Tim Berners-Lee: a IA pode levar ao colapso do modelo de internet financiado por anúncios

Renê Fraga
5 min de leitura

Principais destaques:

  1. Tim Berners-Lee alerta que a ascensão da IA pode desestabilizar o modelo econômico da web baseada em anúncios.
  2. O criador da internet prevê uma nova era onde AIs produzem e consomem dados, um “web semântica” dominada por máquinas.
  3. Ele defende a descentralização e propõe que o futuro da web inclua micropagamentos e novas arquiteturas de remuneração digital.

Sir Tim Berners-Lee, criador da World Wide Web e um dos maiores visionários da era digital, voltou aos holofotes com um alerta que ressoa em todo o ecossistema da inteligência artificial: a IA pode, sem querer, demolir a base econômica que sustenta a web que conhecemos hoje.

Em uma entrevista recente ao podcast Decoder, de Nilay Patel, Berners-Lee expressou preocupação com o impacto que ferramentas de IA, especialmente as capazes de gerar respostas completas sem direcionar o usuário aos sites de origem, estão tendo sobre o modelo de publicidade digital.

“Se as pessoas deixarem de clicar em links e visitar sites, toda a engrenagem de receita publicitária que mantém a internet funcionando começa a ruir. E isso me preocupa muito”, afirmou.


Por décadas, o motor econômico da internet foi simples: conteúdo gera tráfego, e tráfego gera anúncios. Mas com a chegada dos grandes modelos de linguagem, como chatbots e mecanismos de busca baseados em IA, esse ciclo está sendo interrompido.

Hoje, cada vez mais pessoas recebem respostas diretas dentro de plataformas inteligentes, sem sair delas. Para empresas, criadores e veículos de mídia, isso significa menos visitas e menos receita, o que coloca em xeque toda a estrutura do marketing digital e do SEO.

Berners-Lee vislumbra um cenário em que o valor se concentra nas plataformas de IA, enquanto o restante da web perde relevância. Para ele, isso representa um ponto crítico:

“O modelo atual se desintegra se os usuários não navegarem mais pela web tradicional. Nesse caso, o que sobra é um ecossistema onde poucos concentram o acesso e os dados — e essa é a antítese da web aberta que idealizei.”


Monopólios digitais: um velho fantasma, agora vestido de IA

Em outra parte da entrevista, Berners-Lee reforçou sua crítica à centralização da internet.

Ele lembrou momentos em que havia diversidade de navegadores, motores de busca e redes sociais — antes que alguns poucos players dominassem tudo. “Hoje temos basicamente um navegador, um buscador e uma grande rede social. Isso é problemático”, lamentou.

O avanço da IA acentua ainda mais esse risco. Se as principais inteligências artificiais forem controladas por poucas companhias, a promessa de democratizar o acesso à informação pode se inverter, criando um novo tipo de monopólio de dados e influência.


A nova web semântica: dados criados por IA, para IA

Durante sua carreira, Berners-Lee foi um defensor incansável da Web Semântica — uma internet inteligível tanto por humanos quanto por máquinas. Hoje, ele enxerga uma nova fase desse conceito: a era dos dados gerados por IA.

“A Web Semântica teve sucesso em projetos como o Schema.org ou o OpenStreetMap”, explicou. “Mas agora estamos entrando em uma onda onde as próprias inteligências artificiais geram e consomem dados umas das outras. É uma web feita por e para IAs, com humanos interagindo no meio disso.”

Essa visão traz tanto fascínio quanto preocupação. Por um lado, promete automação e interoperabilidade inéditas. Por outro, levanta dúvidas sobre controle, transparência e sustentabilidade para quem ainda cria conteúdo “manual” — isto é, pessoas reais.


O possível futuro: micropagamentos e novos protocolos

Quando questionado sobre como a arquitetura da web poderia evoluir para se adaptar a esse novo cenário, Berners-Lee mencionou a ideia dos micropagamentos digitais, pequenas transações automáticas que remunerariam criadores, bancos de dados e sites por cada acesso ou requisição de dados feita por humanos ou inteligências artificiais.

Ele relembrou que o W3C, instituto que ele fundou, já explorou o conceito no passado: um modelo em que “cada requisição na web poderia carregar um pequeno custo, em vez de depender exclusivamente de publicidade.”

Se uma “web paga por requisição” se tornar realidade, isso pode redefinir os incentivos e trazer nova vida à economia digital, desde que preservando os valores originais de abertura, interoperabilidade e liberdade que guiariam a internet ideal de Berners-Lee.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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