Principais destaques:
- Explosão de desinformação: Vídeos realistas, mas falsos, tomaram conta das redes sociais durante o Furacão Melissa, confundindo milhões de pessoas.
- O papel da IA: Grande parte do conteúdo foi criado com o novo gerador de vídeo da OpenAI, o Sora 2, marcando um ponto de virada no uso de inteligência artificial em crises reais.
- Impacto humano ofuscado: Enquanto os deepfakes viralizavam, o verdadeiro sofrimento das comunidades atingidas pelo furacão se perdia em meio ao caos digital.
Uma tempestade real e uma digital
Enquanto ventos de quase 300 km/h devastavam a Jamaica, uma segunda tempestade, invisível, mas igualmente poderosa, se formava nas redes sociais.
O Furacão Melissa, um dos mais intensos já registrados no Atlântico, arrastou consigo um novo tipo de caos: uma onda de vídeos forjados por inteligência artificial.
Em questão de horas, o TikTok, o Instagram, o X (antigo Twitter) e o Facebook foram inundados com imagens que pareciam perfeitamente reais, tubarões nadando em piscinas de hotéis, aeroportos “arruinados” e falsos resgates dramáticos. Todos fabricados por IA.
Grande parte desse material vinha do Sora 2, a mais recente ferramenta de texto para vídeo lançada pela OpenAI.
Em alguns vídeos era possível ver discretamente a marca d’água da tecnologia, mas em muitos casos, ela havia sido removida ou cortada – um esforço deliberado para enganar o público.
Plataformas em alerta e um público vulnerável
As redes sociais correram para minimizar o estrago, mas o desafio era imenso.
O TikTok, por exemplo, removeu dezenas de vídeos falsos após alertas da imprensa, embora boa parte continuasse circulando em grupos privados e mensageiros como o WhatsApp.
Um dos vídeos mais difundidos mostrava quatro tubarões “nadando” em uma piscina jamaicana – um absurdo que, mesmo assim, conquistou mais de 2 milhões de visualizações. Outro, que retratava o aeroporto de Kingston em ruínas, enganou milhares de usuários antes de ser desmentido.
Diante do colapso informacional, a ministra da Educação da Jamaica, Dana Morris Dixon, fez um apelo público: “Muitos desses vídeos são falsos.
Confiem apenas nas comunicações oficiais.” O alerta veio em boa hora — relatos de destruição começaram a circular antes mesmo de o furacão tocar o solo.
Ferramentas de checagem, como o SynthID do Google e o sistema da Full Fact, confirmaram que até 99,8% dos vídeos analisados eram artificiais. Um dado que mostra o quanto a linha entre o real e o digital ficou tênue.
A tragédia real por trás da cortina digital
Enquanto os vídeos falsos acumulavam curtidas e compartilhamentos, a realidade na Jamaica era devastadora. O Furacão Melissa deixou um rastro de destruição: pelo menos oito mortos, dezenas de vítimas em países vizinhos e milhares de desabrigados.
Cerca de 77% da ilha está sem energia, e centenas de comunidades continuam isoladas. As piores cenas vêm da paróquia de St. Elizabeth, descrita pelas autoridades como o “marco zero” da destruição.
Segundo Amy McGovern, especialista em meteorologia da Universidade de Oklahoma, o fenômeno revela um perigo crescente: “Quando vídeos falsos dominam a atenção, mensagens de segurança podem ser ignoradas. E isso pode custar vidas.”
O furacão Melissa serviu como laboratório involuntário de um novo problema global, o impacto da desinformação gerada por IA durante emergências.
Mais do que um evento climático, foi um teste de consciência: estamos preparados para enfrentar a era dos desastres digitais?
