Principais destaques
- A integração entre o chatbot Grok e o Telegram nunca saiu do papel por divergências sobre privacidade.
- O mesmo impasse travou conversas do Telegram com outras empresas de IA, como a Perplexity.
- Em vez de apostar em terceiros, a plataforma decidiu criar sua própria rede descentralizada de IA, chamada Cocoon.
Em 2025, a expectativa era alta em torno de uma integração profunda entre o Telegram e o Grok, chatbot desenvolvido pela empresa de Elon Musk.
O acordo previa um aporte de cerca de US$ 300 milhões, além de participação em receitas de assinaturas.
Um ano depois, o projeto foi silenciosamente abandonado. Agora, surgem os bastidores que explicam por que a parceria nunca avançou.
O impasse da privacidade travou as negociações
Segundo fontes próximas às conversas, o Grok não foi a única opção analisada pelo Telegram. A empresa também dialogou com a Perplexity e outros provedores de inteligência artificial.
Em todos os casos, as discussões esbarraram no mesmo ponto: como garantir privacidade absoluta aos usuários, sem zonas cinzentas sobre acesso, uso e retenção de dados.
Para o Telegram, permitir que mensagens privadas, documentos ou históricos de conversa fossem processados por uma IA centralizada representava um risco inaceitável.
A resistência dos próprios usuários a esse tipo de compartilhamento reforçou a decisão de não seguir adiante, mesmo diante de propostas financeiramente atraentes.
A visão de Pavel Durov sobre IA e controle de dados
Em outubro de 2025, durante o evento Blockchain Life em Dubai, o fundador do Telegram, Pavel Durov, já havia sinalizado preocupação com o crescimento de bots de IA baseados em provedores centralizados.
Embora reconheça que o chat é uma interface natural para a inteligência artificial e que o Telegram possui uma API poderosa, Durov alertou para o risco de concentração de dados nas mãos de poucas empresas.
Na visão dele, muitos sistemas de IA não apenas treinam modelos com dados dos usuários, mas também podem usá-los para perfis comportamentais e até manipulação.
Essa leitura levou a empresa a defender um modelo em que a tecnologia pertença às pessoas, e não a corporações ou governos.
Por que o Telegram apostou na Cocoon
Diante desse cenário, a plataforma optou por abrir mão da integração com o Grok, desenvolvido pela xAI de Elon Musk, e de possíveis parcerias com soluções como ChatGPT ou Perplexity.
Em vez disso, lançou a Cocoon, uma rede aberta e descentralizada para processamento de tarefas de IA.
Apresentada oficialmente em novembro, a Cocoon permite traduções automáticas, resumos de mensagens e até sínteses de páginas da web, tudo sem que os dados dos usuários sejam expostos a terceiros.
A proposta é de transparência total e autonomia no processamento, algo que o Telegram considera essencial para qualquer recurso de IA dentro do aplicativo.
Ao escolher esse caminho, a empresa deixou claro que prefere crescer mais devagar a comprometer a confiança dos usuários.
O episódio do Grok mostra que, para o Telegram, privacidade continua valendo mais do que grandes cheques ou parcerias de alto perfil.
