A disputa pode mudar de direção: se modelos mais baratos entregarem resultados suficientemente bons, as empresas poderão questionar a necessidade de pagar por soluções proprietárias mais caras. Isso pressionaria preços e margens justamente quando os investimentos em infraestrutura estão no auge.

O relatório do Jefferies projeta que as quatro maiores empresas de infraestrutura de nuvem e IA gastarão US$ 695 bilhões em 2026 e US$ 870 bilhões em 2027. Esses números não devem ser confundidos com o Capex exclusivo da Alphabet.

🗣 Porat aposta na demanda de longo prazo

A executiva discordou da perspectiva pessimista. Para ela, a forte procura por recursos de IA indica que as empresas ainda estão longe de atingir um ponto em que a expansão deixou de fazer sentido.

Seu argumento é que organizações privadas e governos estão buscando formas de extrair informações, melhorar processos e aumentar a produtividade com inteligência artificial.

“É preciso investir pensando no crescimento a longo prazo”, afirmou Porat, segundo a Fortune.

Ela também defendeu que empresas capazes de oferecer valor diferenciado encontrarão clientes dispostos a pagar, independentemente de utilizarem modelos abertos ou fechados.

Essa distinção é importante. A existência de modelos gratuitos ou de código aberto não significa necessariamente que todos os serviços de IA se tornarão gratuitos. Produtos com melhor desempenho, integração empresarial, segurança e suporte podem continuar gerando receitas. O desafio é descobrir quanto os clientes estarão dispostos a pagar por essas vantagens.

🕰️ A lição da bolha das pontocom

Porat conhece bem os riscos de uma corrida tecnológica. Antes de ingressar na Alphabet, ela liderou a equipe de bancos de tecnologia do Morgan Stanley durante a era das pontocom e, posteriormente, assessorou o Tesouro dos Estados Unidos durante a crise financeira de 2008.

Uma das lições que ela extraiu dessas experiências é a importância de identificar antecipadamente a maior vulnerabilidade de um negócio.

Na avaliação da executiva, o perigo atual é ficar para trás na inovação impulsionada pela IA.

🔎 A lógica da Alphabet: esperar que a demanda esteja plenamente comprovada pode significar perder espaço para concorrentes que investiram antes. Por outro lado, antecipar demais a capacidade necessária pode deixar ativos caros subutilizados caso o crescimento esperado não se concretize.

É esse equilíbrio que torna a decisão tão difícil. A empresa precisa apostar no futuro sem saber exatamente qual será o tamanho do mercado, quais modelos dominarão e quanto os clientes pagarão por cada serviço.

🚀 O teste decisivo será transformar infraestrutura em lucro

A declaração de Porat reforça que a Alphabet não considera o ciclo atual de investimentos perto do fim. A expectativa é ampliar a capacidade de IA mesmo enquanto o mercado questiona o retorno financeiro dessa estratégia.

A companhia tem um argumento a seu favor: a inteligência artificial pode gerar receitas e ganhos de produtividade em diversas áreas, dos serviços de nuvem à publicidade e às ferramentas empresariais. Mas o potencial econômico não garante que cada dólar investido produzirá retorno adequado.

A comparação com a era das pontocom também merece cuidado. Nem todo investimento elevado termina em prejuízo, assim como nem toda tecnologia promissora garante rentabilidade aos seus financiadores.

A questão que ficará para 2027 é se a demanda crescerá rápido o suficiente para acompanhar a expansão da infraestrutura. A Alphabet parece disposta a correr esse risco. Wall Street, por enquanto, ainda tenta calcular quanto essa aposta poderá valer.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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