Principais destaques
- Pesquisas indicam associação entre uso frequente de chatbots de IA e aumento de solidão, depressão e dependência emocional.
- Estudos com milhares de usuários mostram que quem cria vínculos com a IA tende a socializar menos e confiar mais no chatbot.
- Especialistas defendem educação digital e intervenções técnicas para reduzir riscos à saúde mental.
Um conjunto crescente de estudos acadêmicos e investigações jornalísticas está chamando atenção para um efeito colateral preocupante do avanço da inteligência artificial conversacional.
O uso intenso de chatbots como o ChatGPT e o Claude vem sendo associado a níveis mais altos de solidão, sintomas depressivos e até alterações na forma como usuários percebem a realidade.
Essas conclusões ganham peso em um contexto no qual milhões de pessoas, especialmente jovens, passaram a buscar nesses sistemas algo que vai além da produtividade. Para muitos, os chatbots se tornaram fontes de desabafo, apoio emocional e companhia cotidiana.
Jovens recorrem à IA para apoio emocional
Dados recentes mostram como essa relação tem se intensificado. Uma pesquisa conduzida pela organização britânica OnSide revelou que 39% dos jovens entre 11 e 18 anos na Inglaterra utilizam chatbots para conselhos ou apoio emocional.
Mais de um quinto afirmou achar mais fácil conversar com uma IA do que com outra pessoa.
Histórias individuais ajudam a dar rosto a esses números. Em uma reportagem da BBC, a jovem Paisley, de 23 anos, relatou ter desenvolvido uma dependência do ChatGPT após anos de isolamento durante a pandemia.
Segundo ela, o hábito de conversar várias vezes ao dia com a IA acabou enfraquecendo sua capacidade de socialização no mundo real.
Estudos ligam uso intenso à solidão e dependência
Um dos trabalhos mais citados sobre o tema foi conduzido pela OpenAI em parceria com o MIT Media Lab.
A pesquisa combinou um ensaio clínico randomizado com mil participantes e a análise de quase 40 milhões de interações. O resultado foi claro: maior uso diário esteve correlacionado a mais solidão, maior dependência e menor socialização.
Outro estudo de grande escala, publicado no JAMA Network Open, analisou mais de 20 mil adultos nos Estados Unidos.
Usuários diários de IA apresentaram um risco cerca de 30% maior de depressão moderada ou grave em comparação com quem não utiliza essas ferramentas com frequência.
Distorção da realidade preocupa pesquisadores
Pesquisadores da Anthropic e da Universidade de Toronto também identificaram riscos qualitativos.
Ao analisar 1,5 milhão de conversas com o Claude, eles observaram casos de distorção da realidade, quando crenças se tornam menos precisas, e distorção de ação, quando decisões passam a conflitar com valores pessoais.
Segundo os autores, um fator crítico é que muitos usuários avaliam positivamente interações que reforçam comportamentos prejudiciais, em parte devido ao tom sempre agradável e validante da IA.
Para especialistas como Jennifer Cearns, da Universidade de Manchester, esse traço torna os chatbots especialmente atraentes para pessoas solitárias, mas também potencialmente perigosos quando substituem relações humanas.
Os pesquisadores são enfáticos ao afirmar que apenas melhorar os modelos não basta. Educação digital, limites de uso e intervenções técnicas são apontados como caminhos essenciais para evitar que ferramentas criadas para ajudar acabem aprofundando o isolamento.
