LinkedIn recebe mais de 1 milhão de denúncias contra “lixo de IA”

Renê Fraga
15 min de leitura
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Principais destaques

1. Mais de 1 milhão de usuários já acionaram o botão “Parece lixo de IA” desde o lançamento do recurso.

2. Conteúdos classificados como AI slop estão recebendo cerca de 40% menos visualizações do que algumas semanas atrás.

3. O LinkedIn diz que não quer banir o uso de IA, mas reduzir publicações genéricas, repetitivas e sem uma perspectiva humana clara.

A inteligência artificial ganhou espaço no LinkedIn como uma ferramenta para escrever, revisar e organizar ideias. Só que existe um ponto em que essa praticidade começa a incomodar: quando milhares de publicações passam a parecer escritas pela mesma máquina, com as mesmas estruturas, os mesmos clichês e pouca coisa realmente nova para dizer.

É justamente contra esse fenômeno que o LinkedIn decidiu agir.

A rede profissional colocou em funcionamento um recurso chamado “Seems like AI slop”, que aparece no menu de opções das publicações e permite ao usuário sinalizar que determinado conteúdo parece genérico demais, artificial ou simplesmente sem substância.

A resposta foi muito maior do que talvez a plataforma esperasse.

Segundo Hari Srinivasan, diretor de produto do LinkedIn, mais de 1 milhão de pessoas utilizaram o recurso nas primeiras semanas. A empresa também afirma que conteúdos classificados internamente como AI slop estão alcançando aproximadamente 40% menos visualizações do que algumas semanas antes.

Mas existe uma diferença importante nessa história.

O botão não foi criado exatamente para “denunciar” alguém e fazer com que aquela pessoa seja punida pelo algoritmo.

O que significa “AI slop” no LinkedIn?

O termo pode ser traduzido de maneira informal como “lixo de IA”, mas a definição usada pelo LinkedIn é mais específica.

A empresa considera AI slop aquele conteúdo que pode até parecer sofisticado, bem escrito e visualmente agradável, mas que não apresenta experiência, conhecimento, opinião ou perspectiva própria.

Em outras palavras, o problema não é simplesmente usar inteligência artificial.

O problema é publicar algo que parece ter sido produzido apenas para preencher o feed.

O próprio LinkedIn explica que conteúdos feitos com auxílio de IA podem continuar sendo distribuídos normalmente quando apresentam uma contribuição humana real. A plataforma recomenda, inclusive, que usuários revisem e editem aquilo que produzem com ferramentas de inteligência artificial.

Usar IA não é o mesmo que produzir AI slop.

Essa distinção é importante porque uma pessoa pode utilizar uma ferramenta de IA para corrigir erros de português, melhorar a estrutura de um texto ou encontrar uma forma mais clara de explicar uma ideia.

Nesse cenário, a experiência continua vindo da pessoa.

O problema aparece quando alguém simplesmente pede para a IA produzir uma publicação sobre determinado assunto, copia o resultado e publica sem acrescentar uma história, uma experiência, uma análise ou qualquer informação que diferencie aquele conteúdo de centenas de outros.

É aí que surge a sensação de que o LinkedIn está ficando cheio de textos que parecem ter saído da mesma fábrica.

O botão não derruba automaticamente o alcance

Uma das principais dúvidas em torno da novidade era bastante simples: se alguém clicar em “Parece lixo de IA”, a publicação perde alcance?

A resposta do LinkedIn é: não necessariamente.

Sam Corrao Clanon, líder de produto para criadores da plataforma, explicou que a funcionalidade não foi criada como um mecanismo tradicional de denúncia ou como uma forma de punição automática.

O objetivo imediato é permitir que o usuário diga ao LinkedIn:

“Eu não quero ver esse tipo de conteúdo no meu feed.”

Esse feedback também ajuda a empresa a entender quais publicações são percebidas como genéricas ou de baixa qualidade. Com mais sinais, a plataforma consegue aprimorar seus sistemas de classificação.

Isso também significa que apertar o botão uma vez não deve destruir o alcance de um criador.

O LinkedIn afirma que utiliza diversos sinais para determinar a distribuição de uma publicação e possui mecanismos para impedir que uma única pessoa consiga prejudicar injustamente outro usuário.

O cenário muda quando o mesmo tipo de reclamação começa a aparecer repetidamente.

Se muitas pessoas considerarem determinada publicação um exemplo de conteúdo vazio ou artificial, esse conjunto de sinais pode passar a ter mais importância.


A dimensão do problema é maior do que parece

A iniciativa do LinkedIn não surgiu do nada.

Antes mesmo de a plataforma colocar o botão à disposição dos usuários, pesquisas externas já apontavam para o crescimento acelerado de conteúdo produzido por inteligência artificial nas redes profissionais.

Uma análise da empresa de detecção Pangram, divulgada antes do lançamento do recurso, encontrou uma concentração particularmente alta de conteúdo gerado por IA no LinkedIn. O levantamento analisou mais de 1 milhão de publicações em diferentes plataformas e apontou que uma parcela expressiva dos textos longos publicados no LinkedIn apresentava sinais de geração integral por IA.

O dado ajuda a explicar por que o problema passou a ser tratado como algo maior do que uma simples discussão sobre estilo de escrita.

Existe uma questão econômica por trás disso.

O LinkedIn é uma plataforma na qual pessoas procuram empregos, clientes, investidores, parceiros comerciais e oportunidades profissionais. Portanto, a percepção de autenticidade tem um peso muito maior do que em uma rede usada apenas para entretenimento.

Se o feed começa a ficar dominado por textos genéricos, a consequência pode ser uma perda de confiança.

E confiança é justamente um dos ativos mais importantes de uma rede profissional.

Quando todo mundo começa a escrever igual

Existe ainda um efeito curioso.

A inteligência artificial foi criada para ajudar cada pessoa a produzir melhor. Porém, quando milhares de pessoas utilizam os mesmos modelos, os mesmos prompts e as mesmas fórmulas, o resultado pode ser exatamente o contrário.

Em vez de tornar cada voz mais individual, a tecnologia pode acabar deixando várias vozes parecidas.

É o fenômeno que o próprio LinkedIn já descreveu como uma espécie de “tragédia dos comuns”: uma pessoa pode acreditar que está melhorando sua comunicação ao utilizar IA, mas o efeito acumulado de milhares de usuários fazendo a mesma coisa pode deixar toda a plataforma menos interessante.

É fácil reconhecer alguns desses padrões.

Textos excessivamente estruturados.

Introduções dramáticas.

Listas intermináveis.

Frases motivacionais.

Conclusões que repetem exatamente o que foi dito no início.

E aquela sensação de que o texto está impecavelmente organizado, mas, depois de terminar a leitura, não ficou praticamente nenhuma informação nova.

Esse é o tipo de experiência que o LinkedIn está tentando combater.


A plataforma quer menos punição e mais sinais

A estratégia adotada pela empresa é interessante porque não depende exclusivamente de um detector automático de inteligência artificial.

Em vez de tentar descobrir sozinho se cada publicação foi escrita por uma máquina, o LinkedIn também quer saber como as pessoas estão percebendo aquele conteúdo.

Essa diferença pode ser importante.

Detectar se um texto foi produzido por IA não é necessariamente a mesma coisa que descobrir se ele é ruim.

Uma publicação pode ter sido escrita com auxílio de inteligência artificial e ainda assim apresentar dados relevantes, experiência profissional e uma opinião original.

Da mesma forma, um texto escrito integralmente por uma pessoa pode ser repetitivo, superficial ou pouco útil.

Por isso, o LinkedIn afirma que seus sistemas estão sendo treinados para observar sinais relacionados à qualidade e à contribuição de uma publicação, e não simplesmente à presença de inteligência artificial. A empresa diz que seus sistemas iniciais conseguiram identificar conteúdo genérico com 94% de precisão em testes.

A plataforma também afirma estar trabalhando para identificar outros comportamentos associados à automação, como comentários produzidos em escala e respostas que apenas repetem o conteúdo original sem acrescentar algo novo.

Criadores também começarão a receber sinais

Outra mudança chama atenção.

O LinkedIn está começando a informar criadores quando suas publicações são percebidas pela comunidade como conteúdo desse tipo.

A informação aparece na área de análises das publicações e funciona como um alerta.

Em vez de simplesmente esconder o problema do criador, a plataforma quer mostrar que existe uma percepção negativa acontecendo.

Isso pode gerar uma mudança de comportamento.

Um profissional que utiliza IA para produzir dezenas de publicações por semana pode descobrir que, embora os textos estejam gramaticalmente perfeitos, os leitores não estão percebendo valor neles.

A mensagem, nesse caso, não é necessariamente “pare de usar IA”.

É mais próxima de:

“Volte a colocar você mesmo no conteúdo.”

Esse movimento também ajuda a explicar por que a iniciativa do LinkedIn não pode ser resumida a uma guerra contra inteligência artificial.

A empresa continua permitindo o uso da tecnologia.

O que está sendo questionado é a produção em escala de conteúdo sem personalidade.


O paradoxo: a IA que escreve melhor pode tornar o LinkedIn pior

Existe uma ironia no meio de toda essa discussão.

A inteligência artificial é extremamente eficiente em produzir textos que parecem profissionais.

Ela consegue estruturar argumentos, corrigir frases, criar títulos, resumir informações e adaptar o tom de uma publicação em poucos segundos.

O problema é que parecer profissional não significa necessariamente ter algo interessante para dizer.

E essa diferença fica especialmente evidente no LinkedIn.

Imagine dois profissionais escrevendo sobre inteligência artificial.

O primeiro publica um texto perfeitamente formatado com cinco dicas genéricas para “se destacar na era da IA”.

O segundo conta como implementou uma ferramenta na própria empresa, explica o que deu errado, mostra um resultado inesperado e compartilha uma conclusão que só poderia ter surgido daquela experiência.

Os dois textos podem ter uma gramática impecável.

Os dois podem utilizar IA.

Mas somente um deles necessariamente carrega uma experiência que o leitor não encontraria em qualquer outro lugar.

É essa diferença que o LinkedIn parece querer preservar.

40% menos visualizações, mas ainda há dúvidas

O número divulgado pela empresa chama atenção: 40% menos visualizações para conteúdos que o LinkedIn classifica como AI slop.

Mas é importante interpretar esse dado com algum cuidado.

Trata-se de uma métrica divulgada pela própria plataforma. Não há, até o momento, uma auditoria independente que permita verificar exatamente como o percentual foi calculado, qual foi a base de comparação ou quantas publicações entraram nessa classificação.

Portanto, o dado é relevante para entender a direção que o LinkedIn afirma estar tomando, mas não deve ser interpretado como uma medição independente de todo o conteúdo produzido por IA na rede.

Ainda assim, a mensagem estratégica é bastante clara.

O LinkedIn quer que conteúdo genérico tenha mais dificuldade para alcançar grandes audiências.

E quer fazer isso sem simplesmente proibir a inteligência artificial.


O futuro do conteúdo profissional pode ser mais humano

A disputa contra o AI slop provavelmente não vai terminar com esse botão.

A produção automática de conteúdo tende a continuar crescendo. Modelos de IA estão ficando melhores, mais rápidos e mais acessíveis, enquanto ferramentas de automação conseguem publicar, responder comentários e manter perfis ativos em uma escala que seria impossível para uma pessoa.

O próprio LinkedIn diz que está combatendo diferentes formas de automação e trabalhando para identificar perfis falsos e comportamentos automatizados. A empresa também vem promovendo a verificação de usuários como uma maneira de aumentar a confiança na identidade das pessoas presentes na plataforma.

Isso coloca a rede diante de uma questão que vai muito além do LinkedIn.

Se uma máquina consegue produzir milhares de textos convincentes em poucos minutos, o que fará uma publicação humana continuar sendo valiosa?

A resposta talvez esteja justamente naquilo que a IA ainda não consegue substituir facilmente: experiência vivida, contexto, opinião, fracasso, dúvida, descoberta e personalidade.

No fim, o movimento do LinkedIn não parece ser uma tentativa de expulsar a inteligência artificial.

Parece ser uma tentativa de impedir que a eficiência da IA transforme a plataforma em um lugar onde todo mundo publica muito, mas quase ninguém tem algo novo para dizer.

E o fato de mais de 1 milhão de pessoas já terem apertado o botão “Parece lixo de IA” mostra que existe, pelo menos entre parte dos usuários, uma demanda clara por esse tipo de filtro.

A próxima disputa talvez não seja mais sobre quem consegue produzir conteúdo mais rápido.

Será sobre quem ainda consegue dizer alguma coisa que vale a pena ler.


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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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