Principais destaques:
- Desconexão crescente: Trabalhadores permanecem incrédulos diante dos alertas sobre o impacto da IA nos empregos.
- Diferenças culturais: Estudos mostram variações entre a percepção de americanos e canadenses sobre os riscos da automação.
- Realidade gradual: Apesar da pouca preocupação geral, dados já indicam substituições reais em determinadas profissões.
A apreensão sobre a inteligência artificial (IA) e seu potencial de eliminar postos de trabalho parece muito mais forte entre especialistas do que entre os próprios trabalhadores.
Dois novos estudos, um nos Estados Unidos e outro no Canadá, mostram que, apesar das previsões sombrias, a maioria das pessoas não acredita que o impacto da automação vá atingi-las tão cedo.
Essa distância entre os avisos e a preocupação pública evidencia um fenômeno curioso: a desconfiança das massas diante de transformações tecnológicas já em andamento.
Indiferença americana: quando o risco parece distante
Pesquisadores da Universidade da Califórnia, Merced, e da Universidade de Syracuse publicaram no Journal of Politics um amplo estudo sobre o tema. Liderados por Anil Menon e Baobao Zhang, eles entrevistaram 2.440 adultos americanos, apresentando diferentes cenários sobre o avanço da IA.
Parte dos voluntários leu previsões de grandes transformações no mercado de trabalho até 2026; outro grupo recebeu o mesmo aviso, mas com horizonte até 2030 ou 2060; e um grupo de controle não teve acesso a nenhuma projeção específica.
As conclusões surpreenderam: mesmo quando confrontados com previsões de mudanças iminentes, os participantes pouco alteraram suas expectativas.
Apenas o cenário mais distante, o de 2060, elevou de forma perceptível o nível de preocupação. Em outras palavras, quanto mais distante parece a ameaça, maior a inquietação, uma inversão curiosa da lógica comum.
Segundo Menon e Zhang, isso revela uma crença “teimosa” sobre a estabilidade do trabalho humano. Mesmo diante da possibilidade de IAs de nível humano surgirem em poucos anos, as pessoas não exigem políticas públicas robustas, como programas de qualificação ou renda básica universal.
Essa estabilidade emocional diante do avanço tecnológico, embora confortante, pode se tornar um problema quando as mudanças começarem a ganhar força prática.
O ceticismo canadense: entre o medo e a confiança
No Canadá, uma pesquisa conduzida pela Universidade de Toronto, sob a liderança do sociólogo Scott Schieman, apresentou resultados semelhantes, mas com nuances interessantes.
Entre 2.519 trabalhadores entrevistados, apenas 16% achavam “muito provável” que a IA provocasse perdas significativas de emprego. Outros 48% consideravam isso “um tanto provável”, revelando uma postura mais ambivalente do que alarmista.
Quando apresentados a comentários do CEO da Anthropic, Dario Amodei — que advertiu que a IA poderia cortar metade dos cargos de colarinho branco de nível inicial em até cinco anos, muitos canadenses reagiram com ceticismo.
Para alguns, essa seria apenas mais uma tentativa corporativa de maximizar lucros, enquanto outros acreditam firmemente na capacidade humana de se adaptar: “O mercado vai se reorganizar, como sempre fez”, afirmou um dos entrevistados.
Esse contraste entre medo e pragmatismo mostra que, embora o discurso sobre IA esteja em todo lugar, a percepção individual ainda é filtrada pela experiência pessoal e pela confiança cultural no progresso.
O impacto real: dados mostram cortes, mas sem colapso
Ainda que a inquietação pública pareça limitada, os sinais de mudança já são reais e mensuráveis.
A consultoria Challenger, Gray & Christmas identificou 17.375 cortes de empregos atribuídos diretamente à automação por IA entre janeiro e setembro de 2025.
E uma pesquisa de Stanford descobriu que jovens profissionais (com idades entre 22 e 25 anos) em áreas mais expostas à IA já enfrentam uma redução de 13% nas oportunidades de trabalho, comparados a colegas de setores menos afetados.
Mesmo assim, os dados macroeconômicos não apontam para um desemprego generalizado. Segundo o Economic Innovation Group, a desaceleração nas contratações tem relação mais direta com a incerteza econômica global do que com a substituição por máquinas.
O próprio presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, compartilha dessa visão: a IA, por enquanto, é apenas uma das variáveis nesse novo cenário.
Mas a lição dos estudos é clara: enquanto a percepção pública permanecer desconectada da realidade dos dados, será difícil construir políticas públicas eficazes para a era da automação.
Como resumem Menon e Zhang, o desafio é entender “por que as expectativas são tão resistentes à mudança — e como isso moldará nossa reação às próximas transformações do trabalho.”
