Tempestade dupla: Deepfakes de IA confundem o mundo durante o Furacão Melissa

Renê Fraga
4 min de leitura
Principais destaques:
  • Explosão de desinformação: Vídeos realistas, mas falsos, tomaram conta das redes sociais durante o Furacão Melissa, confundindo milhões de pessoas.
  • O papel da IA: Grande parte do conteúdo foi criado com o novo gerador de vídeo da OpenAI, o Sora 2, marcando um ponto de virada no uso de inteligência artificial em crises reais.
  • Impacto humano ofuscado: Enquanto os deepfakes viralizavam, o verdadeiro sofrimento das comunidades atingidas pelo furacão se perdia em meio ao caos digital.

Uma tempestade real e uma digital

Enquanto ventos de quase 300 km/h devastavam a Jamaica, uma segunda tempestade, invisível, mas igualmente poderosa, se formava nas redes sociais.

O Furacão Melissa, um dos mais intensos já registrados no Atlântico, arrastou consigo um novo tipo de caos: uma onda de vídeos forjados por inteligência artificial.

Em questão de horas, o TikTok, o Instagram, o X (antigo Twitter) e o Facebook foram inundados com imagens que pareciam perfeitamente reais, tubarões nadando em piscinas de hotéis, aeroportos “arruinados” e falsos resgates dramáticos. Todos fabricados por IA.

Grande parte desse material vinha do Sora 2, a mais recente ferramenta de texto para vídeo lançada pela OpenAI.

Em alguns vídeos era possível ver discretamente a marca d’água da tecnologia, mas em muitos casos, ela havia sido removida ou cortada – um esforço deliberado para enganar o público.


Plataformas em alerta e um público vulnerável

As redes sociais correram para minimizar o estrago, mas o desafio era imenso.

O TikTok, por exemplo, removeu dezenas de vídeos falsos após alertas da imprensa, embora boa parte continuasse circulando em grupos privados e mensageiros como o WhatsApp.

Um dos vídeos mais difundidos mostrava quatro tubarões “nadando” em uma piscina jamaicana – um absurdo que, mesmo assim, conquistou mais de 2 milhões de visualizações. Outro, que retratava o aeroporto de Kingston em ruínas, enganou milhares de usuários antes de ser desmentido.

Diante do colapso informacional, a ministra da Educação da Jamaica, Dana Morris Dixon, fez um apelo público: “Muitos desses vídeos são falsos.

Confiem apenas nas comunicações oficiais.” O alerta veio em boa hora — relatos de destruição começaram a circular antes mesmo de o furacão tocar o solo.

Ferramentas de checagem, como o SynthID do Google e o sistema da Full Fact, confirmaram que até 99,8% dos vídeos analisados eram artificiais. Um dado que mostra o quanto a linha entre o real e o digital ficou tênue.


A tragédia real por trás da cortina digital

Enquanto os vídeos falsos acumulavam curtidas e compartilhamentos, a realidade na Jamaica era devastadora. O Furacão Melissa deixou um rastro de destruição: pelo menos oito mortos, dezenas de vítimas em países vizinhos e milhares de desabrigados.

Cerca de 77% da ilha está sem energia, e centenas de comunidades continuam isoladas. As piores cenas vêm da paróquia de St. Elizabeth, descrita pelas autoridades como o “marco zero” da destruição.

Segundo Amy McGovern, especialista em meteorologia da Universidade de Oklahoma, o fenômeno revela um perigo crescente: “Quando vídeos falsos dominam a atenção, mensagens de segurança podem ser ignoradas. E isso pode custar vidas.”

O furacão Melissa serviu como laboratório involuntário de um novo problema global, o impacto da desinformação gerada por IA durante emergências.

Mais do que um evento climático, foi um teste de consciência: estamos preparados para enfrentar a era dos desastres digitais?

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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