Seu histórico do ChatGPT pode não ser tão privado quanto você imagina

Renê Fraga
4 min de leitura

✨ Principais destaques:

  • Decisão judicial nos EUA obriga a OpenAI a manter históricos de conversas, mesmo quando usuários pedem exclusão.
  • O histórico do ChatGPT pode revelar muito mais sobre você do que suas redes sociais ou buscas no Google.
  • Especialistas alertam: é hora de repensar o que compartilhamos com a IA.

Page Harrington, 33 anos, de Massachusetts, descobriu que seu histórico no ChatGPT é quase um retrato íntimo de sua vida.

Ela usa a ferramenta para tudo: criar rotinas visuais para o filho com TDAH, planejar a decoração da casa, buscar músicas para TikTok e até imaginar pinturas divertidas da família.

O resultado? Um arquivo digital que, segundo ela, mostra exatamente como sua mente funciona.

“É como olhar para dentro do meu cérebro”, contou. E Harrington não está sozinha.

Estima-se que o ChatGPT tenha entre 800 milhões e 1 bilhão de usuários ativos por dia. Para muitos, a IA já se tornou uma extensão da própria identidade.

Mas essa proximidade traz uma questão delicada: o que acontece com todo esse histórico de conversas?

Por que você não pode apagar seu histórico

Em maio, a juíza federal Ona Wang, em Nova York, determinou que a OpenAI deve preservar os históricos de conversas dos usuários como parte de um processo judicial movido pelo The New York Times.

O jornal acusa a empresa de usar seus artigos para treinar modelos de IA sem autorização, e os registros de chats podem servir como prova.

O que significa que, mesmo que você peça para apagar suas conversas, a OpenAI não pode atender, pelo menos por enquanto.

Segundo o advogado Jay Edelson, “cada chat feito nos EUA está congelado por ordem judicial e não pode ser deletado”. A medida não afeta contas empresariais, mas impacta milhões de usuários comuns.

A OpenAI afirma que os dados estão sendo armazenados em um sistema separado e seguro, acessível apenas por equipes jurídicas e de segurança.

Ainda assim, especialistas alertam: qualquer grande repositório de dados é um alvo em potencial para ataques cibernéticos ou solicitações legais.

ChatGPT: ferramenta ou confidente?

O que torna essa situação ainda mais sensível é a forma como nos relacionamos com a IA.

Diferente de uma busca no Google, conversar com o ChatGPT pode parecer íntimo, quase como falar com um amigo ou terapeuta.

A professora Kate Devlin, do King’s College London, explica: “Tendemos a tratar essas ferramentas como se fossem parte de nós”.

Para alguns, como Rue Halloway, criadora de conteúdo de 20 anos em Nova York, isso não é um grande problema. Ela já compartilha dados pessoais em várias plataformas e vê o ChatGPT como apenas mais uma.

Mas outros usuários, como Harrington, preferem evitar perguntas muito pessoais, focando em temas práticos, como dicas de skincare ou organização da rotina.

O ponto central é que não existe uma lei federal nos EUA que proteja totalmente a privacidade online.

E, como lembra Calli Schroeder, especialista em privacidade digital, mesmo que você peça exclusão, “uma vez que a informação entra no treinamento de um modelo, não há como retirá-la”.

Como se proteger ao usar o ChatGPT

Se você está preocupado com a privacidade, aqui vão algumas recomendações de especialistas:

  • Não use a IA como substituto de apoio emocional ou médico. Ela foi projetada para soar convincente, não necessariamente correta.
  • Lembre-se: privado não significa confidencial. Tudo o que você escreve é processado por uma empresa de tecnologia.
  • Pense antes de digitar. Uma vez enviado, o conteúdo não é mais só seu.
Seguir:
Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
Nenhum comentário