A IA está encarecendo a memória e pode derrubar as vendas de smartphones em 2026

Renê Fraga
9 min de leitura
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Principais destaques

  • Queda histórica nas vendas: projeções apontam retração de 12% a 16,7% nas remessas globais de smartphones em 2026.
  • A IA está puxando a memória: a corrida por data centers de inteligência artificial elevou a demanda por DRAM e NAND, pressionando os custos dos celulares.
  • Celulares baratos sentem primeiro: fabricantes estão priorizando aparelhos mais caros e lucrativos, enquanto o aumento de preços ameaça ampliar a exclusão digital.

A indústria de smartphones pode estar prestes a enfrentar seu pior ano em mais de uma década.

Não porque as pessoas deixaram de gostar de celulares. O problema está, literalmente, dentro deles: a memória ficou mais cara.

A explosão dos investimentos em inteligência artificial está consumindo grandes volumes de chips DRAM e NAND, os mesmos componentes usados em smartphones para memória e armazenamento. O resultado é uma disputa por capacidade de produção que começa a chegar ao bolso do consumidor.

📉 O tamanho do tombo: a Omdia estima que as remessas globais caiam 12% em 2026, para aproximadamente 1,097 bilhão de aparelhos.

A previsão da GSMA é ainda mais severa, com queda de 14%, enquanto a IDC trabalha com retração de 16,7%, levando o mercado para pouco mais de 1 bilhão de unidades.

FonteProjeção para 2026Remessas estimadas
Omdia-12%1,097 bilhão
GSMA-14%Não especificado
IDC-16,7%Pouco mais de 1 bilhão

São números diferentes, mas apontam para a mesma direção: um mercado global muito menor em volume.

Bem-vindo ao “RAMageddon” 💾

O apelido que começou a aparecer para descrever a situação é “RAMageddon”.

A lógica é simples. Data centers responsáveis por executar modelos de IA precisam de enormes quantidades de memória de alto desempenho. Conforme empresas ampliam seus investimentos em inteligência artificial, a demanda por DRAM dispara.

Ao mesmo tempo, a memória NAND, utilizada principalmente para armazenamento, também sofre com a pressão sobre a cadeia de suprimentos.

💸 E o preço acompanha: segundo a projeção citada no material, os preços de DRAM podem terminar 2026 até 400% acima dos níveis de 2024.

Para um smartphone premium, isso já representa um problema. Para um aparelho básico, pode ser uma questão existencial.

A memória pode representar aproximadamente metade do custo total de determinados dispositivos de entrada. Quando um componente tão importante dispara de preço, sobra pouco espaço para o fabricante absorver a alta sem mexer no preço final.

💡 A consequência mais curiosa da corrida pela IA pode aparecer em um lugar aparentemente distante dos data centers: na etiqueta de preço do próximo celular.

E quem compra celular barato?

É justamente aí que a situação começa a ficar mais delicada.

Os consumidores de aparelhos de entrada possuem menos margem para absorver aumentos de preços. Se um smartphone básico fica significativamente mais caro, a troca do aparelho pode simplesmente ser adiada.

🔎 O efeito cascata: menos pessoas comprando aparelhos novos significa ciclos de substituição mais longos e uma pressão ainda maior sobre fabricantes que dependem de grandes volumes.

A GSMA chama atenção para um problema maior: o custo dos dispositivos já é um dos principais obstáculos para a expansão do acesso à internet móvel em regiões de menor renda.

Na África Subsaariana, por exemplo, um smartphone básico equivale a cerca de 76% da renda mensal média dos 40% mais pobres da população.

Isso transforma uma crise de componentes em uma questão de acesso digital.

O mercado pode vender menos e faturar mais

Existe, porém, um detalhe interessante nessa história.

📈 Menos aparelhos não significa necessariamente menos dinheiro: o Goldman Sachs projeta que o valor total do mercado de smartphones cresça 8% em 2026, chegando a US$ 624 bilhões.

Como isso é possível?

Com preços médios maiores e uma concentração crescente nos modelos premium, especialmente aparelhos acima de US$ 600.

A lógica das fabricantes começa a mudar. Em vez de perseguir exclusivamente grandes volumes de vendas, elas podem buscar uma combinação de menor quantidade de aparelhos e maior margem por unidade.

Segundo Liu Yixuan, da Omdia, os fabricantes estão abandonando parte da busca por escala de embarques e priorizando a lucratividade.

A faixa de entrada é quem paga a conta 📱

Essa mudança cria uma divisão cada vez mais clara no mercado.

De um lado estão consumidores dispostos a pagar mais por smartphones premium. Do outro, uma enorme população que precisa de aparelhos acessíveis para entrar ou permanecer no ecossistema digital.

Para as fabricantes, o segundo grupo é mais difícil de atender em um cenário de memória cara.

Os aparelhos baratos têm menos espaço para absorver componentes mais caros, enquanto modelos premium conseguem repassar parte dos custos para o consumidor.

E isso ajuda a explicar por que a indústria pode enfrentar uma queda expressiva nas unidades vendidas mesmo com crescimento no faturamento.

Ainda existe uma saída?

A GSMA lançou nesta semana uma iniciativa com a Partnership for Digital Access in Africa para tentar conectar 1 bilhão de pessoas no continente até 2030.

Um dos objetivos é acelerar a migração de celulares básicos 2G e 3G para smartphones.

Mas existe uma barreira evidente: preço.

A organização estima que aparelhos entre US$ 20 e US$ 30 poderiam tornar os smartphones acessíveis para mais 1,6 bilhão a 2,2 bilhões de pessoas.

📱 O problema é justamente chegar lá: se memória e armazenamento continuarem pressionados pela demanda da IA, produzir smartphones extremamente baratos fica mais difícil.

E as fabricantes? Apostam no que dá mais dinheiro

Apple, Google e Samsung estão entre as grandes fabricantes que aumentaram os preços de seus novos lançamentos neste ano, segundo o material.

Ao mesmo tempo, a indústria tenta encontrar novas razões para convencer consumidores a trocar de aparelho.

Os smartphones com recursos de inteligência artificial são uma dessas apostas. Os dobráveis são outra.

A ironia é difícil de ignorar: a mesma tecnologia que aumenta a demanda por memória nos data centers também ajuda a justificar aparelhos mais sofisticados e caros nas lojas.

Enquanto isso, quem só precisa de um telefone básico para acessar WhatsApp, bancos, mapas e internet pode enfrentar uma realidade bem diferente.

2028 virou a nova esperança? ⏳

O Goldman Sachs não espera uma recuperação significativa dos volumes antes de 2028.

A projeção aponta para aproximadamente 1,2 bilhão de smartphones enviados naquele ano.

Ou seja, mesmo que a indústria consiga recuperar parte do terreno perdido, a retomada pode demorar.

Até lá, fabricantes terão de equilibrar três forças difíceis de conciliar: memória mais cara, consumidores mais sensíveis a preços e uma corrida tecnológica que continua exigindo quantidades gigantescas de componentes.

A disputa pela memória começou nos servidores que alimentam a IA. Agora, ela pode terminar decidindo quanto custa o celular que chega ao seu bolso.

E a pergunta para os próximos anos é bastante concreta: até onde o consumidor aceitará pagar para continuar trocando de smartphone?

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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