Principais destaques:
- A fundação pede que grandes companhias deixem de coletar dados gratuitamente e passem a usar o serviço pago Wikimedia Enterprise.
- A visitação de usuários reais caiu 8%, enquanto o tráfego automatizado de IA disparou, sobrecarregando os servidores.
- A popularização de ferramentas que respondem diretamente sem redirecionar ao site afeta o modelo de doações que sustenta a Wikipedia.
A Fundação Wikimedia, responsável pela Wikipedia, fez um apelo público pedindo que empresas de inteligência artificial parem de raspar (extrair automaticamente) o conteúdo de sua enciclopédia livre.
Em vez disso, a organização sugere que as companhias utilizem o Wikimedia Enterprise, o serviço pago que oferece acesso estruturado aos dados.
O pedido surge em meio a uma mudança preocupante no comportamento do tráfego: enquanto as visitas humanas à Wikipedia diminuíram 8% em relação ao ano anterior, o número de acessos realizados por bots de IA disparou.
Esses sistemas, muitas vezes criados para coletar dados de treinamento para grandes modelos de linguagem, estão se disfarçando de visitantes humanos para escapar de mecanismos de detecção.
A fundação explica que essa prática eleva os custos de manutenção, sobrecarrega a infraestrutura e ameaça seu modelo de financiamento, baseado quase inteiramente em doações voluntárias.
“A confiança na informação online começa com a transparência sobre suas fontes”, destacou a Wikimedia em comunicado, reforçando o pedido de atribuição e compensação justa pelo uso do trabalho coletivo de seus editores humanos.
Bots inteligentes demais: um desafio crescente
Nos últimos meses, a equipe técnica da Wikimedia percebeu picos de tráfego incomuns. Após revisar suas ferramentas de monitoramento, descobriram que robôs de IA estavam fingindo ser pessoas reais para evitar bloqueios.
Essa enxurrada automatizada tem impactos concretos: só o consumo de largura de banda para baixar conteúdo multimídia aumentou 50% desde janeiro de 2024. Isso exigiu mais recursos e investimentos em infraestrutura, algo delicado para uma instituição sem fins lucrativos que depende da boa vontade de milhões de doadores individuais.
Além disso, com menos usuários humanos acessando diretamente a enciclopédia, menos pessoas veem os pedidos de apoio financeiro ou participam da edição e aprimoramento dos artigos. É um ciclo preocupante: menos tráfego humano gera menos recursos, o que pode afetar a vitalidade da própria Wikipedia.
As grandes empresas e o dilema da responsabilidade
O movimento da Wikimedia não é isolado. Desde 2022, o Google e o Internet Archive são parceiros oficiais do Wikimedia Enterprise, pagando para ter acesso legítimo e estruturado ao vasto acervo de conhecimento da enciclopédia.
O serviço oferece feeds em tempo real, dados em formato JSON e snapshots atualizados constantemente, com preços que variam conforme o volume de uso.
Porém, gigantes como OpenAI, Meta, Microsoft, Anthropic e outras empresas ainda não responderam aos pedidos de diálogo sobre o novo posicionamento.
O cenário se torna ainda mais acirrado com a recente chegada da Grokipedia, iniciativa de Elon Musk, que promete ser uma alternativa “menos parcial” à Wikipedia, segundo o bilionário.
O timing desse lançamento coincide com disputas judiciais em andamento, como o processo movido pelo The New York Times contra a OpenAI e a Microsoft, que acusa as empresas de copiar conteúdo jornalístico sem autorização para treinar modelos de IA.
A questão levantada pela Wikimedia toca no cerne do debate atual da inteligência artificial: quem paga pelo conhecimento que ela consome?
